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Enchentes no ensino médio

Havia muitos jovens concentrados na vasta área. Todos tinham o semblante bastante apreensivo. Os mais agitados movimentavam-se.

Trocavam impressões entre si ou aproximavam-se das cercanias. Outros aguardavam sentados à berma da estrada. Enchiam passeios e os espaços adjacentes à zona dos quartéis, ali na Calemba. A multidão chamava a atenção dos transeuntes. Em várias artérias de Luanda, o cenário repetiu-se naquela quinta-feira, 18 de Janeiro. Não se tratava de nenhum óbito. Os milhares de jovens aglomerados ao redor de escolas do segundo ciclo tentavam fazer inscrição para concorrerem a uma vaga no ensino médio.
As enchentes da semana passada “destaparam” situações descuradas no âmbito da cultura de branqueamento da realidade. A qualidade de investimentos feitos, ou não, no sector da educação e a falta de políticas concretas esquentam o debate. Quantos estabelecimentos do ensino médio foram construídos em Luanda depois da independência? Pelos vistos, transformar escolas primárias, construídas no tempo colonial, em institutos médios não supriu carências. Apenas agravou problemas, cuja dimensão clamam pelo contributo de todas as forças vivas do país.
Os detentores do poder político deviam reconhecer as falhas clamorosas relativamente à educação que, a par da saúde, é sector chave para o crescimento de um país. Desencadear um amplo debate nacional com contribuições de partidos políticos, igrejas, sociedade civil, depois de auscultada a opinião autorizada de especialistas e técnicos do sector não fragiliza quem governa. Ter coragem para alterar o Orçamento Geral do Estado, conferindo ao sector da educação a dignidade merecida seria um aprazível sinal de vontade política no contexto de mudança do que está mal.      
Por outro lado, o recurso à força para conter os jovens e seus familiares que se manifestaram nas ruas para reivindicar a materialização do direito à continuidade dos estudos não abonou a favor das autoridades. Eles só exercitaram direitos com garantias constitucionais. Recorrer a bastões e brigadas caninas pode até aterrorizar, mas não vai alterar a realidade. Estamos mal! Enfrentamos gravíssimos problemas estruturais. A corrupção tem tentáculos profundos. Entre fazer denúncias ineficazes e aperfeiçoar engenharias para pagar valor exorbitantes, os pais e encarregados com possibilidades optam pelo esquema que viabiliza a matrícula.
Como dizíamos no primeiro parágrafo não havia um óbito propriamente dito. Mas assistimos, em sentido figurativo, à morte do sonho de milhares de jovens que pretendiam frequentar instituições públicas ou comparticipadas. Claro que poderão dar continuidade aos seus estudos desde que tenham disponibilidade financeira para custear as despesas, cada vez menos suportáveis, em colégios privados. Muitos dos tais cobram valores proibitivos. Tentam acompanhar a galopante subida dos preços inspirados na necessidade de se adequarem às flutuações para cima das taxas de câmbio das divisas.
Grande parte dos colégios deixa muito a desejar. Embora o programa curricular seja ajustado ao aprovado pelo Ministério da Educação, as metodologias e critérios de avaliação sujeitam-se a posturas meramente comerciais. Exactamente como se a educação fosse mais um negócio qualquer. Há denúncias suficientes para accionar a fiscalização de vários sectores públicos pois, importa identificar problemas, reconhecê-los e adoptar medidas práticas com vista a corrigir o que está mal há demasiado tempo. Em nome do futuro das gerações do país onde estudar já foi um dever revolucionário, urge alterar o panorama para que o acesso ao ensino médio público deixe de se equiparar a uma imprevisível vitória na lotaria da sorte.