Opinião / A Palavra do Director

A falta de argumentos políticos

Os mais recentes desenvolvimentos no panorama político nacional têm acentuado aquilo que já parecia ser o denominador comum que marcará os tempos que antecedem a realização das eleições de 23 de Agosto e, porventura, aqueles que imediatamente se lhes irão seguir.

De um lado os partidos políticos que, com a coragem política que resulta das suas convicções e da força da sua organização, estão verdadeiramente empenhados na prática democrática de tentar fazer passar a sua mensagem com o objectivo de aglutinar o maior número de votantes e, do outro, os que parecendo estar antecipadamente derrotados, sem contudo quererem assumir as suas incapacidades, tudo tentam para antecipadamente explicar as “razões” do seu anunciado fracasso.
Recuando no tempo, é bom lembrar que há sensivelmente um ano os principais partidos da pouco apelativa oposição apostavam dobrado contra singelo em como  não haveriam eleições em 2017. Os argumentos então avançados para esta premonição tinham como ponto de partida a crise económica que, no seu entendimento, não “permitia” uma preparação logística à altura da importância do evento.
Ultrapassada essa “dificuldade”, com a facilidade de quem nunca sequer tinha levantado a hipótese de ser interrompido o normal ciclo eleitoral, os argumentos da oposição passaram a centrar-se na forma e no conteúdo da lei que iria formatar todo o processo inerente ao pleito, havendo mesmo um episódio rocambolesco quando a oposição abandonou o Parlamento na precisa altura em que este votava uma proposta de alteração por si apresentada e que tinha tudo para ser então aprovada.
Como que tolhida pela inércia de quem nunca verdadeiramente acreditou que as eleições iam mesmo acontecer, a oposição mostrou não ter um plano “b”, o que em política é dramático, entrando na adopção de uma sucessiva e confusa onda de posições argumentativas que pudessem disfarçar o impasse em que se estava claramente a afundar.
Depois dos desenfreados ataques contra as entidades responsáveis pela organização e execução do processo de registo eleitoral, as atenções e as críticas da oposição viraram-se contra a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) a quem acusam de “várias irregularidades”.
Incapaz de encarar de frente e com argumentos substantivos os desafios políticos que quase diariamente lhe são colocados pelo partido no poder, a oposição começou a usar a comunicação social, sobretudo a pública, como tubo de escape, não resistindo à tentação de lhe atribuir a responsabilidade pela forma como os diferentes protagonistas estavam a conseguir fazer chegar as suas mensagens até junto dos potenciais votantes.
Numa grosseira violação da Constituição da República e dos princípios da liberdade de imprensa e de opinião, e naquilo que já se pode considerar como uma reiterada e descarada tentativa de interferência política na agenda jornalística dos diferentes meios de informação, com a agravante de contar com a também continuada passividade dos órgãos sindicais que deveriam zelar, precisamente, pela liberdade do exercício da profissão, alguns dos partidos da oposição persistem no seu afã de encontrar desculpas que depois possam elencar como argumentos explicativos para o seu desempenho político. Foi assim em 1992 e nas eleições que se seguiram após o advento da paz até aos dias de hoje. Conhecido o histórico ditatorial dessas forças, a comunidade internacional não pode, também ela, ficar em silêncio perante o ataque que é feito a jornalistas e órgãos de informação. 
O dado apresentado como novo nessa estratégia de fuga ao impacto do escrutínio popular acaba, curiosamente, por ser a utilização manipuladora de um alegado “grupo de cidadãos anónimos” que interpôs uma acção judicial contra a imprensa pública acompanhado da ameaça de se poder vir a transformar numa providência cautelar. Pela primeira vez num sistema democrático partidos da oposição procuram refugiar-se atrás de um “grupo de cidadãos anónimos” para tentarem consubstanciar um dos mais graves ataques até agora desferidos contra a liberdade de imprensa e o direito à informação sem que se lhes possa atribuir, de modo directo e claro, a paternidade da acção. 
A cerca de três meses da ida às urnas, certamente, continuaremos a assistir a outras tentativas de manchar todo o processo eleitoral de modo a que o apuramento final dos votos fique politicamente comprometido, sobretudo, perante a comunidade internacional.
O que os autores e os protagonistas desta estratégia parecem ainda não ter dado conta é que aquilo que as pessoas querem mesmo saber é com que argumentos políticos a oposição quer chegar ao poder. Qual o programa que tem para fazer diferente daquilo que vem sendo feito e quais são as pessoas que lhes pedem os seus votos.
Sobre isto, até agora e de modo perfeitamente elucidativo, os principais partidos da oposição não têm dito absolutamente nada, parecendo estar à espera que os angolanos lhes possam passar um cheque em branco.