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A mercantilização da fé

Por via do programa “Na Lente”, da Televisão Pública de Angola, o fenómeno religioso em Angola voltou a ganhar lugar de destaque nas abordagens da actualidade, rivalizando, até certo ponto, com as decisões tomadas pela PGR e outras instituições afins, no quadro dos muitos processos nelas em curso, que “transformaram” o Hospital Prisão do São Paulo, numa das instituições mais faladas dos últimos dias.

Em concreto, a abordagem cingiu-se no modo de actuação das denominações religiosas cujo exercício, não temos dúvidas, é motivado pela interpretação deturpada da Teologia da Prosperidade, que até certo ponto mercantiliza a fé.
Obedecendo a nossa sapiência, obrigamo-nos a perceber que, em última instância, esteve em análise a "mercantilização da fé", prática que, de modo geral, as igrejas "Neo pentecostais" têm como filosofia de vida, talvez explorando, para o seu conforto material, a condição de pobreza extrema, precariedade da saúde, da educação e a perda de auto estima e da autoconfiança que caracterizaram a vida das populações, com o reacender da guerra civil e militar em 1992.
Abrimos parêntesis para dizer que, no referido ano de 1992, (para nós o marco do início da sangria religiosa), foram reconhecidas pelo estado angolano 49 igrejas, sendo o valor mais alto num intervalo de tempo entre 1987 e 2000.
Não pretendemos, nem por hipótese, sonegar a existência de “makas” na secular Igreja Católica, Metodista, Evangélicas e outras do ramo protestante, a exemplo de má gestão, pedofilia, desvio de fundos etc, etc.
Apenas assim procedemos por entender que tais práticas não reflectem de forma estrutural ou institucional o paradigma de actuação dos católicos, metodistas, baptistas, só para citar estas.
Entretanto, das reacções em volta do assunto, com alguma facilidade podemos chegar à seguinte conclusão: Urge a necessidade de ser realizada uma profunda e séria reflexão sobre o fenómeno, e não menos importante, serem tomadas medidas que se impuserem, mesmo que se elenca a possibilidade de arrear o bastão à quem se imputar responsabilidades no caso.
Aliás, não temos dúvidas que pelo universo de problemas levantados pelo programa, mais cedo ou mais tarde o Estado venha a marcar uma posição firme, sobre o risco de, ao não fazê-lo, permitir que este “sub mundo” da religião angolana se transforme numa espécie de Hollywood da religião, considerando o poder económico que tem a referida indústria do cinema.
Alguns evocarão, com razão (?) as disposições da Constituição da República Angolana, mormente os artigos 10º, com a epígrafe (Estado Laico), e o 41º (Liberdade de consciência, de religião e de culto) para, à todo o custo, tentar garantir a continuidade da sua actividade religiosa longe da acção do Estado, que tem toda a legitimidade para agir em casos do género.
Dito de outro modo, apesar do dever de proteger as igrejas e confissões religiosas, bem como os seus lugares e objectos de culto, o Estado não pode permitir que a actividade das igrejas atente contra a Constituição e a ordem pública ou andem em inconformidades com a Constituição e a Lei.
Convém referir que, em substância, o programa “Na Lente” levantou apenas a ponta do iceberg, pois há relatos de casos mais graves que, por exemplo, a mediatizada expulsão de demónio na vida de uma criança de apenas 90 dias de vida, a pretexto de que sonha mal, por mexer-se muito durante a noite, o que em rigor é um acto de pura mercantilização da fé, ou seja, “tudo pela fé”.
E como que a cereja no topo do bolo convém recordar que no passado dia 28 de Agosto, o Conselho de Ministros, reunido na província do Huambo, apreciou favoravelmente uma proposta de Lei que virá regular o exercício da actividade religiosa no País, bem como os mecanismos de constituição, modificação e extinção de instituições com fins religiosos.
Trata-se da proposta de Lei sobre a Liberdade de Religião, Crença e Culto, que deverá ser enviada à Assembleia Nacional para a aprovação, derrogando a Lei nº 02/04, de 21 de Maio, aprovada pela Assembleia Nacional, ao abrigo da alínea b) do artigo 89º da Lei Constitucional que, ao consumar-se, em linguagem menos ortodoxa, significa o princípio do fim para toda esta balbúrdia decorrente do exercício de compra e venda da fé, da cura ou da salvação.
Mais do que tudo, a referida proposta de lei se afigura uma prova evidente de que o fenómeno religioso, ainda que em surdina, afinal já é uma preocupação das instituições do Estado, no caso, o Ministério da Cultura, como ente mais directamente ligado à problemática, que da forma que anda, é uma questão de âmbito alargado e transversal à todos os sectores da sociedade, ou se tanto, uma questão de segurança nacional, passe o exagero.