Opinião / Artigos

Treinadoras de bancada

A cada quatro anos a atenção da humanidade concentra-se no acontecimento mais mediatizado do mundo. Desta vez o campo das jogadas é a Rússia.

 A terra dos Czares, amplamente modernizada da era de Vladimir Putin, uma espécie de imperador dos tempos modernos, acolhe a maior festa do futebol. Mal começou, os mercados das apostas foram estremecidos por resultados inesperados. Vitórias estonteantes, empates com sabor a fel, o desencanto dos africanos e a derrota da campeã em título condimentam o grande “trumunu”. O México desceu ao relvado para demonstrar que não sucumbe a ameaças. Contrariou as previsões ao partir o muro que deixou a descoberto as debilidades do potente motor 7.1 que vulgarizou o Brasil há quatro anos.
Aquele já foi para a história. Mas ainda é cedo para vaticinar o desfecho do presente Mundial. Enquanto a bola corre à solta na Rússia, bruxos, adivinhos e demais especialistas do oculto também disputam competências. É tempo de aparecer e aumentar cotação. Mas os “xirangas” não são os únicos que se fazem notar. A esta altura, os treinadores da bancada multiplicam-se por mil. Com maior e menor propriedade, diferentes linhas de argumentação animam a festa em diferentes plataformas. Nas mutambas dos bairros, ao virar da esquina, nos candongueiros e nas incontornáveis redes sociais, a conversa vai desembocar no Mundial da Rússia. Homens e mulheres vivem a magia do futebol. Sim, mulheres! Já lá vai o tempo em que este assunto era exclusivamente masculino.
Hoje, menina ou mulher que goste de futebol não é inevitavelmente considerada “Maria Rapaz”, apesar de ainda causar estranheza em alguns círculos. A mim nunca surpreendeu. Cresci rodeada de exemplos. Nasci num bairro com muitos campos para a prática desportiva. Não me lembro de ter visto os meus tios jogarem no campo dos Perdidos e do Kubaza, mas cresci a ouvi falar desses recintos. O Calumbunze, que virou zona residencial, tem lugar cativo nas minhas memórias de adolescência. Nos lugares em que morei havia largos para as miúdas e miúdos praticarem desportos, com predominância para o futebol. Aparece sempre material para improvisar uma bola quando estas faltam. Qualquer tijolo pode servir para demarcar balizas. Portanto, nunca faltaram condições para jogar ou torcer nas bancadas.
Conheci os campos de São Paulo e Cidadela com a minha mãe. Vi muitos jogos do Torneio de Agricultura, realizado em 1978. Chorei, naquele dia há muito tempo por causa da derrota do 1º de Agosto diante do Bangú. Ainda adolescente, escapei muitas vezes de casa para ir aos estádios ver a malta do bairro. Atrevi-me a sentar na bancada metálica dos Coqueiros, que toda a gente sabia pertencer ao Progresso do Sambizanga, para torcer pelo glorioso rubro-negro. Influenciada pelas mulheres da família, cultivo até hoje o hábito de ir assistir a partidas de futebol sozinha ou acompanhada. Não desperdiço nenhuma oportunidade, esteja onde estiver, de ser apenas mais uma apaixonada pelo futebol no meio da multidão.
Tanto na minha família materna quanto na paterna, abundam exemplos de mulheres apaixonadas por futebol. A minha mãe prefere deixar a novela para o dia seguinte para não perder um jogo da Champions. Pergunta pelo horário de jogos em época do CAN. Podemos tranquilamente ser torcedoras circunstanciais numa partida entre o Enyimba e os Rangers da Nigéria ou entre desconhecidas equipas de algum campeonato africano, apenas porque queremos ver futebol. Vi muitas vezes a minha tia Maria Eunice com o rádio colado ao ouvido. É normal ela “discutir” lances de futebol com o árbitro. Distingue melhor do que eu as vozes dos jornalistas desportivos. Sobre regras de jogo estamos conversadas. Ao fim da jornada, nos campos e fora deles, todos pontos amealhados são decisivos para operar metamorfoses. Impossível esquecer que há lugares onde jogos de futebol são interditos a mulheres para as impedir de ver as pernas dos jogadores…