Opinião / As Subesferas

O clube "Atlético" e o aroma da liberdade

O Atlético, dizem-me de Luanda “miúdos” vivazes como Rui Clington e António Ramiro da Cruz Lima, faz agora anos. Rui é filho de Demóstenes de Almeida e no desporto as camisolas que lhe cingiram o corpo elástico da sua primeira juventude eram azuis, as do Clube Atlético de Luanda.

Com o meu amigo Rui Clington, jurista depois de proclamada a independência, jogaram futebol no Atlético outros “miúdos” dotados de uma jeiteira imensa para a bola: Valdevino, que faleceu em Luanda, Rui Pires, que acabou os seus dias em Moçâmedes, e o “Chefe” digamos o Sousa, também já desaparecido da plateia em que todos nos achamos hoje. O “Chefe” era um médio de cobertura implacável nas bolas divididas. A fazer lembrar o “tackle” austero que tornou famoso outro médio do Atlético, Cardoso, o “Camacoa”, que havia jogado antes no Sport Clube Catumbela ao lado dos históricos Carlitos e “Cachimbinha”.
Estou a progredir, na tessitura desta crónica, à revelia de um ordenamento temporal que pudéssemos achar, no mínimo, rigoroso. Os futebolistas que acabo de referir têm a ver, já, com a década dos anos de 1950. A “culpa” é do Rui Clington, mas eu passo a seguir, de imediato, linhas sequenciais no tempo e no espaço que acolham momentos da história do Clube Atlético de Luanda, alavanca de indiscutível relevância no processo introdutor do nacionalismo angolano. Porque o Clube Atlético de Luanda é uma charneira sociológica. Recuemos até finais da década de 1930 e princípios da década de 1940, quando, de facto, já o chamado “campo dos Coqueiros”, depois estádio municipal, existia. E quando as representações futebolísticas dos “clubes da baixa”, Atlético à parte, incluíam já praticantes mestiços e negros. Um clube cujas equipas de futebol chegaram a incluir brancos, só brancos, porque tal estabelecia um artigo dos seus estatutos, foi o Sport Lisboa e Luanda, que se dizia filial do Sport Lisboa e Benfica. Fraca “filial” porque, em Lisboa, no Benfica da época brilhavam angolanos não-brancos, primeiro Guilherme Espírito Santo, depois Alfredo Gourgel Pereira Melão, que se lhe juntou, creio, em 1944 ou 1945. O Atlético sempre foi “especial” porque também sempre fez a diferença, assumiu a diferença. A começar pelo seu eclectismo – muitíssimo emblematizado pela ímpar figura de Demóstenes de Almeida.
A visão desportiva de Demóstenes confiou ao Clube Atlético de Luanda o facho ateniense do consórcio do pensamento e da cultura com as inquietações políticas associadas à apetência libertária dos povos. O Atlético nasceu, cresceu e sobreviveu como um corcel da persistência e do estoicismo. Resistiu aos mitos paternalistas e às calúnias difamantes. Chamaram-lhe, em diferentes etapas da sua história vivencial, “clube dos cozinheiros”, “clube dos mulatos”, “ninho de conspiradores”. O Atlético recrutava em todas as vertentes da sociedade luandense dos anos de 1930, 1940, 1950. Tinha adeptos nos musseques, nas Ingombotas, nos Coqueiros. Não em vão os seus adeptos chamaram-lhe “Escola” – escola de amizades, de interacções, de solidariedades. A sede antiga do Atlético, situada nos Coqueiros, não longe da do Sporting Clube de Luanda e também da sede do Futebol Clube de Luanda, tinha as instalações sociais na cave de um prédio antigo, mas beneficiava de um largo recinto cimentado que o clube utilizou para a prática do basquetebol e também para bailaricos dos seus dirigentes e associados. Espiando a matriz sociológica da Direcção pós-fundacional e da “equipa histórica” de futebol do antigo Atlético, vemos como a coesão na diversidade subsidiou no clube a movência dos fulgores independentistas. Nessa época, 1940-1947, a Direcção do Atlético aglutinava negros, mestiços e brancos. Os brancos – entre os quais Teixeira Gomes, “Teixeirinha”, Vidal, Taipas, democratas escapados à ditadura salazarista reinante em Portugal. O imperativo que os levou a remunerarem a cultura libertária do Clube Atlético de Luanda não é, pois, dissociável da presença, na Direcção, de homens como Aníbal Melo, Couto Cabral, Alberto Luis Ferreira, Faliero Cunha e outros angolanos nascidos, ou não, em Luanda. (Américo Boavida e seu irmão Diógenes foram jogadores do Atlético). Sem vínculos ao quadro directivo do Atlético outros cidadãos luandenses significaram, em todo o caso, uma rectaguarda moralde apoio que resultou decisiva como testemunho solidário – tonificante para a colectividade. Francisco de Matos, pai do saudoso militar e artista plástico Rui de Matos; Francisco Barradas, funcionário da Alfândega; Horácio de Oliveira, pai da musicista Ildegarda (“Garda”) e funcionário do antigo Banco de Angola – no qual preponderavam simpatizantes do então “classista” Sporting Clube de Luanda, grande rival do Atlético – Gabriel Leitão, Gabriel Baguet, os Vieira Lopes, a família Cabedo, os Assis, os Cruz Lima, entre outros, deram corpo também à co-tutela moral periféricado Atlético. Como também o velho senhor Mingas, pai de Rui e Avelino Mingas, popularizado entre os adeptos do“Escola” por ser avezado a “chutar”, na bancada –com “prejuízos” para as costelas dos adeptos sentados na fila logo abaixo... – sempre que, diante da baliza adversária, se desenhava a iminência de um golo. Isso acontecia no sector “destinado” às claques do Atlético. De facto, o colonialismo, em Angola, que o Atlético questionava, guiou-se, também no futebol, por preconceitos e selectivismos que o clube histórico com sede nos Coqueiros punha em causa. E aos quais replicava, no próprio estádio, com a sua firme e subtil política de aglutinação dos fiéis.
O longo exemplo de pertinácia e fervor do Clube Atlético de Luanda esmalta-se de vários rasgos memoráveis de superação quase “epopeicos”. O Atlético especializou-se, até, na requintada arte de ganhar campeonatos na última jornada e nos minutos finais do chamado “jogo decisivo”. A dois títulos conseguidos em tais circunstâncias estão ligados dois futebolistas e cidadãos inesquecíveis, Melão e Feliciano. Recordar é uma restituição hereditária de alto valor que os “atléticos” de hoje devem enaltecer.

(*) Luis Alberto Ferreira é o mais antigo jornalista angolano no activo