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Do discurso sobre o Estado da Nação

Partindo da realidade de alteração, quase que constante, dos preços dos produtos que compõem a base da dieta alimentar do povo angolano, sobretudo os moradores das grandes urbanidades, apenas tem relevância, seja para o que for, a referência a baixa dos preços.

Em senso contrário, nada mais é senão isso mesmo “ situação inalteradas, com a dor de esta dura realidade inferir directamente na relação (de amor ou ódio) que o cidadão estabelece com o poder executivo e os seus principais agentes, pois em causa está a manutenção do essencial para viver.
De forma mais prática e concreta, perante um quadro realista de dificuldades à que os cidadãos estão expostos, o que se espera ouvir de qualquer agente da governação é, sempre, boa nova, que funciona como toque mágico, que provoca alteração no baú das frustrações, que cada um acumula por razões (im)próprias.
Para quem não vislumbrou nada do atrás escrito, no discurso proferido na quinta-feira, 15 de Outubro do corrente ano, pelo Presidente da República, João Lourenço, sobre o Estado da Nação, no marco de abertura da quarta sessão legislativa da IV Legislatura, existem razões suficientes para, cada um a seu nível, reagir da forma que julgar correcta, claro, dentro do respeito da lei e da ética moral e social.
Considerando válidas (?)as reacções em torno do discurso do Presidente João Lourenço, há que se ter sempre em mente a realidade objectiva, que convida uma apreciação realista e profunda do que representa o sentido de discurso sobre o Estado da Nação, que decorre da emanação Constitucional, estabelecida no artigo 118º (Mensagem à Nação).
O texto cujo número é único no supramencionado artigo institui, rigorosamente, o seguinte: “O Presidente da República dirige ao País, na abertura do ano parlamentar, na Assembleia Nacional, uma mensagem sobre o Estado da Nação e as políticas preconizadas para a resolução dos principais assuntos, promoção do bem-estar dos angolanos e desenvolvimento do País”.
De uma leitura profunda ao discurso do Presidente da República, com sentido de cidadania, sem precisarmos evocar a condição política de cada um, chegamos à simples conclusão de ter sido um pronunciamento que responde a previsão estatuída no corpo do referido artigo, independentemente dos termos que cada um de nós usaria de modo diferente, dada a nossa condição humana.
Tomamos como exemplo a referência ao surgimento e alastramento do vírus SARS-COV-2, que rapidamente se transformou em pandemia à escala global e ganhou a designação de COVID-19, cujo impacto na vida das pessoas, das famílias e nas economias dos países, fez com que todos os governos do mundo tivesse que dedicar uma boa parte das suas energias, recursos financeiros, humanos e científicos, para minimizar ao máximo as perdas de vidas humanas.
Para além de serem por demais evidentes, as medidas tomadas pelo Executivo angolano em relação ao assunto, apenas um político sem o mínimo sentido de Estado dar-se-ia ao desluxo de, na condição de João Lourenço, olvidar esta dura realidade, que para além de surgir de forma inesperada, abalou profundamente todas as sociedades, tendo mesmo alterado o ritmo de execução de importantes projectos em curso.
Neste prisma, respondendo a segunda parte do aludido artigo, João Lourenço afirmou que, “não vamos perder o foco daquilo que continua a ser a principal prioridade da nossa agenda: trabalhar para a reanimação e diversificação da economia, aumentar a produção nacional de bens e de serviços básicos, aumentar o leque de produtos exportáveis e aumentar a oferta de postos de trabalho”.
Sobre as autarquias, julgamos que João Lourenço foi polido no recado, ao ter recordado, pedagogicamente, que “não se adiam eleições que nunca foram convocadas, e não se convocam eleições sem que assentem numa base legal, sob pena de não serem consideradas válidas”.
Noves fora outras questões valiosas (ou não) ouvidas no discurso sobre o Estado da Nação, nos parece inexistir a cultura de aceitar a realidade e os condicionalismos reais que concorrem para a não alteração das coisas, bem como o dever de, cada um de nós, doar-se mais um pouco, com maior sentido de cidadania, aos desígnios da Pátria, que dispensam cores e ideologias partidárias.