Reportagem

A origem da rivalidade de décadas entre os EUA e Irão

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdad, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre os Estados Unidos e o Irão que beira o risco de um conflito armado directo entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do Presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irão, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.
Mas, se hoje EUA e Irão estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.
“O nosso diálogo tem sido inestimável, a nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então Presidente norte-americano Jimmy Carter referindo-se ao Xá da Pérsia, Mohamed Reza Pahlevi, durante o brinde num jantar em Teerão, capital iraniana.
Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado ao Irão, o Presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.
Essa visão não poderia ser mais diferente da actual. Vários representantes do governo Trump têm acusado o Irão de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Médio Oriente.
Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?
*Jornalista da BBC News Mundo

Golpe de estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de estado de 1953 no Irão, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.
O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do Xá Mohamed Reza Pahlevi.
Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.
O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento anti-americano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.
“Os historiadores têm demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o Xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.
“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento anti-americano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irão.
“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Médio Oriente”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.
“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”
O interesse do Reino Unido no Irão era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.
O primeiro governante eleito democraticamente no Irão, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petrolífera do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.
Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no Golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.
A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerão e expulsar do país o corpo diplomático do Reino Unido.
Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em actividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos da América.
A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o Presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.
O controlo do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um acto relacionado à Guerra Fria, com o objectivo de evitar a todo o custo que o Irão se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.
“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.
“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.
Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irão, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do Xá Mohamed Reza Pahlevi.
Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irão que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Médio Oriente.
É o que diz no livro “O Golpe”, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova Iorque (CUNY).

O Xá amigo

Após a ascensão ao poder do Xá da Pérsia, seguiram-se 26 anos de franca amizade entre os Estados Unidos e o Irão.
A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o Governo americano não tinha grande influência.
“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irão, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do Xá, que actuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante o período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do Governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.
Mas eram muitas as vozes dentro do Irão que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.
Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.
O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.
Antes da revolução, as relações entre Teerão e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irão nesse período, durante o governo do Xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon e Carter.
Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do Xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.
O monarca persa fugiu do Irão em 16 de Janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.
Manifestantes enfrentavam o exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do Xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irão em 1964 pelas suas críticas ao governo, voltou do exílio.
Durante os 15 anos em que esteve fora do Irão, morando no Iraque e na França, o Ayatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o Xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.
“Khomeini converteu-se progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento anti-americano no discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irão”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.
Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.
“O Ayatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irão em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.
Após um referendo realizado em 1 de Abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irão. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou o seu ápice com a tomada da Embaixada americana em Teerão.
Em Novembro de 1979, um grupo de manifestantes manteve como reféns diplomatas e outros cidadãos americanos que estavam no edifício. O cerco à Embaixada durou 444 dias.
Seis americanos conseguiram fugir da Embaixada fazendo-se passar por uma equipa de cineastas, como retrata o filme americano Argo, protagonizado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Óscar para melhor filme em 2013.
Os últimos 52 reféns foram libertados em Janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como Presidente dos EUA.
Enquanto ainda durava o sequestro, em Abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irão. As relações permanecem congeladas até hoje.
Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Médio Oriente.

A estratégia do embargo

As sanções económicas impostas pelos EUA ao Irão, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do Presidente Jimmy Carter.
Carter proibiu as importações de petróleo do Irão, congelou cerca de US$ 12 mil milhões em activos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.
As sanções foram suspensas quando o Irão libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.
No governo de Richard Nixon, o Irão foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA opuseram-se a que o Irão recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.
Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irão, que durou de 1980 a 1988.
Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.
“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.
As relações entre Irão e EUA não melhoraram na Presidência de George W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irão eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.
“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e os seus activos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do Governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.
Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petrolífera iraniana, vetou investimentos de capital no Irão e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerão estava a fabricar armas de destruição em massa.
Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.
Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irão e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.
O Irão comprometeu-se a parar o programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em Maio de 2018, o Presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.
Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irão e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Médio Oriente.
O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retracção de 6% em 2019.
Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.
“Muitas famílias no Irão têm algum parente a viver nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.
O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.
“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irão) são geopolíticas, em parte potenciadas por actores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irão no Oriente Médio”, diz.