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A dona Ordem de Saque

A dona Ordem de Saque e o senhor Embraiagem é um casal fossilizado no tempo. As ordens de saque são para as finanças o mesmo que a embraiagem para os carros: mecanismos que nos distraem e atrasam as nossas vidas.

A dona Ordem de Saque e o senhor Embraiagem chegam a ser piores que a falta de água e de luz, porque estas, nos lugares em que há, pelo menos ultimamente, quando faltam são repostas de maneira um pouco mais rápida que dantes: quando uma ordem de saque perde-se pelas administrações de finanças, perde-se mesmo. Quando tens que utilizar um carro com embraiagem não te podes evadir: é embraiagem para aqui e é embraiagem para acolá, sempre que queiras aumentar e ou reduzir a velocidade.
Só sentimos os efeitos da dona Ordem de Saque e do senhor Embraiagem quando já estamos com eles, a utilizá-los: este é um casal que tem muito de reaccionário, pertence a um tempo que este já não é, deveria ter o mesmo destino que, de algum modo, o Presidente do MPLA deu ao camarada Ordens Superiores. O povo diz que ele “foi à enterrar”.
Como muitos casais parecidos, a dona Ordem de Saque e o semhor Embraiagem, insistem em estar onde prevalecem mecanismos mais automáticos e diligentes. Prefiro os carros automáticos, não só por serem mais práticos nos engarrafamentos: há menos “gestos” a fazer que ao utilizar os carros mecânicos, o gozo por conduzir é mais fluído.
 Na lentidão em nos actualizarmos, aceitamos a dona Ordem de Saque e o senhor Embraiagem como se fossem os nossos familiares mais prestáveis, a quem podemos recorrer a toda hora. Com o tempo revelaram ser um empecilho, uma carga que carregamos na transição entre o velho e o novo como se não estivéssemos às portas tanto da condução automatizada e sem condutor como da massificação dos pagamentos com telemóveis.
Pelo nome que tem, não sei se levar à sério a dona Ordem de Saque: parece mais uma incitação à apropriação indevida, faz-me recordar os anos (e a persistência) do açambarcamento descarado de recursos e de 
práticas de poder absoluto, de tempos que queremos que se esvaíam e não se repitam. Prefiro as transferências, porque sabemos que depois de efectuadas chegam ao destinatário: em Portugal elas demoram dez segundos em estar disponíveis.
O senhor Embraiagem distrai-me demasiado, parece um trâmite desnecessário e não me admira que os carros mais modernos já nem a tenham. Quem não vejo utilizar a dona Ordem de Saque são os sistemas financeiros mais evoluídos e, pelo mundo fora, os carros com embraiagem são cada vez menos utilizados e há mesmo países como o Japão em que os não utilizam. Não estou a ver, pois, que, os angolanos tenham razões mais sólidas do que eles para as utilizarem, a não ser que andam a absorver toda a sucata abandonada pelos países mais desenvolvidos.
 Deixar a dona Ordem de Saque e o senhor Embraiagem de lado seria como queimar etapas, admirar de longe algo que foi engenhoso no passado e que só interessa se servirem para inspirar objectos do futuro.
 A dona Ordem de Saque até tem nome empolado, chama atenção e merece parágrafos nas páginas webs dos ministérios das finanças e dos bancos em todo o mundo. A maior parte dos gestores que eu conheço, em Angola, detestam-nas:utilizá-las não significa, por si só, que possam, de facto, desempenhar o papel para o qual foram criadas.
Há inúmeras donas Ordens de Saque encalhadas sem chegarem a ser funcionais: deixam de ter qualquer utilidade e amiúde, os valores que deveriam corporizar, passam para à dívida pública, deixando quem paga e quem deveria ser recompensado, muitas vezes por trabalhos já realizados, na impotência. Há gente que anda aí a dizer que existem obscuros esquemas associados à ela: são o pior pesadelo para um gestor que pretende ser eficiente.
Utilizadas exclusivamente pelo Estado angolano, a ordem de saque é um procedimento financeiro que faz-nos retrotrair-nos aos anos noventa do século passado e são o reflexo do efeito constritor de uma economia centralizada, a precisar de ser saneada. A pomposidade do seu nome já não nos engana.
A dona Ordem de Saque e o senhor Embraiagem é um casal que não quero ter por perto. Há dias, uma minha amiga disse-me que o casal “está cansado e gosta de passar tempo na marquise, numa daquelas antigas casas de Luanda com muitas plantas onde está sempre fresco”, mas, pensei eu, se não se aposentarem mesmo, nada feito: continuam a atrapalhar-nos.
Deveríamos preferir os carros e os pagamentos automáticos, próprios deste tempo para evitar a fossilização e a atrofia das trocas comerciais, de bens e de serviços, para que as administrações estatais funcionem melhor e a economia seja mais dinâmica.
* Historiador e Crítico de Arte