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Flores e sonhos de Angola

Apreciei muito o discurso do Presidente João Lourenço no último Congresso do MPLA. O mesmo fez-me lembrar  flores. Antes que eu seja acusado de um defeito que foi citado no mesmo discurso – bajulação – devo dizer que as flores têm a ver com um momento Proustiano que tive no Planalto.

Era no momento da campanha; o candidato João Lourenço estava a fazer um discurso no Kuito que foi transmitido ao vivo pela a Rádio Yetu. No Katchilengue, a nossa aldeia Katchiungo, o discurso ouvia-se perfeitamente. Eu estava a preparar-me  para ir almoçar no Bailundo em casa da minha sobrinha, Filomena Marta Chimbili. Estava a pensar no que levar para a Mena no almoço (na Inglaterra, onde passei uma boa parte da minha vida não se vai a um almoço ou jantar sem levar qualquer coisa para o anfitrião).
Notei, lá no fundo, perto da escola que o meu pai tinha fundado em 1957, flores silvestres. Levei o pequeno rádio comigo. Lá eu estava na pequena mata à procura de flores para a minha sobrinha e o candidato João Lourenço a propor uma Angola onde as pessoas teriam que produzir e não passar o dia debaixo de uma bananeira. Fiz um posting a dizer que gostei o que o João Lourenço tinha dito e fui duramente criticado por várias pessoas: sendo da UNITA, não deveria dizer algo positivo do nosso rival principal. Só que, com a idade e experiência que adquiri no mundo, para mim a time que mais contava é Angola.
Depois de ter ouvido o discurso do candidato e apanhado as flores para a minha sobrinha,  fui para o grande almoço esperando, claro, que aquele discurso iria servir como um esboço para a concretização dos sonhos de muitos angolanos. Desta vez, o presidente João Lourenço acertou quando disse que os males principais do MPLA e a nação eram o nepotismo, bajulação, impunidade, corrupção. Aqui não houve rodeios; o primeiro passo na resolução de um problema é identificá-lo com frieza. Para nós da oposição, de repente o MPLA se tornou num rival mais formidável, já que parece ter abandonado avaliar as coisas usando a pedra de toque de sempre; temos que começar a fazer os nossos deveres com seriedade, o que poderá nos fortalecer.
A remodelação nos governadores das províncias também está dar muito que falar. O governador provincial, teoricamente, é o representante do presidente na província; ele ou ela está na linha da frente no processo de concretizar das estratégias. O governador ideal deve possuir aquela combinação rara de lider/visionário e gerente. Isto significa que na realidade o presidente tem que se apoiar em vários líderes nas províncias. Fala-se muito de parcerias entre o público e o privado. Não me canso de dizer que a Flórida, o estado em que vivo nos Estados Unidos, foi construída por empresários como o Henry Flagler que, claro, operavam com a bênção do governo. O governo cria o clima que facilita as operações dos empresários – em certas instâncias, claro, uma estimulação financeira. 
Depois do almoço na casa da Mena, naquela noite, decidi regressar ao Huambo passando pelo o Katchiungo para visitar o meu irmão mais velho, Augusto Mateus. Passamos uma parte da cordilheira de Lumbanganda. À nossa direita, havia as luzes do que era praticamente uma cidade. Estávamos perante Camela – a aldeia que o empresário Segunda Amões transformou numa localidade irreconhecível usando os seus próprios recursos.
Venho acompanhando a evolução da Camela desde 2004 quando fui lá pela a primeira vez. Camela fica perto de Manico, a aldeia do meu avô Njamba. Há vezes que subo nas montanhas a volta da Camela para as aldeias de Cavava, Santeria, Sachipanguele  etc para apreciar as paisagens da infância do meu pai e tios. O Segunda Amões, meu parente, tinha transformado aquilo: soube que a estrada, feita por ele, já ultrapassou Cavava. Na própria Camela, não é só a escola, hospital, estaleiro que estavam a funcionar: já existe  estruturas que estão a gerir fundos através do turismo.  Camela pode ser reproduzida em vários cantos de Angola; não é preciso, neste caso, de inventar a roda – é só facilitar que o empresário Segunda Amōes replique o seu projecto.
Quando se fala de empresário sério e dedicado á Angola, não há melhor candidato do que o Segunda Amões. Já estive com o Segunda Amões em locais de imenso conforto em várias partes do mundo; também já estive com ele em reuniões quase intermináveis com os kotas das aldeias que eram cépticos sobre os seus planos de como a área deveria ser desenvolvida. Já estive ao lado do Segunda nas aldeias para convencer as famílias que deveriam mandar os filhos e filhas para a escola.
Lembro-me, até, de como uma família em pânico chamou o Segunda porque de repente a sala tinha se tornado numa nascente a jorrar água. O Segunda teve que convencer a família que em vez de ver aquilo como um problema, eles deveriam considerar a água jorrante uma benção já que ela escoava numa baixa que poderia servir para o cultivo de vários produtos. Sim Angola precisa de empresários que entendem um balancete, mas que podem resolver aqueles conflitos complicadíssimos que vão surgindo numa sociedade em mudança.
Estou a escrever esta crónica cá em Jacksonville de malas feitas. Estou a caminho de Angola, aonde darei algumas palestras numa faculdade sobre as mudanças no continente Africano, e depois, claro, irei para a Camela. Quero ir lá sonhar, procurar flores silvestres, ouvir os cantos dos pássaros, e tentar beijar aquele sol azul do Lumbanganda. Isto é possível graças ao trabalho do Segunda Amões e tanta gente que com ele colabora. Enquanto especulasse sobre figuras que usufruíram tanto da nação Angolana mais preferem gozar as suas fortunas cá forá, talvez chegou o tempo do governo dar prioridade á empresários que vão verdadeiramente criar infra-estruturas para aonde mesmo nos, filhos das diáspora Angolana, poderemos ir para sonhar, pensar, e até mesmo procurar por flores silvestres com discursos que inspiram no fundo.