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Pandemia e fragilidades

Saúde, Economia e Educação são, por esta ordem, a prioridade angolana, por motivos conhecidos da maioria de nós, mesmo dos que fingem não saber, entre eles, os culpados pelo estado agonizante do país.

O momento que estamos forçados a viver, devido à presença do coronavírus, faz sobressair muitas das nossas fragilidades que podiam não ser tantas e tão graves, não fosse a megalomania de uma pequena burguesia emergente, que fez do erário tesouro privado e do nepotismo forma de “dar” o que lhe não pertencia e de se manter na ribalta da obscenidade.
Este capítulo vergonhoso da nossa História recente jamais deve ser esquecido para ser contado a futuras gerações, contudo, também, para nos lembrarmos, no presente, o que não podemos fazer, nem deixar que se faça. Apenas por isso, que o momento não é de lamúrias, mas de acção, cada qual na trincheira que lhe está destinada, em mais este desafio gigantesco que nos surgiu. Discutir outros assuntos, por muito actuais e importantes que ontem nos pareciam ser, é corrermos o risco de desviarmo-nos do essencial.
A saúde, se sempre foi, hoje, mais do que nunca, é, indiscutivelmente, prioritária entre todas as prioridades, pois sem ela não há planos, por muito atraentes que sejam, com força para saltar do papel. Têm de limitar-se a permanecer na fila de espera, a aguardar pela vez. Então, e a economia? Perguntarão uns. E a educação? Replicarão outros. Em ambos os casos, com lógica, até indignação, por serem sectores indissociáveis ao desenvolvimento de qualquer país. No nosso, infelizmente, por circunstâncias várias, ontem e hoje tão mal tratados. Por isso, o nosso desafio é gigantesco. A não ser que queiramos correr o risco de hipotecarmos como nação, temos de cerrar fileiras, pondo, para já, de lado ideologias políticas, fervores partidários, interesses pessoais.
A debilidade da nossa economia pode ser atenuada, até reforçada, em plena pandemia, se forem materializados programas de fácil execução, promessas repetidamente feitas, designadamente, a nível dos sectores da produção e do comércio informal. Não é por falta de lavras, nem de camponeses que há artigos sem escoamento. Se os governos provinciais e as administrações não procedem, por exemplo, a arranjos de caminhos, que estas tarefas sejam entregues a militares. Também não é por escassez de espaços, nem de avultadas verbas, que não são instaladas pequenas praças de venda de hortícolas e frutas, entre outros bens de primeiríssima necessidade. O que rareia, cada vez mais, pelos vistos, é capacidade de pensar, fazer, cumprir, arregaçar as mangas, em vez de ecoar desculpas desconexas, imitar choros de carpideira.
A facilidade de escoamento de produtos provenientes de lavras familiares, para serem vendidos em pequenas praças, além de ajudar a equilibrar o dia-a-dia de vários agregados, diminuía o desemprego, incitava o gosto pelo trabalho, permitia receitas ao Estado e apaziguava espíritos.
A quarentena domiciliária, para os que a cumprem de verdade, também pode ajudar à reflexão, mas, igualmente ao estudo, aprendizagem de alunos e professores. De forma que uns e outros voltem à escola, com maior percepção do que ela deve ser, com mais conhecimentos e melhor preparados para aprender e ensinar. Elementos de várias organizações de partidos políticos, igrejas, moradores da bairro, ONG têm neste tempo, no qual as desigualdades se acentuam, oportunidade de ser desinteressadamente solidários, dar e dar-se sem esperar por reconhecimentos públicos, aparecer na televisão e nos jornais, ouvir as próprias vozes nas telefonias.
Deste tempo do coronavírus, que nos faz lembrar todas as outras doenças que também podem matar, a maioria de nós vai sair dele diferente, porque nunca mais a vida vai ser igual.