Opinião / Artigos

A seca no sul de Angola e outras tarefas

Em Maio do corrente ano escrevi para esta mesma coluna dois textos intitulados “Eu sou Cunene” e “ Insisto em ser Cunene”, respectivamente nos dias 1 e 8, nos quais reflecti sobre algumas acções que, para mim, tinham carácter de urgência na sua implementação, no quadro da resposta à situação da crise alimentar no sul de Angola.

Recordo ter apelado para a necessidade de conjugação de esforços em várias direcções, e que cada um fosse agente do bem para a causa que adjectivei de nobre e transversal à nossa condição de angolanos, que devemos estar unidos pelos mesmos valores e símbolos patrióticos.
Na mesma senda lancei o repto para que fizéssemos da situação no Cunene uma causa nacional, a considerar a gravidade do diagnóstico realizado pelas autoridades locais, que motivou o Titular do Poder Executivo, João Lourenço, a não tergiversar e “autorizar que se declarasse o estado de calamidade natural e de emergência”, e isso está documentado.
Não posso afirmar se os textos aludidos no parágrafo inicial terão exercido alguma influência, mas a verdade é que daí em diante foram conhecidas várias manifestações de apoio e solidariedade, promovidas por entes colectivos e individuais dos mais diversos sectores da sociedade nacional e até internacional instaladas em Angola, com o fim único de levar ajuda àquela população.
Claro que as ajudas não resolveram nem resolveriam o problema na totalidade, porquanto, a montante, as razões originárias da crise são diversas e ultrapassam a vontade humana, por mais brilhante que se seja, por estar em causa um fenómeno natural (ausência de chuvas), sobre o qual a acção humana não tem o “jus império”.
Naturalmente que a vontade de qualquer angolano de bem é ver terminado o sofrimento dos compatriotas no sul do país, e para tal tem sido feita alguma coisa que, apesar de não ser tudo, pode se entender na base do provérbio de origem cristã segundo o qual “O pouco com Deus é muito”.
Entretanto, e não devem restar dúvidas quanto a isso, em torno da situação, a preocupação do Executivo angolano é deveras profunda e permanente, postura que torna a busca de soluções para fazer face à crise uma acção que ocupa as instituições e entidades de direito numa latitude que, ainda que não seja a mais ampla, merece uma apreciação positiva.
Desta constatação, não faz tanto sentido, tão pouco devem ser aceites os pronunciamentos levianos que insinuam a obrigatoriedade de concentrar-se todos os esforços, olhares, actos e acções do Executivo à situação de crise no sul do país, pois, apesar da factualidade e gravidade da situação, existem outras tarefas com igual ou maior grau de necessidade quanto as respostas que elas carecem.
Dito de outro modo, não devemos criar a ideia mórbida de que Angola é, neste momento, apenas o sul do país, apesar de reconhecermos os estragos que a situação de crise está a provocar na região, afectando o activo da população que, mais do que os bens materiais, atinge a vida humana, que infelizmente muitos já perderam em decorrência da situação.
É importante, porém, alguma ponderação na abordagem da questão, pois o País que chamamos de Angola geograficamente configura-se de Cabinda ao Cunene, do mar ao Leste, e nestes limites existem inúmeros problemas cuja solução era para ontem, - perdoem a hipérbole -, e que mesmo assim continuam na lista de espera.
Acreditamos que, a título de exemplo, ninguém gostaria de ver o seu salário “capturado” com o argumento de que será canalizado para ajudar as populações afectadas pela crise no sul do país.
Por isso e não só, sinto-me impelido a dizer que para lá da seca no sul de Angola existem outras tarefas por realizar, sob pena de vermos paralisado o país, que do ponto de vista da educação, saúde, energia, água, saneamento básico, etc, tem inúmeros problemas que aguardam solução e para os quais o Executivo deve olhar com o mesmo sentimento que norteia a acção de qualquer político, nas vestes de servidor público.