Cultura / Música

Tenor Plácido Domingo acusado de assédio sexual

O cantor espanhol Plácido Domingo terá assediado sexualmente várias mulheres e usado a sua posição de relevo para as punir quando o recusavam. A revelação foi feita, esta semana, pela agência de notícias Associated Press (AP) - citada pelo Diário de Notícia e Lusa-, que divulga relatos de profissionais do meio cultural a confirmar esses comportamentos.

Numa extensa investigação por parte da agência norte-americana, oito cantoras e uma bailarina disseram ter sido assediadas sexualmente por Plácido Domingo, numa série de acontecimentos que ocorreram ao longo de três décadas, em espaços que incluíam companhias de ópera, onde o cantor ocupava cargos de direcção. Muitas dizem ter sido avisadas por colegas para nunca ficarem a sós com Domingo.
Seis outras mulheres relataram à AP avanços que lhes causaram desconforto, em particular uma cantora que Plácido Domingo repetidamente convidou para sair, depois de a ter contratado para uma série de concertos na década de 1990.
Adicionalmente, quase 30 outras pessoas ligadas à indústria musical, desde cantoras a músicos de orquestra, passando por professores de canto e administradores, confirmaram ter testemunhado comportamentos impróprios de índole sexual por parte do espanhol, agora com 78 anos.
Uma das mulheres que acusam Plácido Domingo de assédio sexual contou à AP que o espanhol enfiou a mão dentro da sua saia e três outras acusam-no de as ter beijado à força em camarins, num quarto de hotel e num almoço. “Alguém a tentar segurar a tua mão durante um almoço de negócios é estranho - ou a colocar a tua mão no teu joelho. Ele estava sempre a tocar-te de alguma maneira e sempre a beijar-te”, disse uma das cantoras.
Das nove pessoas que acusam o cantor, apenas a meio-soprano Patricia Wulf aceitou divulgar o seu nome, tendo as restantes pedido anonimato, por temer represálias profissionais e pessoais. Sete das nove mulheres disseram acreditar que as carreiras sofreram por terem rejeitado os avanços sexuais de Plácido Domingo.
Uma delas disse que teve relações sexuais com o cantor em duas ocasiões e que, numa delas, quando Plácido Domingo saiu do quarto, deixou uma nota de 10 dólares na cómoda: “Não quero que te sintas como uma prostituta, mas também não quero que tenhas de pagar para estacionar.”

“Acusações imprecisas”
Contactado pela AP, Plácido Domingo não respondeu às questões específicas sobre as acusações, declarando que "as alegações destas pessoas, cujo nome não é divulgado e que remontam até há 30 anos, são profundamente perturbadoras e - da forma como são apresentadas - imprecisas".
"Ainda assim, é doloroso ouvir que posso ter incomodado alguém ou causado desconforto, não importa há quanto tempo e apesar das minhas melhores intenções. Acreditei que todas as minhas interacções e relações foram sempre bem-vindas e consensuais. Quem me conhece ou trabalhou comigo sabe que não sou alguém que intencionalmente magoasse, ofendesse ou embaraçasse outra pessoa", acrescentou o cantor, que diz que "as regras e padrões" de hoje são "muito diferentes do que foram no passado".
A influência do cantor no meio - membro do conjunto de Três Tenores, com José Carreras e Luciano Pavarotti, director-geral da Ópera de Los Angeles, presidente da Europa Nostra, presidente da administração da Federação Internacional da Indústria Fonográfica e responsável pelo concurso Operalia, que se realizou em Lisboa no ano passado - é tamanha que só Wulf aceitou dar a cara em declarações à AP.

 

Movimento já originou várias denúncias

Muitas das pessoas admitiram sentir-se fortalecidas pelo movimento #MeToo e decidiram que a maneira mais eficaz de atacar a má conduta sexual na indústria era denunciar o comportamento da figura mais proeminente da ópera.
Em Agosto do ano passado, o maestro titular da Orquestra Real do Concertgebouw, na Holanda, Daniele Gatti, foi afastado do cargo, depois de reveladas acusações de que teria atacado duas mulheres no seu camarim. Meses depois, foi contratado para a Ópera de Roma.
Outro maestro, Charles Dutoit, foi afastado de várias orquestras com que colaborava, na sequência de denúncias de conduta imprópria ao longo de mais de duas décadas. Passado pouco tempo, tornou-se maestro convidado da Filarmónica de São Petersburgo.
Também James Levine foi afastado pela Ópera Metropolitana de Nova Iorque, sem que se conheçam novas ocupações do maestro.
Em Dezembro de 2017, as pessoas que denunciaram casos de assédio e abuso sexual, num movimento colectivo denominado #MeToo, surgido nos Estados Unidos, foram nomeadas “Personalidade do Ano” pela revista norte-americana“ Time”.
Um dos casos mais mediáticos envolveu o produtor norte-americano Harvey Weinstein, acusado de assédio e abuso sexual por mais de 80 mulheres, entre elas várias estrelas de Hollywood, como Gwyneth Paltrow, Ashley Judd e Angelina Jolie.
Depois destas denúncias, através de investigações pelo jornal “The New York Times” e da revista “The New Yorker”, Harvey Weinstein foi despedido da empresa que co-fundou e expulso de várias associações e organizações, nomeadamente da Academia de Hollywood.
Entre os acusados de assédio e abusos sexuais, mas também de má conduta sexual, estão actores como Kevin Spacey e Dustin Hoffman, o ex-Presidente da Amazon Studios Roy Price, os realizadores Brett Ratner e James Toback, os jornalistas Charlie Rose, Glenn Thrush e Matt Lauer, o fotógrafo Terry Richardson e o comediante norte-americano Louis C.K.

