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O combate à corrupção e as grandes reformas

Para um país como Angola em que, no passado recente, o combate à corrupção não passava de mera retórica, os eventos até agora ocorridos neste domínio têm se encarregado de vincar que a aposta feita nesse sentido é abrangente e para ser levada a sério.

 Há um longo caminho a percorrer, que não se compadece com imediatismos e precipitações, factores avessos ao sentido elevado de justiça com que se começou a fazer a abordagem do fenómeno.
Com efeito, ao estabelecer-se uma fase voluntária e outra coerciva para o repatriamento de capitais ilicitamente retirados do país, o Estado estava a dar um sinal claro de abertura ao diálogo, por um lado, mas também a deixar claro que o fracasso dessa via abriria caminho ao exercício da sua autoridade, podendo fazer recurso a todos os meios legais ao seu alcance.
Os últimos desenvolvimentos neste capítulo no plano judicial, que levaram inclusive o Procurador-Geral da República a deslocar-se a Portugal, onde se encontra para contactos com as autoridades lusas, têm o condão de realçar o amplo esforço diplomático que Angola tem vindo a fazer, de modo a obter a cooperação de vários países para garantir eficácia no combate à corrupção.
São os grandes casos mediáticos que ocupam as manchetes dos jornais que tratam de sinalizar a grande viragem que o país está a conhecer em termos políticos e, na sequência, de transmitir a toda a sociedade a certeza de que as mudanças que se pretende implementar são no sentido da construção de um país profundamente diferente daquele que até então havia. E que não é apenas a grande corrupção que preocupa.
Ao longo dos tempos enraizou-se o hábito de, por tudo e por nada, se pedir a famosa gasosa. Pela prestação de um serviço público, até mesmo numa pequena repartição, tornou-se comum o agente pedir uma remuneração extra. Essa prática corroeu o tecido social e contribuiu grandemente para a ineficiência de vários serviços e a subversão de valores. Como consequência inibiu o investimento externo e fechou as portas à entrada de capital financeiro estrangeiro de que a economia carece para se relançar.
A pequena corrupção está presente em quase todo o lado e é um cancro que embaraça os esforços que visam instaurar o princípio elementar de justiça no tratamento igual de todos os cidadãos, fazendo com que uns se aproveitem do que é do Estado para obter vantagens e enriquecer de forma ilícita.
O lançamento pela Inspecção Geral da Administração do Estado (IGAE) de uma linha de chamada grátis para a denúncia da actuação dos agentes públicos é uma resposta adequada para fazer face a essas situações. É preciso que os cidadãos colaborem e façam, com maturidade e assertividade, o escrutínio das acções do Executivo e dos seus agentes, de modo a que haja cada vez maior consciência da necessidade de se ter uma conduta isenta.
O combate à corrupção, ao nepotismo e à impunidade não é um modismo. Inscreve-se no amplo movimento de reformas que o país precisa de conhecer se todos quisermos realmente inaugurar uma nova forma de estar, pensar e agir; se todos quisermos, na verdade, construir um país de que nos possamos orgulhar e as gerações vindouras também.
Precisamos de assegurar que o mérito se sobreponha a todo o tipo de facilidades que foram sendo criadas, dando uma ideia completamente falsa da realidade.
Os sectores do ensino e da saúde são dos que mais foram afectados pelo fenómeno, reflectindo-se as consequências na qualidade dos quadros formados e dos serviços prestados. É grande a luta que é preciso desenvolver para que Angola alcance os níveis de reputação de outros países do continente, cuja aposta naqueles sectores os coloca entre os melhores em África em termos de pesquisa, investimentos e assistência médica.
A corrupção é um mal que impede o desenvolvimento e contribui para o atraso social e económico dos países.