Cultura

Formadora de sucesso

Delfina Alberto tem 43 anos, nasceu no Bairro da Camunda próximo do Buraco da Camara, no município de Benguela, e trabalha actualmente no Cunene.

Fina para os amigos e para a família, Delfina é filha de Tomás Alberto e de Ana Maria Purfilho Adão e neta de Alberto Kambaia e Delfina e pela parte da mãe de Felismina Kuianda e Purfilho Adão Kapuete.
Delfina é a terceira de onze irmãos, fez  o ensino primário na escola Saidy Mingas em Benguela, o segundo nível na escola 10 de Fevereiro, o terceiro nível no Liceu Comandante Cassanje e o PUNIV também em Beguela.
Quando perdeu a  mãe, aos 16 anos, o seu pequeno mundo  desabou. O pai era marceneiro,  trabalhava por conta própria e atravessava  uma crise financeira por causa da guerra, não conseguia adquirir madeira para produzir os móveis para vender e suportar as despesas da  família.
Em consequência desta situação, o pai de Delfina foi forçado a  distribuir os filhos pelos familiares mais próximos, no caso os tios, numa altura que  a situação para os tios também não era fácil.
 A avó materna de Delfina, vendo a situação dos netos, recolhe-os em casa e passa a assumir os cuidados de toda a família.
Com os netos, ela dividia o pouco que conseguia da sua pequena parcela de terra  no vale do Cavaco  
 A mãe de Delfina  não sabia ler nem escrever  e contava aos filhos que  o seu pai não a tinha posto na escola por ser menina.
Isso  marcou a jovem Delfina, que faz justiça à sua mãe, por ter feito questão de todos os seus filhos irem à escola.
O dinheiro que conseguiam da horta da avó não chegava para pagar  as despesas e assim, com 17 anos, em pleno terceiro  ano do PUNIV, Delfina  emprega-se como balconista numa loja da Polícia em Benguela, passando a estudar de noite.
A vida de Delfina mudou quando soube que ia haver uma palestra da organização ADPP-Ajuda de Povo para Povo sobre a nova escola para professores primários que ia abrir na província do Huambo.
Corria o ano de 1995 e Delfina ficou empolgada com a explicação sobre as escolas de formação de professores.
Daí até partir para o Huambo para frequentar um curso de formação de professores foi um instante. Em 1997, dois anos e meio mais tarde, Delfina volta a Benguela como estagiária num grupo de oito estudantes colocados no município da Ganda.
Eram tempos de guerra mortífera e por isso foi muito difícil, tanto para Delfina como para os colegas, sem  experiência de trabalho em zona de conflito armado, mas a pouco a pouco habituaram-se.
Além de leccionar, Delfina criou e implementou um  microprojecto e  trabalha com um grupo de alfabetização. Delfina descobriu a sua paixão: trabalhar no meio rural. 
As comunidades com  quem trabalhava, diz Delfina, cuidavam muito bem dos novos professores. “Com elas aprendi a ter coragem, vi  mulheres muito jovens e mais velhas com os seus filhos, trabalhavam nas suas lavras e apesar dos riscos que corriam diariamente de serem raptadas ou mortas, acordavam cada manhã para irem trabalhar para manteren as suas familias.”
Delfina viu mulheres enterrarem os filhos vítimas da guerra e apesar disso tinham coragem para recomeçar, sempre com a esperança em dias melhores. “Isso aprofundou o meu  entendimento e   influenciou a minha escolha como profissional, pois eu conheci as suas vidas anteriores, tinha testemunhado as suas vidas e quando os acordos de paz foram assinados, tinha a certeza de que lhe devia o meu envolvimento na luta pela erradicação da pobreza, analfabetismo, eliminação de todas as formas de discriminação e na manutenção da paz.”
A partir daí a determinação de Delfina reforçou-se, ela queria ajudar os mais necessitados, sobretudo as crianças, e em 1999 já é professora na Escola de Professores do Futuro-ADPP em Benguela, depois no Huambo, de cuja Cidadela das Crianças foi directora.
Engana-se quem pensar que Delfina estacionou aí. Em 2002, ano que marca o início da Paz, Delfina é Directora do Tecto Para Crianças de Rua, em Luanda,  durante um ano, depois parte para o Lobito para ser Formadora de Capacidades para a Vida durante três anos, depois ruma para o Bié, onde é Directora Adjunta da Escola de Formação de Professores do Futuro-ADPP  e em 2007 é Directora da Escola de Professores do Futuro-ADPP de Benguela durante dez anos.  Em 2018, eis Delfina Alberto directora do Magistério ADPP do  Cunene, dirigindo a formação de professores para o meio rural.
 Ao longo dos 22 anos de carreira profissional, foram colocadas a Delfina Alberto inúmeras dificuldades, uma das quais ser ao mesmo tempo mulher, mãe e profissional. Assumir os três papéis é um desafio diário que Delfina encara de frente, sem medo nem hesitações. “As pessoas que trabalhavam comigo entenderam a seriedade e o compromisso pessoal das minhas responsabilidades.”
Ao longo de todos estes anos de trabalho na ADPP-Escola de Professores do Futuro, Delfina conviveu com crianças e jovens e com eles diz  aprender lições valiosas, “a mais importante de todas, explica é ser parte da educação das crianças e ser participante activa no seu processo de transformação”.