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Imagens chocam mais que números

Uma coisa é sermos informados sobre números postos a circular para expressar e traduzir realidades gerais ou específicas. Números que são poderosíssimos, porque, desde que interiorizados por quem os lê, levam - imediatamente - à formulação de raciocínios, à “confirmação” de suspeitas, à confrontação das “teorias” e das visões que temos sobre a situação a que tais números dizem respeito.

Sem falarmos ainda da garantia da sua correcção, da sua “veracidade”, da sua actualidade e da credibilidade das fontes que os publicam.
Outra coisa é vermos imagens sobre uma realidade específica (acrescentadas em legenda escrita ou sonora, por números que podem ir rapidamente de um genérico 200 a um contabilizável 4). Esta outra coisa é ainda mais marcante se tais imagens são “live”, mostram o acontecer do que se quer denunciar, através, por exemplo, do que pode registar uma câmara que, indiscreta e poderosíssima, passa diante da realidade específica em questão, “fixando” os olhos de quem se quer mostrar.
O choque causado pela crueza de imagens e de sons, obriga-nos a reflectir sobre o poder da comunicação social e de como conseguem influenciar as nossas mentes, prioridades e actos.
Um poder que é por vezes usado para despertar, mas também para anestesiar, distrair, ocultar ou mesmo manipular. Ganhamos consciência de estarmos a tomar contacto com um aspecto da “nossa realidade” mas através do olhar de uma televisão estrangeira, que nos apresenta, sem surpresas, os seus heróis e insinua os seus vilões. A forma como este poder de influência é exercido não pode deixar de ser escrutinado. Numa lógica de real compromisso com a situação das crianças que surgem numa reportagem é, no mínimo, surpreendente que não se alerte as autoridades e que não se tenha o cuidado de ocultar o rosto das crianças filmadas. Temos também de aumentar a exigência sobre os canais de televisão nacional, onde não é raro ver a miséria exposta sem o mínimo respeito pelas pessoas das matérias informativas, que não são, lembremo-nos sempre, meros objectos.
Mas, mesmo quando uma reportagem tenha motivações inconfessáveis, pode ter o mérito da exposição da realidade, seja ela mais ou menos representativa. Pois pode contribuir para aumentar a consciência sobre os problemas e, esperemos, a vontade de os corrigir. Para isso é importante reconhecer que o visível é apenas uma pequena parte do que existe. Por trás do visível há sempre algo de muito mais vasto e profundo que, podendo não ser fácil de descortinar, encerra as causas do que surge perante nós.
A pobreza das crianças em particular, sendo um terrível drama em si mesmo, é a ponta de um enorme iceberg que envolve famílias destruídas, desemprego, desenraizamento e migrações, eventuais políticas erradas que fragilizam a economia, ou mesmo a corrupção a uma escala que afecte a economia geral do país. Sem esquecer as questões culturais que vão desde a pressão social para se ter muitos filhos, até ao estigmatizar de crianças como feiticeiras. E embora a quebra no preço do petróleo - e mais recentemente a CoViD 19 - tenham agravado a pobreza no nosso país, as suas raízes são muito mais profundas e antigas. A malnutrição infantil e os centros terapêuticos completamente impreparados para apoiar os desnutridos, já eram comuns mesmo no tempo em que nos achávamos ricos.
O país necessita de sistemas eficazes de protecção dos mais pobres, seja através de subsídios directos, internatos para crianças desfavorecidas, centros de recuperação nutricional ou redes de solidariedade assentes nas igrejas, na sociedade civil ou outras. Mas o fundamental não é o assistencialismo para remediar a situação dos menos favorecidos, antes sim a
adopção de políticas que permitam evitar que um tão grande número de pessoas caiam numa situação em que necessitem de ajuda pública ou da solidariedade alheia.
Olhemos pois para alguns números oficiais. O Inquérito de Indicadores Múltiplos de Saúde 2015-16 apresenta, para crianças com menos de 5 anos, 38% de malnutrição global (46% nas zonas rurais), e 5% de malnutrição aguda. Um olhar menos global, mas igualmente expressivo, é a matéria da ANGOP de 5 de Setembro de 2019, onde se reporta a ocorrência só em Benguela, na primeira metade do ano, de quase 6.000 casos de malnutrição grave.
Outros se poderiam referir, relacionados com secas ou tendo outras crises como causa. Os dados estatísticos como os acima, publicados em estudos sobre a pobreza, ou os dados sobre a recessão económica persistente que tem afectado o país (há 6 anos com um crescimento demográfico anual de cerca de 3%, e uma economia a contrair-se), embora ilustrem uma realidade abstracta, com percentagens e gráficos, deveriam fazer-nos entender a gravidade da situação. Que não é de agora. É fácil esquecer as pessoas que estas estatísticas reflectem. Temos de aprender a sentir a realidade humana que é transmitida pelos números.
Sentir, ao ler as estatísticas, a situação humana que as imagens nos mostram de forma tão expressiva. E retirar dessa emoção a energia para agir: acudindo os que necessitam de apoio urgente, mas também apostando seriamente em medidas estratégicas de erradicação da pobreza. A redução das taxas de natalidade e a prevenção das gravidezes precoces - apostando numa estratégia eficaz de saúde reprodutiva -, a par de medidas de aumento do poder económico dos mais desfavorecidos, são seguramente parte do leque de soluções.
Que os abanões emocionais provocados pelas imagens nos sirvam para ganharmos consciência da gravidade da situação das nossas crianças, e da nossa pobreza na sua globalidade. Faça-se o que tiver de ser feito para socorrer com urgência as crianças que tiveram a sorte de serem encontradas graças a uma televisão… assim como para atacar as causas que tornam possível deixar-se alguém chegar a situações de tão profundo abandono, penúria e dor.