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A anti-música e a decomposição social

Oito frases, versos ou “dicas” enigmáticas, em português, como, por exemplo, “para acabar o funge só depende do molho”, “tem ilusão nê”, “soluço do mais velho/não passa com papel”, “Demorei, mas não cheguei tarde”, “trabalho tem que idade”, “se você está a pensar pequeno/creio que ficarei no terreno”, “no bolso temos bolo gordo” e umas outras, em inglês inventado e, por conseguinte, incompreensível, que prefiro nem reproduzir aqui, unidas a algumas onomatopeias e vocábulos constituem o essencial da letra da anti-música “O pintin” de Scrô Q Cuia e Nerú Americano.

Se estivermos distraídos e escutarmos só o instrumental sem letra é possível que batamos o pé no chão ou até mesmo movamos o nosso esqueleto, mas, o certo é que, “O pintin”, uma criação que pretende situar-se entre o kuduro e o afro-house. Termina sendo uma espécie de anti-música, que é das péssimas, mas sabendo que o “Pintin, pode significar qualquer coisa: são maneiras vulgares de aludir ao falo, ao pinto e ao pincel, variações de um mesmo “objecto do desejo”.
Ao interpretar “O pintin”, os “artistas” utilizam o barulho, a improvisação e a brincadeira para expressar-se musicalmente. Não passam da tentativa: eles não conseguem exprimir-se com ritmo e harmonia e, atabalhoadamente, refugiam-se nos gritos, nos gestos e na dança que já está na moda, entre os seus inúmeros seguidores.
“O pintin” faz dançar muitas crianças, jovens e fez-se popular em amplos segmentos das zonas urbanas do nosso país, sendo frequente ouvir a música ou ver gente, de todas as idades, primeiro separados, depois agarrados e mais tarde, literalmente pendurados, a dançarem ao seu ritmo como se de verdadeiros possessos, contorsionistas e ou acrobatas se tratassem. Mas, não: não são nem uma coisa nem outra! Eles são e estão, apenas, musicalmente mal-educados.
Fazer anti-música sem antes, nem os artistas nem o público, ter passado por uma formação musical o resultado não pode ser elevado. O resultado só pode ser mesmo pobre, repetitivo, ensurdecedor e, por conseguinte, de muito mau gosto.
Na anti-música em questão as frases seguem uma ordem e activam várias ordens de significados e de intenções. Os vídeos já são outra coisa: teatralizam a bacanal e a devassidão absoluta. Até ouvi-la, nesse contexto, por exemplo, a primeira das frases dela, “para acabar o funge só depende do molho”, não era uma frase que pudesse ocorrer-me.
Nesta anti-música, ela parece evocar um enigma sexual do tipo “quiabo que resvala na mandioca seca”, que faz-me recordar uma música cubana da minha adolescência, mas sem o sensual diálogo que na dança casino ocorre entre o par, nem a subtileza de uma metáfora quase pré-histórica.
Muitas vezes com razão, celebramos o kuduro como uma manifestação de criatividade e não há dúvidas que, há alguns bons resultados, que ajudam a valorizar o género. Mas, também é quase consensual que o género kuduro só surgiu num contexto de decomposição social, artística e cultural.
Há quem diga que a decomposição moral, em Angola, é, de longe, muito maior e mais prejudicial do que a corrupção económica e financeira. As fragilidades das famílias, a falta de emprego dos jovens e longos anos de desleixo acompanhados com um sistema de ensino, de educação e de cultura que precisa de ser mais sólido, sistemático, contínuo e qualificado fazem o resto.
É neste contexto que o mau gosto, o caricato e a anti-música florescem como se fossem o contrário daquilo que realmente são, entre outras razões, porque, os meios de comunicação social – estatal e a privado - os celebram e as multidões os seguem como se estivessem abduzidas.
Já sabemos que a anti-música teve, a certa altura a sua utilidade política, mesmo que tenha provocado atrofias sociais e artísticas diversas e os resultados estão a vista de todos.
Mas, o que está realmente a acontecer com os artistas e connosco, o público? Continuaremos a pensar, a ver e a actuar como se estivesse tudo bem?