Cultura

Artistas insatisfeitos com situação da UNAC

“A juventude só vai perceber a dimensão artística dos músicos da antiga geração e a história musical angolana se continuarmos a divulgar esses acontecimentos”, afirmou ontem, em Luanda, o cantor e compositor Rui Morais.

Em declarações ao Jornal de Angola, à margem do primeiro encontro dos membros do núcleo A Voz do Artista, realizado no espaço cultural Grémio, Rui Morais mostrou-se preocupado com a actual situação da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-SA) e o adiamento da eleição dos corpos gerentes inicialmente prevista para 17 de Agosto passado.
O cantor, que em Setembro de 2016 foi homenageado no programa cultural “Em defesa do Semba”, promovido pelo Centro Recreativo Muximangola, defendeu um veredicto urgente sobre as eleições à presidência dos novos corpos directivos da instituição, adiadas “sine die” por decisão do Tribunal Provincial de Luanda.
Com dois discos em vinil gravados nos Estúdios Norte, em 1973, Rui Morais disse que actualmente os músicos, fundamentalmente os da antiga geração, encontram-se num “barco sem rumo”, porque a situação vigente na UNAC-SA está a dificultar a dinamização das actividades da classe.
Prado Paim, o primeiro angolano a conquistar um disco de ouro pela Companhia de Discos de Angola (CDA) em 1974, espera que o actual quadro da instituição, que defende os interesses da classe, se altere urgentemente e que as políticas culturais sejam mais inclusivas.
Um dos melhores compositores de rumba da sua geração, Prado Paim, que começou a carreira em 1948, manifestou-se indignado com a atitude de alguns dirigentes, que pouco fazem para melhorar a condição social dos artistas que muito contribuíram para o alcance da Independência Nacional.
Quem também corrobora com o mesmo pensamento é Fatozinha, uma cantora de referência da música de intervenção em Angola, que começou a carreira artística antes da independência, na década de 60, quando decidiu enveredar pela música.
Fatozinha lamenta o estado de abandono da maior parte dos músicos de intervenção, que no período anterior à Independência “foi um factor motivacional, uma vez que as mensagens sensibilizavam a juventude para pegar em armas e lutar para que o país fosse o que é hoje, livre, unido e indivisível”.
“Agora, na hora da divisão equitativa dos benefícios do alcance da Independência, só alguns são beneficiados. Porquê?”, questiona a cantora que gravou há nove anos o primeiro disco intitulado “Divua”.
A recuperação do edifício de três andares da Fábrica de Discos de Angola (Fadiang) na cidade do Cuito, capital do Bié, de acordo com os músicos Juca Morgado, Tony Von, Joel, Matiano “Man Mata”, o ilusionista Magia Negra e a dançarina Minga, seria uma das soluções para a produção de discos de artistas angolanos a baixo custo.
Paralisada há mais de 38 anos, devido ao conflito armado, a Fábrica de Discos de Angola produzia discos de vinil de músicos angolanos e estrangeiros.
O espaço cultural Grémio, criado pelo artista Chico Coio, ficou conhecido pelas tertúlias do núcleo A Voz do Artista. É um local de solidariedade e debate de ideias sobre o estado da música. Serve ainda de pretexto para o reencontro de cantores, compositores e instrumentistas de importância simbólica na história da Música Popular Angolana (MPA).
 No cantinho do Coio era frequente a passagem, em reunião, entre outras figuras, dos guitarristas Hidelbrando Cunha, Zeca Tyrilene e Gegé Faria e os cantores Carlos Lamartine, Xabanú, Cirineu Bastos e Kituxi, dos Kiezos.