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Nova era abre esperança para os moçambicanos

A investidura, no passado dia 15, na Praça da Independência, em Maputo, para um segundo mandato do Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, abriu uma nova era na sociedade moçambicana, segundo revelações de muitos cidadãos interpelados pelo Jornal de Angola naquele país.

O grande optimismo dos moçambicanos resulta de em parte o Presidente Filipe Nyusi, que cumpre o segundo mandato de cinco anos de governação, depois da vitória nas eleições de 15 de Outubro, ter anunciado medidas que reforçam ou corrigem as tomadas no primeiro ciclo.

Entre as medidas muito aplaudidas pelos cidadãos está a paz efectiva e definitiva que o Presidente disse ser a prioridade número um do seu Governo por considerar que está a constituir um entrave para os compromissos de desenvolvimento do país, e a criar instabilidade nas zonas rurais.
Na região Centro e Norte vive-se um clima de insatisfação e medo causado por ataques de grupos armados que quase diariamente saqueiam, queimam e atacam viaturas nas principais vias que ligam o Sul e o Norte, assim como as que ligam o país aos países vizinhos da região.
O medo que se instalou no seio das populações daquela região já causou a morte de dezenas de pessoas e o deslocamento de milhares à procura de melhores condições de segurança.
A situação preocupa as autoridades que, para este novo ciclo governativo, tomaram como prioridade a instauração da paz em todo o território nacional, através de um diálogo permanente e profundo com as partes envolvidas, depois da assinatura, em Agosto, do acordo de paz, pelo Presidente Filipe Nyusi e o líder da Renamo, Ossufo Momade, o terceiro em 25 anos, e considerado histórico, depois de vários outros, rubricados pelo falecido líder do mesmo partido, Afonso Dhlakama, com o Governo moçambicano.
Por outro, o Presidente Nyusi elegeu a luta contra a corrupção e impunidade como uma frente no combate que vai ser levado a cabo ao longo dos próximos cinco anos, por considerar um mal que trava a economia e os avanços de melhoria do nível de vida dos moçambicanos.
Pela primeira vez, o tema tornou-se tão prioritário que recebeu o apoio da sociedade, que há muito vê os seus anseios postergados.
Assim, o Governo e o maior partido da oposição terão de explorar, nesse mandato do Presidente Filipe Nyusi, as diferentes vias para restabelecer a confiança e a paz que, como sublinhou, no discurso de investidura, tudo será feito, ainda que lhe custe a vida.
A instabilidade militar no Centro e Norte do país está a ser levada a cabo por dissidentes do maior partido da oposição, que contestam a liderança de Ossufo Momade na Renamo.
A auto-proclamada Junta Militar liderada por Mariano Nhongo não reconhece os acordos assinados até hoje e continuam entrincheirado nas matas da Serra de Gorongosa, prometendo levar o país à guerra de grandes proporções caso o Governo não reveja a sua posição em relação aos combatentes daquele partido.
Com a assinatura do acordo, em Agosto, as partes previam o fim das hostilidades militares no país. Em duas oportunidades chegaram a acordos definitivos, em Roma (1992), e Maputo (2014), que não conseguiram acabar com o conflito civil, por isso, as populações exigem do actual Governo e do Presidente Filipe Nyusi medidas concretas e acabar com as ameaças proferidas pela Junta Militar e o fim dos ataques armados.
No país está em curso o mega projecto de exploração das reservas de gás natural, que a médio prazo poderá tornar Moçambique num dos maiores produtores e exportador de gás natural liquefeito.
Mas, este e outros projectos de grande dimensão poderão ser inviabilizados caso continue a situação de ameaça de guerra naquela região do Norte e desencorajar os investidores que pretendem entrar no mercado interno e da região.
Por outro lado, a situação de guerra poderá retardar os objectivos anunciados pelo Governo, da criação de mais empregos para os jovens e o prosseguimento do ciclo da industrialização do país.
O novo Governo liderado pelo Presidente Nyusi quer apostar, ainda nestes anos, na implementação da primeira unidade de produção de gás de cozinha para assegurar a redução da importação pelo menos na ordem de sessenta por cento, segundo o Chefe de Estado.
O Presidente Nyusi prometeu tudo fazer neste novo mandato para que o país deixe de registar os problemas de conflito e que a paz seja um facto. Para isso, disse que o Governo vai continuar a preservar as conquistas alcançadas para o estabelecimento de uma paz efectiva e duradoura. Vai por isso, ser uma prioridade absoluta, estimulando um diálogo aberto com as partes envolvidas no conflito.
Filipe Nyusi lembrou, no mesmo acto, que as negociações de paz assinadas com o falecido presidente da Renamo, Afonso Dlhakama, permitiram dar um passo para a pacificação e estabilidade política, mas esta paz precisa de ser concretizada, não obstante os acontecimentos que se vivem no Centro e Norte do país.
Da mesma forma, disse ser também uma das grandes apostas do Governo, nos próximos cinco anos, o combate à corrupção em todas as suas vertentes e a exigência de integridade, ética e deontologia profissional aos funcionários e agentes do Estado para consolidar a cultura de transparência, prestação de contas e responsabilização a todos os níveis da Administração da coisa pública.
Neste capítulo, realçou que “não haverá trégua na nossa luta contra este mal. Não haverá pequenos e grandes corruptos, tocáveis e intocáveis”.

