Reportagem

Centro proporciona uma “vivência feliz” às crianças de rua

Apoiado pelo Grupo da Mulher Africana (GMA), uma associação angolana sem fins lucrativos, o Centro de Acolhimento de Urgência “Vivência Feliz” presta assistência psicoterapêutica e medicamentosa às crianças vítimas de violência no seio familiar. Num sistema aberto, elas são acompanhadas por uma equipa de educadores que já viveu na rua e em centros de acolhimento.

A directora do centro, Estelle Dogbe, explicou que esses educadores ajudam a identificar os problemas que afectam as crianças. “Proporcionamos uma vivência feliz às crianças por via de um sistema aberto, em que elas não se sentem aprisionadas e, livremente, podem contar com o nosso apoio para ultrapassar os traumas”, disse.
A maioria das crianças e adolescentes que chega ao centro, referiu, foi abandonada ou fugiu de casa por várias razões. “Recebemos crianças com vários problemas de fórum psíquico, vítimas de abusos sexuais, acusadas de feitiçaria. Na sua maioria, são retraídas e sem vontade de exprimir o que vivenciaram no seio familiar e na rua”, contou.
Diferente de outros centros, frisou, o Centro de Acolhimento “Vivência Feliz” faz um acompanhamento rigoroso às crianças vítimas de violência na família e nas ruas. “Aqui, elas têm apoio psicológico e assistência médica. Os psicólogos ajudam as crianças, sem obrigá-las a permanecer no centro, que promove uma orientação educacional com regras e liberdades de escolha”, assegurou Estelle Dogbe, defendendo a criação de centros de acolhimento do género. “Criámos este centro com serviços de apoio psicológico e assistência médica, para responder a uma falta de serviço deste tipo para as crianças que vivem nas ruas”, disse.
Para motivar as crianças, o centro organiza actividades culturais e desportivas que ajudam na recuperação e a revelarem as suas verdadeiras histórias de vida e os motivos que os levou a viverem na rua. “Essas actividades são desenvolvidas pelos nossos educadores e por voluntários”, disse.
Muitas crianças chegam ao Centro “Vivência Feliz” com traumas que exigem um acompanhamento psicológico. “A sua situação faz com que o acompanhamento psicológico seja essencial. Criámos um espaço onde cada criança fala livremente, sem julgamentos, e ao ritmo daquilo que lhe parece inexprimível”, disse.
Estelle Dogbe frisou que as terapias de grupo servem de estímulo para as libertar dos traumas vivenciados na rua e no seio familiar.
Recolha de informações
Estelle Dogbe garante que o Centro de Acolhimento de Urgência “Vivência Feliz” oferece um quadro mais seguro e mais propício às crianças, com o fim único de manter uma relação social saudável, através da recolha de informações sobre a sua história de vida.
“Para conhecermos melhor as crianças, desenvolvemos actividades onde obtemos informações sobre as mesmas, através de uma relação de confiança”, explicou, sublinhando que o acompanhamento consiste também em localizar as famílias das crianças, depois de terem recuperado dos traumas, e em ajudá-las a obter o Bilhete de Identidade.
“Ensinamos as crianças a cumprirem regras saudáveis para o desenvolvimento do corpo humano, como as horas de sono e a alimentação, que na rua, muito frequentemente, não cumprem”, realçou.

Educadores sociais
Sete educadores de infância dedicam-se às sessões de terapia de grupo para ajudar a desenvolver as habilidades psicomotoras das crianças. Domingos Hossi, um dos educadores, viveu durante muitos anos na rua e em instituições de acolhimento. “Para ser o que sou hoje, recebi instrução no lar de acolhimento onde vivi até à fase adulta”, conta.
Hoje licenciado em Informática, pela Universidade Católica de Angola, Domingos Hossi viveu traumas na infância que o levaram a assumir a profissão de terapeuta educacional. Possui também formação em Coaching, uma profissão que ajuda a avaliar o indivíduo, a sua personalidade e habilidades.
“As ferramentas de aprendizagem de Coaching mudam a nossa visão sobre a vida e ajudam outras a descobrirem o seu potencial”, referiu, acrescentando que a formação em Coaching garantiu-lhe mais valências para realizar terapias de grupo com as crianças do centro.
“É uma profissão que nos permite conhecer a personalidade das crianças e avaliar as acções mais vantajosas para elas”, reconhece Domingos Hossi, que tem em carteira um projecto intitulado “Orientação Vocacional”, que visa descobrir talentos.
Além dos educadores, as crianças recebem apoio emocional de uma psicóloga, que, três vezes por semana, realiza terapias de grupo.

