Reportagem

“A menopausa é um despertador”

Aos 87 anos, o ginecologista Manuel Neves e Castro continua a fazer clínica. Foi um dos primeiros bolseiros da Gulbenkian e foi para os Estados Unidos estudar as hormonas. Trabalhou para o inventor da pílula e viu nascer a fertilização “in vitro”. Quando chegou a Portugal, trazia terapias inovadoras. Fundou a Sociedade Portuguesa de Menopausa e foi por proposta sua que se instituiu o Dia Mundial da Menopausa, assinalado terça-feira. O português defende a medicina preventiva e as terapias hormonais que, diz, fazem milagres.

O Dia Mundial da Menopausa foi criado por proposta sua. Como é que isso aconteceu?

Fui dirigente da Sociedade Internacional de Menopausa e à certa altura percebi que a sua única actividade era realizar um congresso por ano e não achei aquilo bem. Por outro lado, verifiquei que entre as sociedades dos vários países, havia umas mais activas que outras. Primeiro, propus a criação de um conselho das sociedades de menopausa afiliadas à Sociedade Internacional, o que exigia que cada direcção tivesse um programa de acção e o executasse nos seus países. Depois propus a criação de um dia em que todas elas fossem obrigadas a falar de menopausa, para os médicos e para o público. A proposta foi aceite. Depois, a Organização Mundial de Saúde reconheceu e hoje o dia celebra-se em todo o mundo.

Considerava que era necessário falar de menopausa?

Sim, porque havia pouca informação e, principalmente, desinformação.

Em que sentido?

No sentido em que, durante muito tempo, a terapia hormonal significava na cabeça das pessoas risco de cancro e era preciso desmistificar isso. Segundo, porque os médicos não ensinavam às pessoas as regras fundamentais da medicina da qualidade de vida: exercício físico, alimentação correcta e controlo do stress. Porque é que o cancro está a aumentar? Todos temos células malignas em circulação, mas só alguns têm cancro. Porquê? Porque o nosso organismo tem um mecanismo de defesa – a imunidade – que cria anticorpos que matam as células estranhas ao organismo. Quando a imunidade baixa, esses anticorpos diminuem e nessa altura as células estranhas têm o poder de se desenvolver. O que baixa a imunidade? Uma vida sedentária, o stress e uma má alimentação. Oitenta por cento das causas de morte devem-se a estes erros.

Daí a importância da
prevenção.

A população está a envelhecer e é urgente tomar todas as medidas para evitar a doença e os custos sociais e económicos que implica. As doenças cardíacas, a osteoporose e o cancro podem ser prevenidos através das três regras que referi. As fracturas devidas à osteoporose, por exemplo, podem ser prevenidas com uma alimentação rica em cálcio e com suplementos de vitamina D, de que a maior parte das pessoas são carentes e não sabem. E se não têm vitamina D, os ossos começam a ficar fracos e a partir-se. Por isso, falar da menopausa também é tão importante.
Costumo dizer que é quase como um relógio despertador, chega aos 50 e é como as passagens de nível: pare, escute e olhe. O que é que a mulher tem que fazer? Prevenir, comendo bem, fazendo exercício físico e controlando a ansiedade, e vigiar, fazer mamografia, ver a densidade óssea, ver a pressão arterial, ver o peso. Há um determinado número de coisas que são factores de risco e surgem nessa altura por causa do bilhete de identidade e de uma modificação do ambiente hormonal em que a mulher vive. Agora, pergunta-me: mas todas as mulheres têm que fazer

tratamentos hormonais?

Pergunto...
Nem pensar! Primeiro, a regra de ouro em relação aos tratamentos hormonais é que não são iniciados depois dos 60 anos, porque nessa altura já há factores de risco que podem ser agravados pela administração hormonal. Segundo, só deve ser administrada para alívio dos sintomas e melhoria da qualidade de vida. Que tipo de sintomas? Irritabilidade, depressão, suores nocturnos, afrontamentos, diminuição da líbido, secura vaginal, etc. Quando temos esses sintomas, fazemos o tratamento e ao fazê-lo sabemos que iremos prevenir doenças cardíacas, doenças ósseas, Alzheimer, etc. Mas se a mulher não tem sintomas, não faz tratamento hormonal e faz a prevenção dessas doenças por outros métodos, que não os hormonais.

E quais são?

Os que referi acima. É uma questão de educação. A menopausa é um sinal de alarme para as mulheres saberem que chegou o momento de tomar cuidado com o futuro. O futuro vai depender daquilo que fizerem quando entram na menopausa. Não é aos 70 anos, quando está osteoporótica, que a pessoa vai reverter a osteoporose; é antes, entre os 40 e tal e os 50. Isso é importante por várias razões, para termos uma população idosa saudável e com qualidade de vida, que é um direito que todas as pessoas têm. Mas também é uma obrigação para com a sociedade em que estão inseridas, por forma a não a sobrecarregar com custos de saúde de doenças que podem ser prevenidas.

