Opinião / Editorial

Um momento de coragem e determinação

A moralização da sociedade angolana nos casos de corrupção, peculato, tráfico de influência e outras más práticas começa a transformar-se num facto, independentemente  da natural reacção de várias sensibilidades da sociedade. Como  qualquer medida ou conjunto de medidas que acabariam por afectar interesses instalados e eventuais defensores de tais conveniências, não há dúvidas de que as mesmas não agradariam a todos. Mas o fundamental é que a irreversibilidade das mesmas se transforme num caminho a ser percorrido por todos para bem de todos.  Continuam válidas as palavras do Presidente da República, proferidas no início do ano, durante uma conferência de imprensa, quando disse que “a estratégia para garantir o êxito nesta luta contra a corrupção só tem duas palavras: coragem e determinação. E vamos buscar forças no sentido de não nos faltar essa coragem e essa determinação.”

Atendendo que as medidas para a correcção do que está mal podiam sempre acabar por congregar vozes que apoiam, rotuladas erradamente de eufóricas, que não apoiam, saudosistas algumas e bocas de aluguer outras, não há dúvidas de que o momento exige coragem e determinação.  Precisamos de aprender a conviver com todas elas, inclusive com aquelas últimas, as vozes de comentaristas e analistas que mais se assemelham a verdadeiras encomendas, cujas reacções abeiram à afronta contra as instituições e um verdadeiro insulto a toda a sociedade. Dizer publicamente que as medidas adoptadas pelas instituições judiciais, que deram lugar à aplicação de várias medidas de coacção, resultam da caça às bruxas só encontra precedentes nas circunstâncias em que o vil metal tenha jogado algum papel. De outra maneira, não se pode compreender como é que um analista em plena televisão fale, como o fez o comentarista da TV Zimbo, durante o jornal de domingo, sem base absolutamente nenhuma, que alegadamente a “intenção do actual Presidente da República visa prender o ex-Presidente.”
Todos os que até ao presente foram constituídos arguidos e submetidos a medidas de coacção, além de continuarem a gozar do princípio da presunção da inocência, apenas foram sujeitos à situação em que se encontram tendo como base os factos que se lhes foram apresentados pela Procuradoria Geral da República.  Não faz qualquer sentido pôr em causa um processo que está apenas a começar, em que ninguém foi julgado e condenado com sentença passada em julgado, e que chega a completamente absurdo envolver o actual Presidente da República e o ex-Chefe de Estado. A opinião pública não pode ficar  refém de comentaristas que, sob o aluguer das suas bocas,  transformam as plataformas em que dão a cara para, fundamentalmente, contradizerem-se a si mesmos. Ontem, virtuosos adeptos do combate à corrupção; hoje, opositores das medidas empreendidas pela PGR, mesmo tendo como base os factos e investigações que levaram à constituição de arguidos e à aplicação de medidas restritivas das liberdades.