Reportagem

Agora, a morte do gado vem com a água

O boi suportou todos os solavancos da seca. Foi uma caminhada que durou mais de um ano, tempo durante o qual fintou a morte que já levara muitos outros bovinos em Endudamo, comuna de Ombala-yo-Mungo.

Para consolar o abdómen, as folhas de algumas árvores substituíram o capim, há muito em falta. E para acalmar a sede, nada melhor do que o recurso à água barrenta de um poço situado a sete quilómetros, ainda assim disputada com os habitantes.

Quis o destino que naquela tarde ensolarada de um dia de Novembro a travessia do animal no “grande deserto” fosse interrompida por uma pequena lagoa, quando se aproximava do fim do calvário (no horizonte as nuvens já davam sinais de entrada para a época chuvosa e consequente melhoria das condições de pasto).

A pequena lagoa formou-se depois que uma chuva instantânea, na localidade, trouxe água, cuja escassez era notória por vários meses e serviu de alívio para muitos. Ironicamente, o “precioso líquido” constituiu também o azar para o criador de gado Portásio Limoneni.
O seu boi, bastante debilitado, com as costelas marcadas na pele, encheu o abdómen de água e caiu na lagoa para não mais se levantar. Era assim mais um revés para o criador, que somou no local a quinta perda, no espaço de uma semana.
Limoneni foi um dos muitos criadores da localidade que não conseguem levar o gado às zonas de transumância. Sabe que vencer a batalha contra a seca passa por muita atitude e paciência, sobretudo. Tinha perfeita consciência de que a abundância de água sem pasto causa outros problemas.
“Nesta altura em que os bois se encontram extremamente magros e fracos, deve ser-lhes seguidos os passos, para que, quando um cair, possa ser ajudado a pôr-se de pé. Principalmente quando bebe muita água, porque sem essa ajuda o animal fica aí deitado até morrer”, contou o criador tradicional, na língua Oshikwanyama.
Foi o que aconteceu com o bovino do texto. O animal ingeriu água até à exaustão e caiu estendido na lagoa. Ninguém apareceu no momento para dar a ajuda necessária e acabou por sucumbir.
“Quando seguimos bem os bois e evitamos que bebam muita água no estado em que se encontram podem sobreviver e chegar à época das chuvas em que o capim abunda”, explicou Portásio Limoneni.
O criador, que revela muita experiência na área, perdeu até agora 32 cabeças, número que corresponde a mais de metade da manada, por conta da seca, desde o início do ano corrente. Ao Jornal de Angola revela que em toda a localidade de Endudamo os currais estão praticamente vazios. Alguns proprietários ficaram com apenas seis bois ou menos ainda, tendo as perdas recaído, principalmente, sobre os animais usados para tracção.
O nosso interlocutor receia que as perdas se agravem nos próximos dias, devido à fase de transição da seca para a época chuvosa, etapa na qual muitos animais não se adaptam às novas condições de pasto, após longo período sem capim e com água em péssimas condições.
Na comuna de Ombala-yo-Mungo, município de Ombadja, situada a 70 quilómetros a Oeste da cidade de Ondjiva, o figurino é de total aridez, sem água nem pasto. A chuva que caiu nos últimos dias em algumas zonas da província, de for-ma ainda tímida, pouco ou nada ajudou.

Lavouras comprometidas
A presente campanha agrícola, em grande parte das zonas rurais da província do Cunene, pode estar comprometida por causa da debilidade física dos bovinos de tracção, em consequência da seca que assola a região.
Entre os camponeses paira um clima de incertezas, já que não vislumbram soluções para lavrar e lançar as sementes à terra, com o gado bastante magro e enfraquecido, que necessita, de pelo menos, dois meses para recuperar e ganhar forças para concretizar a tracção animal.
Entre os que trabalham a terra existe o receio generalizado de que a recuperação dos animais ocorra tardiamente, em relação ao período em que se deve lançar as sementes à terra, tendo em conta que, na região do Cunene, chove apenas até princípio de Março.
José Tileinge, camponês e criador de gado da localidade de Oipembe, a dez quilómetros de Ondjiva, sugere que o governo da província apoie os camponeses com tractores agrícolas nas lavouras. Sustenta a opinião no facto de o escasso número de animais disponíveis e o caótico estado de saúde poderem inviabilizar a produção agrícola este ano.
“Infelizmente, temos a certeza de que nesta vasta zona ninguém vai lavrar neste ano agrícola. Uns porque perderam os bois, muitos têm o gado na transumância e outros ainda estão com os animais de tracção extremamente debilitados, ao ponto de nem servirem para abate", lamentou.

Água do furo é imprópria

Quando os habitantes de Cuamato, a sede comunal de Ombala-yo-Mungo, testemunharam a reinauguração, no mês passado, do furo bem equipado com torneiras, uma lavandaria e bebedouro para o gado, pensaram logo que o problema de água estava resolvido. Mas foi pura ilusão. O so-frimento vai continuar. Afinal, o líquido não serve para consumo humano, nem para lavagem de roupa ou para banhos. Apenas o gado tenta consumi-lo. Mas muitos animais acabam por desistir.
A água daquele furo, recuperado no quadro do programa de emergência contra os efeitos da seca, apresenta-se totalmente salobra, ao ponto de se confundir com água do mar, o que acaba por não ser uma mais valia para os habitantes e para o gado.
Segundo o administrador comunal de Ombala-yo-Mungo, Venâncio Miguel Dias, o furo produz bastante água, capaz de responder às necessidades da população e do gado da sede. Porém, devido à má qualidade não é recomendável para consumo humano. Por esse motivo, mantém-se a dependência do abastecimento por via de camiões cisternas, provenientes da cidade de Ondjiva ou da sede do município de Ombadja.
Venâncio Dias referiu que, na comuna, foram recuperados cinco furos, embora boa parte com agua salobra.
“São esses furos que estão a abastecer de água a população, num quadro de emergência. O furo recuperado aqui na sede, tem muita água, mas bastante salobra. O da localidade de Omahama também é salobra, o da povoação de Onepolo idem. Mas alguns estão a perder aquela quantidade de sal e talvez, com o tempo, se torne consumível”, disse.
O responsável salientou que é característica do subsolo da comuna apresentar água salobra, o que requer sempre saber escolher os lugares certos.
“Tratando-se de um programa de emergência de recuperação de furos, muitas empresas envolvidas no processo não acautelaram os testes à qualidade da água, antes de avançar com as obras. Simplesmente concluíram os trabalhos e entregaram ao Governo”.
Sublinhou que grande par-te da população da comuna, estimada em 59.331 habitantes, sobrevive de cacimbas feitas pelos próprios. “E é uma água partilhada entre pessoas, cabritos e bois”, disse o administrador.

Fome
Em Ombala-yo-Mungo, comuna visitada pelo Presidente João Lourenço, a fome aperta forte, como conta o administrador local.
“A nossa comuna vive a realidade daquilo que é seca e fome. A situação é muito dolorosa”, lamentou, acrescentando que a circunscrição recebeu até aqui, de ajudas, 55 toneladas, entre produtos alimentares e não alimentares, distribuídos prioritariamente a pessoas idosas, deficientes e doentes.
Na localidade de Oshaiwanda, a 20 quilómetros da sede, também visitada pelo Presidente da República, por ser um dos lugares com situação mais crítica, foram colocados três tanques com capacidade de dez mil litros de água cada. Esses reservatórios têm sido abastecidos periodicamente, por via de camiões cisterna.