Opinião

Saber de fora o que é de dentro

A divulgação recente de um trabalho desenvolvido por mais de cem jornalistas de vários países sobre uma eventual fuga de capitais angolanos protagonizada por Isabel dos Santos, alimenta, como era de prever, a conversa pública angolana.

O anúncio do desfecho do trabalho daquele grupo de jornalistas não surpreendeu parte significativa dos angolanos, principalmente dos centros urbanos, porque revelações de descaminhos de dinheiros públicos tornaram-se-lhe banais, mesmo que envolvam, como é o caso, figuras de proa da nossa sociedade, mas não impede a divisão de opiniões, que suscitam discussões acaloradas, nem sempre isentas no expressar de juízos de valor e, por tal razão, amiúde parcas de raciocínio lógico toldado por sentimentos vários e contraditórios.
Isabel dos Santos, a principal protagonista da situação, não por ser filha do ex-Presidente da República, sequer por ter sido, em termos económicos, das pessoas mais poderosas em Angola, como qualquer outro angolano na plenitude dos direitos que lhe assiste numa democracia, goza da presunção de inocência, até se provarem, oficialmente, em última instância, os crimes de que pode vir a ser acusada por quem de direito, jamais pelo resultado do trabalho de mais de uma centena de jornalistas. Por isso, já começou a ser julgada pelo tribunal da opinião pública, muito por culpa dela, sublinhe-se, quando decidiu sair do país para seguir à distância, longe do centro de decisão interna, o desenrolar, e o desfecho, de investigações que sabia que ia ser alvo, tendo em conta a riqueza que jamais escondeu ter e as ligações ao poder vigente, entre nós, até há bem pouco tempo. Os que lhes são mais próximos hão-de argumentar que “o resguardo” escolhido pela empresária foi de prudência, pois “o seguro morreu de velho” e “vale mais prevenir do que remediar”, mas escondem a verdade indesmentível que lembra que “quem não deve, não teme”.
Os jornalistas angolanos, que “não foram ouvidos, nem achados” quanto a esta investigação realizada por mais de uma centena de elementos - congratulam-se, os próprios autores, com toda a propriedade - não escapam às críticas públicas, acusados de não serem capazes de fazer uma “reportagem daquela envergadura” e permitirem que o assunto fosse despoletado no estrangeiro, em vez de internamente como devia porque “a maka é nossa”.
Apesar de não ter procuração da classe, afirmo, sem pestanejar, que mesmo sem chegar à centena, nem nada que se pareça, é possível juntar um grupo de jornalistas angolanos capazes de realizar um trabalho daquela dimensão desde que disponha dos meios que o grupo de mais de cem confrades tem. Porventura, até, por razões óbvias, a aprofundar mais determinados aspectos, nem deixar de fora nomes e pormenores.
A ninguém mais do que aos verdadeiros jornalistas angolanos, norteados pelo sentido profissional, da verdade, logo sem interesses escusos, com a vantagem de conhecerem melhor a Pátria que lhes nasceu, custou tanto que fossem outros, uma vez mais, a falar dos interesses do povo a que pertencem e a espelhá-los pelo mundo. Ainda por cima, por sentirem que agora podem expressar-se livremente, apesar de haver saudosos da” lei da rolha”.
O jornalismo angolano, apesar das fragilidades que ainda tem, conseguiu manter-se vivo, mesmo quando lhe vaticinaram “morte anunciada” com a debanda da quase totalidade dos que o faziam verificada à entrada das portas da Independência Nacional. A partir daí reinventou-se e continua a crescer.
O tempo passa a correr. Quem sabe se, mais cedo do que se pensa, um dia destes, um grupo de jornalistas angolanos galga fronteiras e vai por aí fora investigar as falcatruas registadas noutras paragens à espera de quem as destape e divulgue. Quem sabe?