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O foco é a economia

Nunca ao longo dos anos que se seguiram à nossa Independência se falou tanto de economia como temos vindo a assistir nesta Terceira República, em que se assumiu a estabilização macroeconómica como o foco principal, só possível com o levantamento de todas as barreiras surgidas após a conquista definitiva da paz, que condicionaram o desenvolvimento sócio-económico, pois verdade se diga, esteve por muito tempo ao nosso alcance, não fossem outros interesses, que ao privilegiarem pequenos segmentos, acabaram por prejudicar de forma marcante toda uma nação, condenada agora a (re)começar quase do “zero”  num contexto complexo marcado pela exiguidade de recursos financeiros.

 A maior abertura dos meios de comunicação social, públicos e privados, na abordagem objectiva da realidade do país, com as redes sociais a terem um protagonismo nunca antes vivido, (por vezes eivadas de sensacionalismos), galvanizam a participação dos cidadãos ao conhecimento e defesa dos seus plenos direitos consagrados na Constituição da República, que em contextos anteriores não encontravam espaço de debate, e se o eram, eram-no sob a cortina de “tabus” sem ressonância relevante, com “custos” acrescidos.
 Sendo a economia uma ciência eminentemente política, a sua relação estreita de coexistência indissociável com a política, não poderia oferecer-nos outro quadro, que não fosse o que vivenciamos agora no país, com os níveis de ansiedade pela mudança de paradigma da gestão económica inclusiva para o bem comum a atingirem o rubro, oferecendo perspectivas diferentes, entre os que defendem a observância e respeito pelas etapas inerentes à transição de processos políticos e os que propugnam por mudanças radicais, independentemente das suas implicações.
Dentre as duas perspectivas diferentes mas não antagónicas, de uma coisa estamos certos: A nossa economia atingiu níveis de desestruturação altamente preocupantes, a julgar pela negatividade de todos os indicadores de performance económica e social: inflação 24 por cento; RIL – Reservas Internacionais Líquidas 12 mil milhões de dólares (somente...!!!);  Dívida pública acima de 50 por cento do PIB; taxa de crescimento do PIB, menos de 2,00 por cento; elevadas taxas de mortalidade infantil; infra-estruturas rodoviárias em estado de colapso, o que justifica o índice de acidentes (sendo hoje a segunda causa de morte, após a malária), quadro que nos coloca na posição 182 do Ambiente de Negócios (Doing Business)...!!! Numa só palavra: Estaflagação – economia não competitiva...!!! tendo estado na base desse quadro: a impunidade, o nepotismo e a corrupção, a ponto de a quase totalidade das instituições e empresas públicas terem sido geridas pelos respectivos titulares como que de propriedades privadas se tratassem.
Baixar a fasquia de vícios que anos a fio se foram sedimentando e “desleitar” pessoas que constituíram fortunas por força desse “status quo” de enriquecimento primitivo, à custa do sacrifício de milhões de angolanos, não se afigura tarefa fácil para o Presidente João Lourenço e as instituições que o terão de apoiar nessa empreitada, com destaque para a PGR e as FAA. Aliás, basta olharmos para algumas vozes que apressada e inconfessadamente já se levantam, exigindo a demissão de titulares com responsabilidades acrescidas nessa cruzada.
Porque o foco é a economia, deixemos que cada instituição cumpra com rectidão as suas responsabilidades constitucionais, para que todos possamos desfrutar do bem estar que a pátria nos reserva, pois Angola tem tudo para inverter o actual ciclo vicioso de pobreza, para empreender a desejada caminhada para o ciclo virtuoso de desenvolvimento, fazendo jus ao enorme potencial de recursos naturais e humanos que dispõe.
  *Economista