Artes cénicas
O educador de infância Caetano Forriel, estudante do segundo ano do curso de Teatro, no Instituto Superior de Artes do Kilamba, ensina as crianças a arte de representar. “A actividade de representar estimula qualquer indivíduo a sonhar e a libertar-se sem receios”, disse.
Adilson Batimbula, outro educador, ajuda as crianças a reconstruírem as suas histórias de vida. “Tenho paciência em ouvir cada um deles e ajudá-los a buscar outro rumo de vida. Faço com amor e, através de um diálogo aberto, tenho ganho bons amigos”, acentuou.
À reportagem do Jornal de Angola, Adilson Batimbula revela a história de duas crianças. Uma sofreu abusos sexuais e outra, aos sete anos, foi maltratada e acusada de feitiçaria pela própria família. Durante as terapias de grupo, conta, as duas crianças tinham uma postura rebelde e impaciente. “São crianças que, por força das inúmeras situações, criaram auto-defesas. Mas hoje, em pouco tempo, mostram-se amigos dos educadores; pedem conselhos quando confrontados com algum desafio”, reconheceu.
Amândio Chilala (nome fictício) é um exemplo disso mesmo. Diariamente, ia ao Centro de Acolhimento de Urgência “Vivência Feliz” em busca de refeições. O seu caso despertou a atenção do educador Milton Brandão. Aos 12 anos, já foi vítima de violência doméstica. Por isso, se nega a voltar para o seio familiar e, sempre na defensiva, recusava-se a participar nas actividades do centro. “Chilala é desconfiado e rebelde”, conta o educador.
Após várias terapias de grupo, Amândio Chilala já se mostra simpático durante as actividades recreativas. Milton Brandão, técnico médio de Ciências Religiosas, usou os ensinamentos bíblicos para ajudar Chilala a interagir com os colegas. “Os primeiros dias foram difíceis. Era visível o medo e a desconfiança. Para ele, interessava apenas a comida e a pouca interacção com os colegas”, lembra.

Acolhimento de emergência
A directora do Centro de Acolhimento de Urgência “Vivência Feliz” diz que o Executivo deve criar instituições que respondam às necessidades específicas das crianças que vivem na rua.
“Em Luanda, não existem locais de acolhimento que consigam dar resposta a todas as necessidades específicas das crianças de rua”, disse, acrescentando que o Centro de Acolhimento de Urgência “Vivência Feliz” aposta no apoio psicológico e assistência médica às crianças de rua, para responder à falta de serviços do género noutros centros.
O Centro de Acolhimento de Urgência “Vivência Feliz” está aberto 24 horas por dia e tem um dormitório com capacidade para 30 camas. Actualmente, alberga 20 crianças. A instituição dispõe ainda de um refeitório com capacidade para 50 pessoas e uma sala com 50 cacifos para guardar a roupa.
As crianças e adolescentes dispõem igualmente de uma sala de actividades com material educativo, artístico, livros e televisão, onde passam os tempos livres. O centro possui um posto médico com cama de observação para as consultas e farmácia para atender as enfermidades que possam surgir no local.
O médico do centro, Fortuna da Costa, lida com crianças de rua desde 1992, quando integrou o projecto “Samu Social Internacional”, do Padre Horácio, e Pequena Semente, localizado no município de Cacuaco. As doenças mais frequentes são malária e infecções na pele.

Crianças pobres
em áreas urbanas
O Fundo das Nações Unidas Para a Infância (Unicef), no seu relatório de 2012 sobre a situação mundial da infância, com o tema “Crianças num Mundo Urbano”, refere que mais da metade do crescimento da população urbana no mundo se deve ao nascimento de crianças em cidades.
Aquela Agência das Nações Unidas sublinha que a infra-estrutura e os serviços disponíveis, porém, não crescem ao mesmo ritmo, fazendo com que muitas crianças não tenham acesso aos serviços essenciais, como saneamento básico.
O relatório do Unicef aponta que uma proporção significativa do crescimento da população urbana ocorre nas áreas mais precárias e mais carentes de planeamento. Esses factores associam-se em colocar os serviços essenciais necessários para garantir a saúde e o bem-estar das populações fora do alcance das crianças e famílias que vivem em áreas urbanas pobres.
A organização aponta a violência ou o abuso em casa ou na vizinhança e conflitos ou negligência como algumas das razões que levam as crianças a viver e trabalhar nas ruas. O relatório descreve ainda que muitas crianças preferem viver na rua em condições de pobreza e marginalização como alternativa possível para fugir dessa situação.
No entanto, é muito grande o número de crianças às quais são negados os direitos a recursos essenciais, como electricidade, água limpa e cuidados de saúde - ainda que vivam próximo a esses serviços. Muitas delas são coagidas a trabalhar em actividades que envolvem riscos e exploração. E muitas enfrentam a ameaça constante de expulsão, ainda que vivam nas condições mais inadmissíveis - em habitações inseguras e em núcleos superlotados, seriamente vulneráveis a doenças e a catástrofes.
As dificuldades enfrentadas pelas crianças em comunidades pobres, frequentemente, são obscurecidas e, portanto, perpetuadas pelas estatísticas que servem de base para decisões sobre a alocação de recursos.
Para a organização, devem ser empreendidas acções urgentes para melhorar a compreensão da escala e da natureza da pobreza e da exclusão que afectam crianças em áreas urbanas.

Abusos sexuais

A directora do Centro de Acolhimento de Urgência, Estelle Dogbe, aponta os abusos sexuais em casa ou na vizinhança como algumas das razões que levam crianças a viverem e a trabalharem na rua.
“Embora os abusos, conflitos ou negligência possam acontecer em qualquer família, restam poucas opções para crianças que vivem em condições de pobreza e marginalizadas e, para elas, a rua parece ser a melhor alternativa possível para fugir dessa situação”, lamentou.
O centro procura, de forma gradual, recuperar a auto-estima da criança e a sua valorização enquanto indivíduo inserido na sociedade. “Os mecanismos de defesa que foram levantados pelas crianças, durante a sua vida na rua, não podem ser desconstruídos de forma instantânea ao entrar no centro, uma vez que desenvolveram desconfianças e defesas em relação aos adultos”, alerta.