Opinião / Editorial

Estabilidade para resolver

Governar é prever e programar soluções para os problemas que afligem o país. Isso obriga a que se tenha um conhecimento da real situação, se faça um diagnóstico das capacidades de tesouraria, técnicas e humanas para se executarem os vários programas que poderão dar respostas às necessidades.

Nessa indispensável previsão há que ter em conta factores internos e também componentes externas, muitos deles sem qualquer influência do Executivo.
No plano interno, para além de uma herança de cofres vazios e uma disfuncionalidade de quase toda a administração pública há, também, fenómenos naturais que estão a condicionar muitos dos projectos de melhoria da vida dos cidadãos. Não é apenas a seca na região Sul do país, mas também as ravinas e, não tarda, as cheias provocadas pela chuva. Tudo isso a que se junta uma atmosfera internacional adversa, com fortes ameaças de mais uma nova grande crise económica mundial, da qual, infelizmente, ainda não conseguimos sair.
Em economia não há milagres. Os milagres, a existirem, só acontecerão nas igrejas e confissões religiosas ou no imaginário dos crentes e fiéis. Por isso, perante um quadro interno e externo complexos, fica difícil reunir recursos para dar resposta rápida a todos os problemas que o país vive.
Desde a sua posse que o novo Executivo tem procurado estabilizar a macroeconomia, premissa fundamental para que os vários projectos tenham, efectivamente, pernas para andar e consigam ir resolvendo os problemas que afligem os cidadãos e as famílias. São já conhecidos alguns desses programas, que passam pela dotação de infra-estruturas e equipamentos sociais a todos os municípios, no âmbito do combate às assimetrias regionais e no quadro da descentralização que nos conduzirá às autarquias. Passam igualmente pela criação de cerca de 250 mil novos empregos, no âmbito do PAPE, lançado no final da última semana e também por outras acções que visam dinamizar a produção nacional, o comércio e os centros logísticos para que não se continue a assistir a contradição de ver produtos apodrecerem no campo quando há carências nos grandes centros consumidores e outras regiões mais longínquas.
Apesar de iniciados, os programas não serão executados de noite para o dia, contemplando um horizonte temporal mais de acordo com o diagnóstico feito e as reais capacidades do Governo.
Exigir que em dois anos se resolvam os muitos problemas que se arrastam há décadas e que andavam escondidos debaixo do tapete é não só desonesto, como irrealista. A estabilidade macroeconómica não se obtém de um dia para o outro. Não se sai de uma recessão para voltar ao crescimento em tão curto espaço de tempo. Os resultados demoram a surgir mas todos os indicadores, até mesmo das principais agências internacionais. apontam que se está no bom caminho, mesmo se esse caminho se revele bastante duro nos dias que correm.
O país precisa de tempo para corrigir o muito de mal que foi acumulando ao longo de anos. Tempo para a estabilidade macroeconómica, mas tempo igualmente para a estabilidade política e a estabilidade social. Sem essas condições, muito dificilmente se poderão exigir resultados, porque as atenções ficam sempre viradas para o apagar de fogos criados pela pressa e as expectativas elevadas na solução das muitas dificuldades por que passam as pessoas e as empresas no seu dia-a-dia.
A história já nos provou, de forma muito amarga, que a instabilidade só conduz ao atraso e ao adiamento da realização dos nossos sonhos e necessidades. Todos gostaríamos de ver os problemas resolvidos hoje ou amanhã. A realidade mostra-nos que é impossível resolver tudo de uma vez e que, passo a passo, se tem procurado ir dando solução à algumas inquietudes dos cidadãos, famílias e empresas, apesar das condicionantes internas e externas.