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Violência doméstica tem apoio de deputado ugandês

Um membro do Parlamento do Uganda, numa declaração da qual já tentou de modo atrapalhado pedir desculpas, virou contra si a fúria das mulheres do seu país e mereceu mesmo uma condenação por parte de alguns dos seus colegas que o acusam de “incitamento à violência”.  

Toda esta polémica surgiu depois que o deputado Onesimus Twinamasiko, numa declaração feita a uma televisão local, disse ser legítimo que um homem possa bater na sua esposa sem que isso possa constituir qualquer tipo de crime.
Esta declaração surgiu depois do Presidente, Yoweri Museveni, ter dito nas comemorações do Dia Internacional da Mulher que um homem que bate na namorada ou na esposa é um “cobarde”.
“Se um homem precisar de disciplinar a sua mulher tem toda a legitimidade para lhe bater, sem que por isso tenha que responder perante quem quer que seja”, disse o referido deputado ao canal NTV, um dos de maior audiência no Uganda, quando tentava contra-atacar a declaração que dias antes havia sido feita por Museveni.
Estas palavras provocaram uma imediata reacção por parte da imprensa ugandesa, sobretudo através das redes sociais, e de grupos de defesa dos direitos humanos que aconselharam o referido deputado a submeter-se a sessões de terapia.
“O senhor Onesimus Twinamasiko deve apresentar, imediatamente, um pedido de desculpas  a todas as mu-lheres que alguma vez foram vítimas de violência doméstica e sujeitar-se a tratamento médico”, disse Diana Kage-re, presidente do Centro de Prevenção contra a Violência Doméstica do Uganda.
A imprensa local também não poupou o deputado, referindo ter sido um “grande choque” ver que um membro do Parlamento justifica a violência doméstica, que é um crime punível por lei, de modo “perfeitamente irresponsável”.
Os seus colegas no Parlamento também o criticaram, acusando-o de estar a incitar à violência contra a mulher e que, por isso, terá que ser responsabilizado pela Justiça.  Segundo estatísticas governamentais, recentemente divulgadas no Uganda, uma em cada cinco mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos tiveram já uma experiência de violência doméstica.
O próprio canal de televi-são onde o deputado fez esta declaração criou um pequeno vídeo clip que pôs a circular na Internet e que se transformou rapidamente numa plataforma para acolher todo o tipo de críticas e comentários sarcásticos.

Pior foi a emenda
Este fim-de-semana, Onesimus Twinamasiko tentou justificar a sua declaração “cla-rificando” e “rectificando” aquilo que havia dito e que todo o país ouviu, mas que ele considerou ter sido “mal interpretado”.
Mas, aquilo que resultou dessa sua “clarificação” bem se pode dizer que se virou ainda mais contra si, uma vez que acabou por revelar não só ter já esbofeteado a sua esposa como também que esta já lhe havia respondido da mesma moeda.
“Eu não defendo que um homem bata numa mulher ao ponto de lhe criar ferimentos ou provocar a morte. Só digo que, por vezes, uma bofetada ajuda a manter a ordem no lar”, disse.
Sem pensar duas vezes, o deputado deu o seu próprio exemplo no relacionamento que mantém com a esposa: “eu já dei uma bofetada na minha mulher e ela também já me deu a mim. Não há nada de errado nisto”.
Se o deputado pensava que os ânimos se acalmavam com esta “explicação”, enganou-se redondamente. Mal ele acabou de falar e já Diana Kagere estava novamente na televisão a criticá-lo.
“O que ele disse não faz qualquer sentido. É pura demagogia. A violência não deve fazer parte da vida de um casal. Nós nunca sabemos onde uma bofetada nos poderá levar”, sublinhou a presidente do Centro de Prevenção Contra a Violência Doméstica do Uganda. “Existem outras soluções para resolver os problemas entre os casais, tais como o diálogo, a procura de aconselhamento junto de especialistas ou a separação temporária. O deputado não pode fazer do seu exemplo de vida, que é condenável, um guia para os outros casais”, sublinhou.
O comentário do referido deputado surgiu na sequência de uma declaração feita a semana passada pelo Presidente Yoweri Museveni, na qual ele considerou que um homem que bate numa mulher não passa de um “cobarde”. Museveni falava no acto comemorativo do Dia Internacional da Mulher, tendo essa sua declaração sido depois retomada pelo Parlamento para uma discussão, precisamente, em torno do problema da violência doméstica.
Foi no âmbito dessa discussão que o referido deputa-do achou por bem ir à televi-
são dizer aquilo que muitos ugandeses pensam mas não têm a coragem de defender em público.
O Uganda aprovou recentemente uma directiva que estabelece o modo como as mulheres que trabalham na Função Pública se devem apresentar no trabalho.
De acordo com essa norma, as mulheres não devem ir para o trabalho com as saias acima dos joelhos, com blusas transparentes ou que deixem ver a parte superior dos seios e as costas.
Também não devem usar cabelos postiços ou pintados com cores brilhantes. As unhas não poderão ter mais do que três centímetros de comprimento, nem estar pintadas com mais de uma cor.