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A utilidade dos dicionários

Todo aquele que deseja escrever com propriedade, elegância e exação terá, necessariamente, de recorrer aos dicionários. A leitura, única e exclusiva, dos Mestres da língua não basta, para o caso. Aliás, para interpretar e compreender qualquer bom escritor, é absolutamente necessário consultar, a cada passo, os dicionários.

Há sempre palavras cujo significado desconhecemos. No decurso da leitura, vão aparecendo, uns a seguir aos outros, vocábulos, acerca dos quais surgem, naturalmente, dúvidas. A maioria do público tem preguiça de consultar o dicionário: prefere seguir adiante, ou aprender intuitivamente o valor da palavra, pelo sentido. Devemos declarar, de um modo peremptório, que não há pior sistema do que este, sobretudo para o incipiente, pois o homem ou a pessoa de vasta cultura (principalmente cultura humanística) já possui condições que lhe permitem abarcar as ideias, mesmo quando lhe escapem quaisquer pormenores. As palavras são traiçoeiras, como armas de dois gumes.
Às vezes, o significado difere muito daquilo que parece. Nem sempre o sentido geral da frase nos pode dar a noção exacta do sentido especial de cada palavra.
Algumas ocasiões, ela forma, com outros termos que lhe estão adjuntos, uma locução idiomática, de significado completamente imprevisto, que só a História ou a Semântica podem esclarecer. Quem se limitasse a isolar cada vocábulo - dos que constituem essas expressões -, atribuindo-lhes o seu significado normal, arriscar- se-ia a ficar completamente iludido.
O sentido literal difere, com frequência, do sentido humano, profissional ou social dos vocábulos ou das frases. A metáfora e a ironia - para apenas citarmos duas das figuras mais frequentes - alteram, a cada passo, o valor das palavras. Todo o cuidado é pouco!
A Língua pressupõe a existência de uma imensa floresta de anexins, adágios, sentenças, ditos conceituosos e proloquios, cujo significado não pode deduzir-se pelo simples e vulgar significado independente dos termos que constituem a frase. A interpretação à letra levar-nos-ia a caminhos errados ou até mesmo ao vácuo. Há locuções que ninguém compreenderá, ainda que conheça com exactidão o valor de cada um dos vocábulos componentes das mesmas: dar casca, deitar pérolas aos porcos, fazer tesourinhas, justiça de Fafe, ver-se numa camisa de onze varas, lançar à margem, etc. Daqui se conclui a necessidade de recorrer ao dicionário, quer para encontrar o significado de cada termo, quer para compreender o significado das numerosas locuções idiomáticas que enriquecem e vivificam a Língua.
O facto de, muitas vezes, se conhecer qualquer vocábulo, através de um único sentido, não é razão bastante para desdenhar a consulta de um bom dicionário. As palavras podem ter as mais variadas acepções, conforme a obra em que aparecem, ou conforme o estilo que o escritor emprega. O mesmo vocábulo indicará relações, ideias ou objectos diferentes, consoante se lhe atribuir um sentido erudito, literário, poético, vulgar, profissional, jurídico, malicioso, etc.
Se a palavra que surge, no decurso da leitura, for daquelas que são susceptíveis de valores ou acepções diversas, e se o sentido não se mostrar claro - atribuindo-lhe nós o significado que conhecemos -, tornar-se-á imprescindível o recurso ao dicionário, quer ao dicionário meramente linguístico, quer ao dicionário enciclopédico, profissional, poético,etc. Uma vez aberto este, percorrer- se-á, com atenção, o artigo referente ao vocábulo duvidoso, em busca de uma acepção que se ajuste à inteligência do texto. Quem tiver o cuidado de ler desta maneira, preparará e adestrará, continuamente, as suas faculdades de redigir. Cada novo sentido ou acepção, que se descobre numa palavra, oferece uma nova possibilidade de melhoria e de alargamento da expressão oral ou escrita, além de alargar, mais e mais, os horizontes do pensamento individual.
É notando os múltiplos empregos de cada vocábulo, que se adquire o segredo da língua e a facilidade de expor, com clareza e precisão, as ideias ou opiniões. Devemos acentuar, no entanto, que o facto de qualquer Pessoa conhecer muitos vocábulos nem sempre revela um perfeito conhecimento da língua. Pode um indivíduo reter de memória uma infinidade de palavras, e não saber escrever, nem exprimir-se correctamente.
Aquele que emprega os vocábulos fora de propósito ou que lhes atribui significados que eles não têm, está longe de poder considerar-se um bom escritor ou um indivíduo conhecedor da sua língua.
Muitas vezes, não é a riqueza do léxico que dignifica ou valoriza qualquer autor.
Em bastantes casos, o que lhe garante um maior poder expressivo é o emprego adequado desses mesmos vocábulos, é o conhecimento - em todas as suas modalidades - dos diversos usos de cada uma das palavras. Há certas pessoas que usam termos, julgando que eles têm um significado diferente daquele que realmente têm. Urge es-tar precavido contra semelhante perigo.
As palavras têm a sua vida própria: transformam-se, envelhecem e algumas acabam por morrer ! Quem ler os escritores antigos, precisa de o fazer com a maior prudência. Há palavras, cujo sentido experimentou sensíveis e até profundas alterações. Aquele que não considerar a evolução semântica dos vocábulos, arrisca-se a interpretar os autores antigos erradamente ou a não os compreender. Veja-se o exemplo das palavras mariola e patife, que hoje significam homem sem escrúpulos e sem dignidade, e que antigamente - no século dezoito - significavam, com leves variantes, moços de fretes.
Poderíamos citar muitos outros exemplos, de palavras cujo sentido se modificou, profundamente, no decurso dos séculos: taberna, sentina, botica,etc.
Evidentemente, os leitores que, ao encontrarem estas palavras em qualquer obra antiga, lhes atribuissem, com leviandade, o actual significado, cometeriam um grave erro de interpretação. Alguns vocábulos, que hoje têm um sentido manifestamente obsceno ou pornográfico, eram, noutros tempos, palavras honestíssimas e, como tal, usadas pelos escritores mais respeitáveis, incluindo, às vezes, sacerdotes e teólogos. Há que ter, pois, na leitura dos autores de antanho, o maior cuidado.
Quando alguém lê uma obra, deve atender ao sentido que as palavras tinham na época em que o autor escreveu. E, por outro lado, quando se evoca o passado, que também o escritor necessita de atribuir, às palavras, o significado que elas tinham na respectiva época, e não qualquer outro sentido que depois lhes sobreveio.
Como se está a ver, o dicionário continua a ser imprescindível, como livro de consulta permanente e essencial, para quem lê e para quem escreve.