Cultura

Intemporalidade literária e estética do Discurso Tamodiano

Embora os pressupostos culturais e a motivação política estejam em íntima relação, remetemos o pseudónimo literário, Uanhenga Xitu, ao conjunto da sua criação literária e o nome baptismal, Agostinho André Mendes de Carvalho, ao universo da intervenção política.

Entendemos que quando os limites de reflexão cultural, endógena, em Uanhenga Xitu, não conseguiram cumprir os desideratos da sua função social e persuasiva, perante o colonizador, ocorreu a rebeldia e o pragmatismo da intervenção política, em Agostinho André Mendes de Carvalho.
A importância e o simbolismo de Agostinho André Mendes de Carvalho, enquanto figura emblemática do nacionalismo angolano, da luta pela independência e depositário da cultura e história de Icolo e Bengo, está plasmada no atribulado percurso da sua vida, que começa com a influência da educação religiosa, os estudos primários e o ambiente social em Calomboloca, influência do tronco familiar e ramificações genealógicas, juventude e primeiro emprego, clandestinidade na luta anti-colonial e peregrinação pelo interior do país, na condição de enfermeiro.
A percepção das contradições da colonização na juventude de Mendes de Carvalho, resultou na tomada de consciência do nacionalismo e na consequente militância no MPLA. As consequências foram os contornos políticos do processo cinquenta, a primeira prisão, em 1959, e o desterro no campo de concentração do Tarrafal de Santiago, Chão Bom, de 1962 a 1970. Importante terá sido o reencontro com Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso, seus companheiros de reclusão, facto que terá motivado o exercício da escrita literária. Na sequência, surgiu o período de pós- reclusão, que ficou marcado pela actividade política em Luanda, num contexto social e político que deu azo ao surgimento do emblemático opúsculo, “O meu Discurso”, editado em 1974.

Oralidade
Em relação a questão da oralidade, é curiosa a forma como, Uanhenga Xitu, avalia o seu perfil como escritor, “no?s que o nosso liceu foi no arranjo da estrada, carregar sacos, apanhar algodão, rachar lenhas, e o pagamento bofetada e pontape? no rabo pela ma?quina colonial, e a Universidade foi a cadeia, compreende-se, portanto, que o que mais podemos oferecer aos leitores sa?o as imagens que recolhemos durante esses anos de observação directa de factos vividos na sanzala, sem preocuparmo-nos com rendilhados e o estilo de bom portugue?s de filhos de escritores. Sou escritor de “mulala na mbunda”, misturando portugue?s, quimbundo e umbundo”. (in Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem). De facto, Uanhenga Xitu pensa em kimbundu e as notas de esclarecimento e tradução das palavras em kimbundu, no rodapé dos seus livros, indiciam os limites de expressão em língua portuguesa, para revelar a profundidade cultural do seu pensamento. As marcas de oralidade, em kimbundu, emigram para o texto escrito de forma natural, no conjunto da obra “uanhenguiana”. Estas marcas revelam-se através de códigos musicais nas canções de roda, “Kaxée” e “Ndolonga”, no livro “Kaitu”, dois exemplos de códigos proverbiais, a que se juntam códigos onomásticos, representados pelos nomes das personagens dos seus livros: avô Mbengu, velha Kazola, Kalunga, velha Kifila, avô Matudi, KundaNzenza, “Kaxena”, “Mufula”, Saki,“Tamoda”, entre outros.
Cultura
Agostinho André Mendes de Carvalho, em situação de reclusão, foi mais propenso à criação de uma literatura com forte enraizamento na sua cultura originária, plasmada nas obras: “Bola com feitiço” (1974), “Vozes na Sanzala/Kahitu” (1976), “Mestre Tamoda e outros Contos” (1974), “Manana” (1974) e “Maka na sanzala” (1979). Julgamos ter sido a instância cultural da sua personalidade que o leva à tomada de consciência política, e, acto contínuo, ao processo dos cinquenta e à consequente situação de desterro no Tarrafal. É curioso notar que o estado solitário de penitência, levou o escritor a um estado de nostalgia, instaurando-se um romantismo das memórias da sanzala de proveniência, com longos momentos de elevada introspecção. Daí que tenha sido natural o processo de criação literária, transfigurando em arte, os valores intrínsecos da sua personalidade cultural.

Política
A liberdade, pós-reclusão, propiciou a aparição de obras de pendor político, “O meu discurso” (1974), “Mungo - Os sobreviventes da máquina colonial depõem” (1980), “O ministro” (1990) e “Cultos especiais” (1997). Note-se que o “Ministro”, uma das obras mais polémicas da última fase da escrita de pendor político, revela um cronista do seu tempo, embora adverso e ambíguo, configurando um texto que pode ser lido como testemunho histórico, reportagem de uma época ou registo auto-biográfico. O “Ministro” junta, à matéria ficcional, as memórias do político, numa postura de inequívoca auto-crítica, e incursões sobre assuntos cuja abordagem foi muitas vezes evitada, porque politicamente incorrectas. É nesta perspectiva que a obra é também o retracto de uma certa consciência colectiva da sociedade política angolana, com os incidentes de percurso. A interferência do autor empírico, Mendes de Carvalho, enquanto sujeito de enunciação narrativa da trama romanesca, coloca o “Ministro” numa dimensão estilística muito característica do autor.

Percurso
Filho de André Gaspar Mendes de Carvalho e de Luísa Miguel Fernandes, Agostinho André Mendes de Carvalho nasceu na aldeia de “Nganga Zuze”, comuna de Calomboloca, Município de Icolo e Bengo, no dia 29 de Agosto de 1924. Concluiu os estudos primários, secundários e o curso de enfermagem, em Luanda, profissão que exerceu, durante muitos anos, os últimos dos quais na rua da Dona Amália, Município do Rangel. Fez estudos em Ciências Políticas na Alemanha (Ex-RDA). Foi preso, em 1959, tendo feito parte do chamado “Processo dos cinquenta” e enviado para o Tarrafal onde permaneceu de 1962 a 1970. Membro do Conselho da Revolução, Governador da Província de Luanda, Ministro da Saúde , Embaixador de Angola na República da Polónia e Deputado do MPLA.