Outros casos em julgamento

Bill Cosby, Harvey Weinstein, Charlie Rose ou Larry Nassar, entre outros, são mais alguns dos casos denunciados pelo movimento #MeToo que chegaram à justiça.

Kavin Spacey
Acusado dos crimes de agressão sexual e ofensas corporais, alegadamente cometidas em 2016, sobre um jovem empregado, então com 18 anos, de um bar-restaurante da mesma cidade do Estado americano, o actor Kevin Spacey declarou-se inocente em tribunal.
Este é apenas um dos casos em que o actor se vê envolvido e que lhe tiraram o emprego desde que se tornaram públicos. No ano passado, o actor Anthony Rapp revelou que Spacey o teria agredido sexualmente quando tinha 14 anos e o actor tinha à volta de 20. Spacey respondeu, dizendo que não se lembrava, mas pedia desculpa a Rapp por algum comportamento incorrecto que tivesse tido. No total, mais de 30 homens declararam-se vítimas de avanços não desejados, de cariz sexual, por parte do actor.

Bill Cosby
O actor e comediante norte-americano, de 81 anos, foi condenado a uma pena de três a dez anos de prisão efectiva pelo tribunal de Norristown, na Pensilvânia, que o considerou um “predador sexual violento”. A sentença, conhecida em Setembro de 2018, aconteceu depois de, em Abril, Cosby ter sido considerado culpado de três crimes de agressão sexual agravada a Andrea Constant, em 2004.
A acusação pedia uma pena de prisão entre cinco e dez anos, enquanto a defesa requereu prisão domiciliária, depois de o tribunal dar como provado que o actor drogou e depois abusou da antiga funcionária da Universidade de Temple.
“Foi um ataque de um predador - os comprimidos, o planeamento, a penetração sem o consentimento dela”, argumentou o juiz Steven O'Neill.
Mais de 50 mulheres acusaram a estrela do programa The Bill Cosby Show de assédio sexual nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mas o caso de Andrea Constant foi o único a ir a tribunal.
Cosby foi o o primeiro caso julgado desde que o movimento de denúncia de assédio e abuso sexuais #MeToo começou.

Harvey Weinstein
Apesar dos esforços da defesa para que as acusações contra Harvey Weinstein fossem eliminadas, o juiz James Burke rejeitou, em Dezembro, o pedido de eliminação das cinco acusações de violação e agressão sexual.
Em Outubro, a justiça deixou cair uma das acusações contra Harvey Weinstein. Recorde-se que, apesar de ter pedido desculpa pelo seu comportamento e pela “dor” que causou, o ex-produtor nega as acusações.

Larry Nassar
O ex-médico da selecção de ginástica dos Estados Unidos foi condenado, em Janeiro de 2018, a uma pena entre 40 e 175 anos de prisão, por abusos sexuais cometidos contra centenas de jovens durante os mais de 20 anos que esteve no cargo.
Com 265 mulheres a acusá-lo de abusos sexuais, já em 2017 tinha sido condenado a 60 anos de prisão por posse de pornografia infantil.
“É minha honra e privilégio sentenciá-lo. Não merece caminhar fora de uma prisão. Não fez nada para controlar os seus desejos e, onde quer que vá, destruição vai acontecer aos mais vulneráveis”, afirmou a juíza Rosemarie Aquilina.
Vários grandes nomes de topo da ginástica dos Estados Unidos, entre as quais a quádrupla campeã olímpica de ginástica Simone Biles, vieram a público denunciar terem sido vítimas de abusos por parte de Larry Nassar.
O caso do Ministério Público assentou nos crimes cometidos contra Jordyn Wieber, medalha de ouro olímpica em Londres 2012, as colegas de equipa Aly Raisman, Gabby Douglas e McKayla Maroney, e três outras atletas. Mas, várias outras ginastas, muitas delas menores, revelaram ter sofrido abusos.

Charlie Rose
A CBS chegou a acordo com três mulheres que acusaram o canal de não fazer o suficiente para impedir um dos seus principais e históricos pivôs Charlie Rose de as agredir sexualmente.
Charlie Rose foi despedido pela CBS depois de ser publicada uma investigação do “Washington Post” que dava conta do comportamento sexualmente desadequado enquanto trabalhavam para ele.
As três trabalhadoras processaram o canal e Charlie Rose em 2018, depois de outro artigo do “Washington Post” ter dado conta de que a televisão havia ignorado queixas de trabalhadoras da CBS.
Os valores do acordo judicial permanecem confidenciais a pedido das três mulheres. Embora a CBS esteja agora fora do processo, Charlie Rose continua envolvido.
As acusações das três mulheres envolvem descrições em que Rose “acariciava os seus braços, ombros, cintura e costas, puxando-as para perto do seu corpo e beijando-as na cara”.