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Voltar ao morro: razão de recordar

Tal como nas vezes anteriores, viajar até ao morro, lá no Moco, teve a faculdade de nos fazer abstrair dos problemas que nos asfixiam no dia-a-dia. E é por isso que lá vamos regularmente, pois voltamos sempre animados com novas perspectivas.

O trajecto é de uma enorme beleza. As formações graníticas que pontilham a paisagem recordam-nos que não há caminhos sem obstáculos. Os imensos e verdes vales, percorridos por ziguezagueantes cursos de água, fazem-nos pensar no imenso maná que o país põe ao nosso alcance. Apesar de recém-saídos de um cacimbo tão afectado pela “cerca sanitária”, não nos esquecemos, neste difícil Outubro, que estamos em vésperas do 11. E não um qualquer: o que completa o quadragésimo-quinto desde que o país nasceu - e por isso sonhámos que fomos, de propósito para recarregar baterias.
Mas a carta que desta vez nos esperava, continha inquietantes perguntas...
“Onde estavas, Apusindo, quando se proclamou a independência? Como percorreste estes 45 anos? Aprendeste algo no caminho?”
Respirámos fundo. Nada melhor que o abraço com que sempre nos acolhe aquele tranquilo guardião do planalto central do país, para despertar os ruídos brandos da memória, e atribuir-lhe significados, de acordo com a experiência de cada um.
E a memória veio-nos, com gosto: a data - marcada desde 31 de Janeiro de 1975, no Alvor - aproximava-se a passos rápidos. Tão rápidos como as pequenas nuvens deixadas pela saltitante caminhada da gazela, a descer as faldas do morro. Então a dipanda chegara, tão aceleradamente, que nem tempo houve para pensar e prever como tudo haveria de acontecer. Pairava apenas no ar a convicção de que a vitória (a da Independência) seria certa.
E foi. Proclamada em capitalina praça cheia de gente, precisamente no momento em que os dois nocturnos ponteiros do relógio coincidiam no traço que separava aquela segunda da terça-feira. Mas não foi a festa esperada, e nem foi festa para toda a gente. Muitos combatiam, milhares de famílias movimentavam-se num mar tumultuoso, para um destino cheio de incertezas. Entre o Alvor (onde, diante das autoridades portuguesas, os três movimentos de libertação se comprometeram, se abraçaram e assinaram) e o Novembro daquela noite, tinham-se semeado as premissas de um futuro doloroso.
Sabíamos todos, ao sair da breve festa da praça, que uma inevitável e triste luta haveria de continuar. Só não sabíamos que entre aquele dia e um futuro 4 de Abril de 2002, tanta desgraça e tanto sangue haveriam de correr. Nem pressentíamos a complexidade do desafio que estava para vir.
Afinal, não éramos mais do que uns jovens, crescendo rapidamente, procurando acompanhar as transformações que se verificavam descontroladamente sob os nossos olhos. Exultando com sonhos que pareciam possíveis, pois era como se tudo estivesse ao nosso alcance. Sonhávamos com fraternidade universal e um sistema social justo, mas vivíamos demasiado obcecados, e alienados, pelos discursos muito pouco fraternos que promoviam exclusões irreconciliáveis entre angolanos.
E passaram 45 anos em que fomos percorrendo o caminho que nos pareceu o mais útil para perseguirmos esses nossos sonhos, que foram sendo caldeados pela dura realidade. Procurando dedicar-nos a áreas do saber que poderiam transformar o país para melhor. Fartámo-nos de viver mas não estamos fartos. Desiludimo-nos, por vezes, com a frustração de - tendo sido partícipes - não termos tido o engenho e a arte de sermos mais relevantes. De evitar que nos enganássemos e nos contivéssemos (afinal, se a casa ardia, nós estávamos dentro dela, e não fomos capazes de o impedir). Sabemos que não há responsabilidades menores perante algo que correu mal. Abominamos o discurso, tão fácil e frequente, de quem hoje se apressa a apontar o dedo num momento de alteração das forças no poder... o mesmo dedo que, numa mão então aberta, apertava as que pertenciam a quem na altura ditava as regras.
O tempo não significa o mesmo para um homem ou para um país. Enquanto homens, um certo dia entramos no ocaso da nossa existência, mais maduros e, quiçá, mais sábios. Mas aos 45, o país é ainda uma criança na pré-adolescência, que acabou de largar as fraldas, parecendo ter-se apercebido que tem hábitos de higiene muito contestáveis, mesmo quando a aparência exterior o não faz transparecer.
“E o que achas, Apusindo: será que chegaremos aos 50 de país com um sorriso sustentável na cara?”
Poderemos vir a estar melhor, decididamente. Reconciliados com o passado e, senão completamente, pelo menos libertados de um conjunto extenso de más-práticas e melhor equipados para as prevenir e combater.
Para isso é preciso que nós, angolanos, nos transformemos em outro tipo de cidadãos. O que implica uma enorme mudança cultural. Incluirmo-nos activamente na nação e contribuir para a inclusão de todos. Independentemente das nossas diferenças, que são muitas e continuarão a ser. Transformando-as em força. E sim, aprendemos algo: só na constante procura do caminho certo -que não encontraremos escrito em nenhum livro definitivo - poderemos encontrar as soluções para a alguma felicidade.
Subjugados pela paisagem do morro, enquanto bebericávamos um café, não conseguimos escapar ao sentimento de esperança que nos transmitem o lugar e o momento. Afinal o Pico ali estava, apesar de tudo. Mas as nuvens que o emolduram impedem que o sol aqueça uma parte considerável dos nossos compatriotas. Demasiados. O que nos impede de sentir a satisfação e a confiança de que necessitamos.
E essa é uma realidade que, custe o que custar, temos que conseguirmudar.