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O Dia da Criança Africana

Tenho para mim que o livro é mais importante que a gasolina. Que o digam os japoneses que, no século XX construíram, sem reservas de petróleo assinaladas no pequeno arquipélago, a segunda maior potência mundial (hoje a terceira).

Por isso defendo, em termos comparativos que, se a gasolina é subvencionada pelo Estado, se o Estado se preocupa e está muito atento aos preços do combustível e, se todos os dias milhares de cidadãos falam da gasolina e a consomem nos seus carros, também o livro deveria participar mais nas preocupações do Estado e no consumo dos cidadãos, visto que o livro é mais importante que a gasolina. 
Na verdade, num país como Angola, a procurar sair da longa crise pós-independência e partir para o desenvolvimento sustentável, situação ideal que, em África, nenhum país ainda alcançou, o principal investimento tem de passar pelo Homem, isto é a CRIANÇA de hoje que é o futuro da Nação. E este investimento significa pôr as crianças (cidadãos dos zero aos 18 anos de idade) a ler, a marrar (os nossos jovens dizem “amarrar”) os livros, até deles ganharem o fascínio, o feitiço que eles nos trazem quando os tratamos como uma droga incontornável. Só assim, teremos as mentes brilhantes que, em diversos domínios, produzirão o combustível do desenvolvimento, que não é gasolina, o petróleo que vendemos ao barril, mas, sim, o combustível chamado massa cinzenta, o know-how dos fabricantes e construtores. E aqui desejo desde já desfazer um tremendo equívoco que grassa na cabeça de muita gente (até de confrades meus) de que “vamos cultivar o gosto pela leitura, para formar futuros escritores”. Nada disso. Vamos pôr as crianças a ler, para formar futuros engenheiros, médicos, arquitectos, políticos e outros técnicos de grande qualidade. Os escritores, se vierem, virão por vocação natural, nenhum escritor se faz a martelo, como as portas das casas. 
Vem esta matéria desta segunda-feira celebrar o Dia da Criança Africana, comemorado na passada sexta-feira, 16 de Junho. Fui convidado para apresentar, no Instituto Médio de Administração e Gestão (IMAG), no projecto Nova Vida, um pequeno manual didáctico, intitulado Guia Prático para Pais & Encarregados de Educação, da autoria do professor Fernando Pereira de Santana. E foi nesse acto que retomei esta ideia de convidar o meu Povo a ler livros, revistas, jornais, cartazes, ler, ler, ler sem tréguas, até revistas de banda desenhada, até a mente cheirar a letras, como nos cheira a gasolina. Angola inteira devia cheirar a livros. Nas casas, nos automóveis, nas escolas, nas lavras, nos órgãos da Administração Pública, nos candongueiros, devia haver pequenas papelarias privadas nos bairros periféricos a vender e trocar livros novos e usados. Porque o livro é mais importante que a gasolina. Mas como poderá este livro exercer a sua missão sagrada de mudança do paradigma educativo familiar, se vivemos numa sociedade quase ágrafa, onde uma enorme percentagem de pais e encarregados de educação já nem lêem um jornal sequer? 
Num país como Angola, com uma alta taxa de população jovem, as escolas não podem constituir o único agente activo de formação do homem. Precisamos de  atribuir à televisão uma nova responsabilidade social e moral de educação para a cidadania. A TV pode também, em grau mais acentuado, “formar” informando. 
Esta dimensão da educação na televisão  requer o contributo de professores e dos académicos angolanos. Podemos realizar esta tarefa. Podemos fazer os intelectuais participar mais na TV: extrair deles o saber que dignifica o homem e educa os mais novos. O professor Fernando Santana é um desses colaboradores. Poderia disseminar a sua obra num programa televisivo sobre Educação Familiar, passado numa hora nobre. Porque tenho a  certeza de que são poucos os pais e encarregados de educação que sabem ou possuem o hábito de pegar num livro e devorá-lo como deve ser.
O que propomos, neste mês da Criança, é, em suma, resgatar a dimensão cultural e pedagógica da televisão, criando novos hábitos de leitura e de busca do conhecimento científico-cultural, e o uso reiterado do altruísmo e da solidariedade humana (pilares de uma forte moral humanista).