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De Robin dos Bosques à nuclear

No princípio da minha adolescência, acabava de chegar o cinema a Nova-Lisboa e um dos primeiros filmes que meu irmão mais velho me levou a ver foi o “Robin Hood” ou Robin dos bosques (mato).

Ele lutava contra o “chefe de estado,” o tirânico Príncipe João que explorava o povo com pesados impostos e penas de morte. Robin e seu amigo João Pequeno tornaram-se foras-de-lei, fizeram um grupo para roubarem aos ricos e darem aos pobres. O artista que representava Robin era Errol Flin, usava um bigodinho, era sedutor para as mulheres e a nós o que mais nos encantava era o manejo do arco e das espadas do grupo de desobediência civil. Por isso passámos a fabricar zagaias com paus flexíveis da margem do rio da granja, londove (cordão de casca de árvore) e flechas com ponta de restos de latas e, para a velocidade, penas de galinha na outra extremidade. Também espadas com o copo feito também de lata velha… nas batalhas inventadas um de nós haveria de ser ferido numa das vistas que o havia de marcar pelo resto da vida.
Perdoem explicar quem foi Robin mas suponho que os mais novos estão distantes destas coisas, aliás, tenho sempre a preocupação de escrever crónicas (que também é um género literário) de forma a ser entendido pela maior parte das pessoas. E lembrei-me de Robin porque é uma figura que se repetiu por muitas paragens, em Portugal foi o Zé do Telhado que assaltava ricos para dar aos pobres, foi preso, condenado e mandado para cá, Malange onde, ao que parece deixou descendência. Chegados a este ponto vi um comentário numa televisão brasileira condensando que o neo-liberalismo era o Robin dos Bosques ao contrário. Robin tirava aos ricos para dar aos pobres enquanto que o neoliberalismo tira aos pobres para dar aos ricos. É a maka fiscal, a privatização e a subida do preço da água e luz bem como da saúde, a falta de medicamentos, etc..         Tudo isto tem por fundo dois conceitos: civilização e democracia. Estes conceitos foram “inventados” pelos europeus e são obrigatórios para todo o mundo o que é paradoxal pois não é democrático obrigar-se o outro a sê-lo também.
No entanto, o mundo que manda, o G-7, grupo dos países mais fortes entrou em rota de colisão quando Trump não quis assinar o último acordo contra as imparidades impostas por Trump, taxas sobre importações, acabando por insultar o representante do Canadá. Tudo isto quando partidos populistas já ocupam o poder em alguns países da europa, contrariando os princípios humanitários sobre refugiados, mandando encerrar mesquitas, tocando no mais fundo dos direitos humanos e descrendo na Europa como um grupo, sendo certo que um por um os países europeus serão mais frágeis.
A África tem que tomar as suas cautelas pois da descolonização veio o neocolonialismo e a imitação de modelos. No caso do nosso país, por razões óbvias, país com tanta riqueza e com uma maioria exageradamente pobre, posição geoestratégia com a problemática da instabilidade dos vizinhos a norte, é necessário recomeçar o país por dentro. O país que vive no interior e ainda não beneficia do poder autárquico. O país que vive longe do hospital. O país que calcorreia as ruas da cidade cada um vendendo bugigangas aos outros, quase caricatura do empreendedorismo. O país que assiste à melhoria em matéria de informação sobre a actividade politica, o país que olha para parlamentares a pensar em impostos quando eles ainda não apresentaram as contas das eleições. E há coisas muito simples e muito importantes. É preciso publicar-se quantos desempregados tem o país. É preciso saber para onde vão trabalhar os futuros licenciados por falsas universidades privadas que pululam pelo país. E é preciso saber quantos presidiários e como enchem as cadeias para além do seu limite. Mais, é preciso que uma comissão competente, vá às cadeias, com a comunicação social e faça um relatório para vir a público. Porque se um jovem entrou na cadeia por roubar uma motorizada e sai de lá “licenciado” para roubar um autocarro seria melhor deixá-lo cá fora…
O país virou uma página. Com sabedoria e maturidade. Então torna-se necessário curar as feridas da página anterior. Não vale a pena andarmos a esconder o medo que ando no ar relativamente ao crime. Se tratarmos da comida e da saúde o crime diminui. Se os presídios também forem escolas para recuperar as pessoas até à reintegração social, a sociedade regenera-se. Vi na televisão um grupo de ópera ter dado alma a presidiários a cantar ópera com uma linguagem gestual de regeneração.     Falo nisto porque olho para o mundo com sérias cautelas e sempre que há crises mundiais os mais fracos são os que mais sofrem.
A próxima semana, sem um Robin dos Bosques mas populismo e desacordo entre ricos que é sempre mais perigoso que entre pobres, vai ficar marcada por dois grandes campeonatos. Um é o campeonato do Mundo de Futebol na Rússia. Outro é em Singapura entre Trump e Kim…não sei se para este estão organizadas apostas nucleares… para o outro, num país da América Latina já roubaram os cromos e cadernetas dos jogadores do mundial e andam a ser vendidas na candonga…