Opinião / A Palavra do Director

Esperança, mesmo

A incerteza mundial sobre os efeitos da pandemia do novo coronavírus na vida dos países e populações não pode ser motivo para o desânimo e para o conformismo. São tantos os cientistas engajados na busca de uma vacina que possa prevenir a expansão do contágio da doença que quase há a certeza de que, mais-dia-menos-dia, ela surgirá, não para a erradicação, mas para a diminuição do seu impacto na lista das causas de maior mortalidade humana por doença.

Portanto, o que se recomenda é a busca de soluções para se saber conviver com a doença, já não pandémica, à semelhança do que acontece com outras que continuam a matar centenas de milhares de pessoas anualmente e, nem por isso, retiram o foco das outras prioridades que precisam de ser atendidas, para a nossa sobrevivência.
Por isso, foi alentador ouvir no discurso sobre o Estado da Nação que, apesar da crise sanitária, Angola mantém o foco de seguir os trilhos para proporcionar melhores condições de vida para os seus povos, num percurso que se sabe sinuoso e onde o aprendizado é permanente, afinando, aqui e ali, as agulhas, para que, no final, seja possível ver a meta.
Digamos que, com o cortejo de mortes, de casos positivos, suspeitos e, sobretudo, com os embaraços que a peste está a provocar, havia como que algum conformismo com a fatalidade, contraposto, entretanto, pelos enormes investimentos que se estão a fazer no domínio da saúde e pelo empenho e dedicação dos trabalhadores do sector, em primeira linha, para evitar males maiores.
Mais do que o enunciado de realizações, em meio às crises pandémica, económica, financeira e social, que se associaram num coquetel que tem tudo de intoxicante, a extensa mensagem sobre o Estado da Nação constituiu uma vitamina injectada na esperança por dias melhores. Um renovar da mensagem de que as promessas não estão esquecidas, mesmo perante um quadro verdadeiramente adverso, no qual, além das crises citadas, se inclui uma teia de interesses e práticas que prejudicam, em grande escala, à realização dos projectos para tirar o país do estado em que se encontra.
Há, hoje, um sentimento generalizado de que a corrupção está a ser combatida e que essa luta passa, essencialmente, pelo fim da impunidade, levando à justiça os casos suspeitos de descaminho do erário. Comportamentos que vêm do passado, sustentados com a execução de uma política eventualmente bem intencionada de criação de uma burguesia nacional, com recurso à acumulação primitiva de capital, a mãe das desgraças e das desigualdades que agora se procura erradicar.
A corrupção está longe de ter terminado com a investigação ou o julgamento de casos mais ou menos mediáticos. E seria muito pretensioso acreditar que se vai acabar com este mal, quando se sofistica a cada dia e está muito além das fronteiras nacionais. Até porque, nos dias de hoje, infelizmente, ainda se assiste a vários casos de desvios, alguns de forma reiterada, porque é usada a fragilidade das instituições para concretizar os rombos, até em nome de situações emergenciais, da seca, da fome ou da pandemia.
A esperança renova-se, não apenas porque o chavão da “justiça selectiva” está a desfazer-se, por muito que os visados, com todo o seu poder e influência, se vitimizem, fazendo passar a ideia de estarem a ser “perseguidos”. Só enganam os mais incautos ou esperam pelos aplausos dos que, atirados para cima do muro, perderam os argumentos e põem-se agora em bicos de pés, tentando diminuir o impacto do trabalho de recuperação de activos. Contam-se em milhões de dólares os prejuízos já apurados na delapidação dos cofres públicos e, nesta altura, cobririam parte substancial da asfixiante dívida que o país foi obrigado a contrair.
A prioridade continua a ser o aumento da produção nacional, a diversificação da economia, com políticas realistas, que não se resumam a um conjunto de boas intenções anunciadas com pompa e circunstância, nos ecrãs, para logo ser esquecido ou desviado dos propósitos. A aposta tem mostrado resultados que não devem ser ignorados. É preciso apenas afinar ou corrigir os aspectos que se impõem, para, por exemplo, que produtos não se percam no descaso e se desestimule quem se empenha em garantir postos de trabalho, mesmo enfrentando barreiras burocráticas e a falta dos apoios prometidos, que chegam apenas e sempre às mesmas pessoas.
A esperança vem também do facto de, mesmo contrariando ciclos que já vinham positivos, ter sido possível juntar mais realizações, além da prevenção e combate à Covid-19 ou da melhoria dos serviços de saúde, em geral. Mesmo com as condicionantes que a pandemia está a impor, desde logo a mobilidade das pessoas e o cerco ao pulmão do comércio, serviços e consumo que é Luanda, é animador ver que o país está a “mexer-se” no caminho da realização dos compromissos, buscando alternativas à dependência do petróleo, promovendo a estabilização macro-económica e melhorando o ambiente de negócios que vai trazer o emprego e o desenvolvimento.
Desvalorizar as realizações anunciadas em contexto de crise e de incertezas e a manutenção generalizada dos compromissos políticos assumidos, mesmo quando se queira endossar responsabilidades, não favorece quem se apresenta como alternativa, ainda que sem que lhe reconheça qualquer solução, que não seja o “bota abaixo”.