Reacções populares
Após o discurso, muitos populares ouvidos pelo Jornal de Angola consideraram haver muita expectativa à volta do novo Governo de Filipe Nyusi, tendo a paz, o emprego, a agricultura e o sector da economia apontados como, prioridades para o povo moçambicano, além da melhoria dos serviços da saúde e educação.
Custódio António, funcionário público, disse não se justificar que décadas depois da independência o país continue a registar clima de medo, causado por um grupo de pessoas que só pensa nele e não no povo.
“O Governo devia procurar outras medidas mais fortes para acabar com a instabilidade que se vive no Centro e Norte do país. Se os acordos assinados não estão a surtir o efeito pretendido, então acho que deve-se encontrar outras maneiras até que o país chegue a uma paz total e definitiva”, disse em tom de desabafo.
“Nós só queremos que as pessoas possam circular normalmente em qualquer parte do país, sem ter medo de andar, porque o que se passa hoje lá no Norte ou Centro é situação de guerra e isso só vai atrasar mais o país”, realçou, por sua vez, Custódio Manhinga, um jovem mecânico, que reside em Maputo, mas oriundo de uma das regiões de Cabo Delgado.
Joana Madalena, médica, que deu uma boleia de carro aos repórteres do Jornal de Angola, considerou que o país não pode continuar a viver mais em clima de insegurança e ameaças de guerra “porque nesta confusão nós é que perdemos, o povo, o país é que perde porque não consegue se desenvolver e muitos dos projectos de desenvolvimento não poderão ser executados, além mesmo de perdas de vidas humanas, a destruição de infra-estruturas e de tudo o que já conquistamos em termo de desenvolvimento”.
A localização geográfica do país faz com que se olhe também para um conflito com ramificações externas, sobretudo com o surgimento do extremismo islâmico no país que pode agudizar a situação de segurança no Norte. Daí a enorme expectativa a volta do novo Governo e do Presidente reconduzido que durante os primeiros cinco anos procurou primar sempre pelo diálogo para conseguir a paz.
E, ao que tudo indica, vai continuar a via mais certa para se calarem definitivamente as armas no Norte e Centro do país.

Aposta na modernização

O Governo moçambicano tem, ainda, para este mandato, a modernização das infra-estruturas económicas, com especial atenção para a agricultura, com o objectivo de dar passos decisivos rumo à auto-suficiência alimentar e vai continuar a desenvolver a cooperação com os países vizinhos, africanos e de outras regiões do mundo com vista a fortalecer a amizade conquistada.
O Chefe de Estado moçambicano , que cumpre os próximos cinco anos na Presidência, foi reeleito à primeira volta em 15 de Outubro com 73 por cento dos votos, numa votação contestada pela oposição que alegou fraude no processo.
Filipe Nyusi foi candidato da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder desde a independência. Em segundo lugar ficou Ossufo Momade, candidato da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, com 21,88 por cento, e em terceiro Daviz Simango, líder do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), com 4,38 por cento.
Mário Albino, candidato pela Acção de Movimento Unido para Salvação Integral (AMUSI), obteve 0,73 por cento.
A abstenção foi de 49,26 por cento, com o número de votantes a ascender a 6.679.008, de um total de 13.162.321 inscritos.
Para este mandato, Filipe Nyusi vê reforçado os resultados de há cinco anos. Na altura, quando se candidatou para suceder a Armando Guebuza, Nyusi teve 57,03 por cento dos votos e o principal opositor, Afonso Dhlakama, antigo líder da Renamo (falecido em Maio de 2018), recolheu 36,61 por cento, cabendo 6,36 por cento dos votos a Daviz Simango, do MDM.
Nyusi e a Frelimo venceram com maioria absoluta nas três eleições em todos os círculos eleitorais - 11 no país, mais dois no estrangeiro (África e Resto do Mundo), por isso no Parlamento tem a maioria com mais de dois terços dos assentos com 184 dos 250 deputados, ou seja, 73,6 por cento dos lugares, restando 60 (24 por cento para a Renamo e seis assentos (2,4 por cento) para o Movimento Democrático de Moçambique (MDM).
Nesta legislatura a Frelimo conta com mais 40 deputados do que há cinco anos. A RENAMO perdeu 29 e o MDM 11.
No sistema moçambicano a maioria de dois terços é importante para aprovar alterações à Constituição, eleição do provedor de Justiça e outras acções penais contra o Presidente da República.