As terapêuticas hormonais de substituição e a utilização de hormonas não são consensuais, mesmo entre os médicos. Porquê?

Não diga de substituição, esse é um erro induzido por razões comerciais, porque os laboratórios que fabricavam as hormonas usavam a expressão hormonal replacement traduzido por hormonas de substituição, o que pressupunha que todas as mulheres tinham que fazer hormonas. Não é assim. Eu propus a nível internacional, e hoje isso é aceite, falar apenas em terapêuticas hormonais da menopausa, o que quer dizer que são terapêuticas usadas quando necessário.

Mas porque é que uns defendem o uso de hormonas e outros não?

A polémica é entre os médicos que sabem do que estão a falar e os que não sabem. Isto não pode ser uma questão do género se é do Sporting ou do Benfica. Não é uma questão de opção, é uma questão de conhecimento, estudo, prática e investigação.
Eu, durante muitos anos, fui médico do quadro do IPO e tinha uma colega, distinta ginecologista, que, quando chegou a altura, aconselhei a fazer tratamento. Ela respondeu que nem pensar. Como era previsto, primeiro foi uma fractura do pulso, depois uma fractura do colo do fémur e depois começou a envelhecer por aí abaixo, com todas as consequências de nunca ter feito qualquer tratamento preventivo, fosse hormonal ou não. De maneira que é um disparate completo, que resulta de desinformação e desconhecimento.
Trata-se simplesmente de medir prós e contras. Na prática, o que temos que fazer é determinar quais são os factores de risco da paciente que temos à frente. Tem factores de risco para cancro da mama? Não damos. Não tem? Damos, para prevenir doenças cardíacas e ósseas. O balanço entre os prós e os contras pende muito para os prós, excepto se houver contra-indicações.

Defende uma abordagem holística da menopausa e dos problemas que lhe estão associados. Nesta abordagem, estão incluídas as chamadas terapias alternativas? Em mulheres que não possam fazer terapêutica hormonal, que tipo de resposta pode ser dada?

Holístico é um termo que uso na minha clínica, porque é fundamental tratar a pessoa que tem a doença, não a doença, e a pessoa está inserida numa sociedade, numa família e no seu próprio corpo. Quando adoptamos uma perspectiva holística, consideramos que todos estes factores afectam a mulher e podem ser positivos ou negativos. Por exemplo, uma mulher chega ao meu consultório cheia de afrontamentos, eu quero saber como é que o marido reage a isso e como é que no emprego reage às crises de irritabilidade dela, como é que os filhos, a família, as amigas, lidam com o problema. Não me interessa o medicamento que vou dar, interessa-me a medicina da qualidade de vida e esta é holística e tem que ter em consideração todos esses aspectos. Eu não trato menopausas, trato mulheres. Um célebre cirurgião inglês William Hosler dizia que tão importante é conhecer a doença como a mulher que a tem. O que acontece muitas vezes é que muitos médicos não têm tempo para conhecer a pessoa e despacham. Eu não consigo fazer uma consulta em dez minutos.

Ainda não me respondeu sobre as terapias alternativas para a menopausa.

Pois. Por exemplo, afrontamentos e calores estão muito relacionados com os níveis hormonais, mas, como diz e muito bem, há contra-indicações na terapia hormonal e há tratamentos, desde a acupunctura, o exercício físico, a psicoterapia e agentes psicotrópicos, os chamados anti-depressivos e ansiolíticos, que são eficazes.

A menopausa é uma fase da vida que algumas mulheres encaram como uma libertação e outras encaram como o fim. Onde está o meio termo?

As que acham que é uma libertação, porque se livram da menstruação e já podem ter uma vida sexual sem receio de engravidar, têm razão. As que pensam o contrário, porque sentem que perderam a juventude, que a menstruação era um símbolo e sentem-se assexuadas, sentem que deixaram de interessar ao marido e aos homens, deixam de sentir isso quando começam a tratar a sintomatologia da menopausa, física e psicológica. Os tratamentos fazem milagres.

Uma coisa de que muitas vezes também não se fala é de menstruação, que durante anos é um suplício para muitas mulheres - irritabilidade, dores, depressão, ansiedade - e parece que não há grande resposta para isso.

Há, então não há? Por exemplo, a tensão pré-menstrual, que é uma coisa que aflige e seriamente várias mulheres, tem tratamento, nas calmas: uma suplementação de progesterona com um ansiolítico pré-menstrual e adeus tensão pré-menstrual. As dores menstruais têm solução, porque a maioria das mulheres que as têm, têm-nas por causa de uma coisa chamada endometriose, que se trata. A pílula como tratamento desta sintomatologia também é eficaz.
*Jornalista do Diário
de Notícias