Artigo

Reportagem

Aumentam casos de gravidez precoce

Mais de seis milhões de adolescentes no mundo engravidam  de forma precoce  e indesejada. Angola é um dos países onde  houve um aumento crescente, em particular dos adolescentes, entre os 11 e os 14 anos de idade.

 No caso de Luanda, crianças jovens  dos dez aos 14 anos de idade procuram cada vez mais os serviços de saúde materna. A Maternidade Lucrécia Paim realiza de 50 a 70 partos por dia, dos quais dez são de adolescentes. Em 50 partos normais, 20 são feitos a jovens.
 No primeiro semestre do ano, registaram-se na Maternidade Lucrécia Paim 400 consultas externas pré-natais e natais em adolescentes dos 13 aos 15 anos de idade. Para os especialistas do sector, estes números  constituem um problema de saúde pública, porque o número tende a aumentar.
Pois,  explicaram, a primeira adolescência é uma fase conturbada que marca a transição entre a infância e a idade adulta. Caracteriza-se por alterações a diversos níveis, físico, mental e social, e representa para o indivíduo um processo de distanciamento de formas de comportamento típicos da infância e de aquisição de características e competências que o capacitem a assumir os deveres e papéis sociais de adulto.
A puberdade vai dos dez aos 19 anos de idade, fase  de dúvidas e curiosidade, na qual os jovens  praticam muitos actos sem medirem as consequências.
 
Causas
A reportagem do Jornal de Angola falou com a directora dos serviços ambulatórios da Maternidade Lucrécia Paim, Eurídice Chongolola, que disse que as principais causas do crescente número de gravidez precoce se encontram nos factores socioeconómicos, no difícil acesso à informação sobre a puberdade e sexualidade por parte dos pais, nas poucas informações nas escolas e  instituições responsáveis. Há também pouca literatura e a ilusão de que ter um filho cedo se fica com mais responsabilidades.
 Outro factor é o aparecimento precoce do ciclo menstrual, causado pela má alimentação,  pois a nível da agricultura muitos alimentos desenvolvem-se rapidamente com produtos hormonais. Esses produtos influenciam precocemente a sexualidade dos jovens.
O ciclo menstrual aparecia a partir dos 12 ou 13 anos de idade, actualmente aparece aos oito anos. “Uma rapariga a que o ciclo menstrual aparece entre os dez e os 11 anos de idade, em primeiro lugar vai deixar de crescer, porque a hormona de crescimento vai ser substituída pela hormona sexual, logo, aumenta o  interesse pelo sexo oposto”, sublinhou Eurídice Chongolola. A médica disse que o factor  hereditariedade também é uma das causas, porque existe uma grande influência na aparição da primeira gravidez na progenitora da adolescente. Se a mãe da menor teve o seu primeiro filho na adolescência,  também há probabilidades de a filha ter o primeiro bebé na mesma idade.
 
Segunda gestação
Durante as consultas externas na Maternidade Lucrécia Paim constatou-se que a maior parte das jovens entre os 17 e 19 anos de idade já têm a segunda gestação (mãe pela segunda vez), porque as mesmas já realizaram uma cesariana aos 14 ou 15 anos.
Eurídice Chongolola disse que no primeiro semestre de 2013, um total 62 por cento dos partos por cesariana na Maternidade Lucrécia Paim foram feitos a adolescentes, e o número tem crescido. No primeiro semestre de 2017, um total de 50 por cento dos partos por cesariana foram feitas a jovens.
A médica explicou que a maior parte das cesarianas são realizadas devido à pouca estrutura corporal das jovens. As que têm bom porte físico conseguem ter um parto normal.
“Temos de agir com a máxima urgência porque quando as mesmas entram no bloco operatório têm tido sérios problemas de saúde”, reconheceu Eurídice Chongolola com  tristeza.

Consequências
Outra  preocupação dos responsáveis da Maternidade Lucrécia Paim  é o número  de abortos realizados por raparigas muito jovens. Eurídice Chongolola disse que as adolescentes que não têm conhecimento da prevenção, estão dentro do indicador dos abortos. Elas recorrem a lugares ilícitos devido ao medo, isolamento familiar e rejeição do parceiro.
E como consequência, um grande número sofre de histerotomia, retirada do útero por práticas de abortos ilegais e sem as condições necessárias para o acto.
Por semana, a Maternidade Lucrécia Paim realiza de dois a três casos de histerotomia. Para a especialista é um caso preocupante porque atrapalha a vida das adolescentes. Por ser a casa-mãe das mulheres em idade fértil, a maior parte das adolescentes são provenientes de Viana, Kilamba Kiaxi, Cazenga e Samba.
A maior parte das gestantes que entram em trabalho pós-parto são adolescentes com eclâmpsia e pré–eclâmpsia, que leva à morte.
Eurídice Chongolola explicou que outra sequela são as  encefalopatias, sem possibilidade de recuperação, com convulsões a ponto da paciente perder a consciência, entrado mesmo em estado de coma.

   Acesso à informação

Para que os jovens tenham mais acesso  à informação é necessário uma maior abertura nas escolas, igrejas, famílias e instituições responsáveis para os métodos de planeamento familiar. 
Eurídice Chongolola considera a juventude actual desorientada, porque muitas   raparigas grávidas não têm em mente o tempo de gestação e dificilmente sabem quem é o progenitor da criança, porque se relacionam com mais de um parceiro. Muitos adultos aproveitam-se da situação correndo o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis.
“A Maternidade Lucrécia Paim atendeu 12 raparigas vítimas de violação por um expatriado, e a mais nova tem apenas sete anos.
Para colmatar este mal, Eurídice Chongolola disse que deve haver uma concertação entre os serviços de saúde e as instituições  que acolhem as adolescentes. "Os jovens devem saber quais são os principais riscos de uma gravidez precoce.”

Vida perdida
 Eurídice Chongolola explicou que uma gravidez antes do tempo não traz apenas conflitos familiares como também é uma vida perdida.  "Não sabemos que desfecho pode  ter, por isso, aconselho as jovens mulheres a optarem pelos métodos de planeamento familiar logo que apreça o período", disse a directora dos serviços ambulatórios da Maternidade Lucrécia Paim, Eurídice Chongolola, que informou estarem em curso estudos sobre os métodos contraceptivos adequados que vão de encontro ao  sistema  hormonal das adolescentes.