Reportagem

Crónica de uma viagem ao isolamento

“A Ilyushin não voa na Cazomba. A Ilyushin sai do Lueno para Luando. A Antonov voa na Cazomba,” diz o comandante russo. A animada conversa inclui o desempenho do 1º de Agosto na Champions africana e o poker de Ronaldo feito em Vilnius, capital da antiga República Soviética da Lituânia, aquando do jogo a contar para as eliminatórias do próximo Campeonato Europeu de Futebol.

Cumpridos os protocolos e reabastecidas as aeronaves de fabrico russo estacionadas no Terminal Aéreo do Luena, o piloto da terra dos czars entra no imponente cargueiro. O Ilyushin regressou a Luanda. O Antonov cruza o céu em direcção ao Alto Zambeze. Seguem a bordo militares, pouquíssimos civis e mercadorias diversas. Durante os 45 minutos de voo paira forte tensão no ar. Literalmente! Só os militares aparentam serenidade. Quem consegue visualizar o exterior anuncia terra à vista. Aumenta a turbulência. "A situação está sob controlo da tripulação", diz um general, conhecido de outros tempos, a quem quase me agarro. Aterrámos tranquilamente na pista de terra batida. O largo sorriso substitui os sinais faciais de apreensão. Ninguém mais aplaude. "Os militares não batem palmas", comenta alguém.

Desembarcámos em Cazombo. A vila regista azáfama jamais vista. A começar pelo tráfego de aviões, que trazem praticamente tudo: água mineral, pão, artigos de higiene e objectos de de-coração. Nos dias anteriores, chegaram máquinas de diferentes portes e trabalhadores. No dia antes da visita presidencial ainda se fazem retoques aqui e acolá. É a primeira vez, desde 1978, que um Presidente da Re-pública se desloca à vila. En-quanto Chefe de Estado, Agostinho Neto visitou Ca-zombo duas vezes. Após regressar ao país, na sequência dos Acordos de Alvor, fez questão de ir ao Cazombo agradecer ao povo da região o apoio prestado ao MPLA na Luta de Libertação Nacional. Moxico constitui, aliás, um marco na guerra anti-colonial. E porque História é história, vale recordar que a UNITA nasceu precisamente em Muangai, na maior província de Angola.
No meio de tanta agitação, mal consigo accionar recordações, algumas delas estrategicamente apagadas do cérebro, se calhar para preservar o lado bom dos acontecimentos. Esta é a única explicação para não recordar, por exemplo, se é a terceira ou quarta vez que escalo Cazombo. Lembro-me que a última foi há exactos 27 anos. Parece que nada mudou. Cazombo piorou, apesar de o conflito armado ter terminado há 17 anos. Com o passar do tempo, a Sede Municipal do Alto Zambeze isolou-se do resto do país. Ainda assim, cresceu de forma desordenada. Em período recorde, a população aumentou de vinte para cerca de setenta mil habitantes.
Entretanto, um carro leva-nos do aeroporto ao Hotel Zambeze, que é descrito co-mo a melhor unidade hoteleira local. É ponto de acomodação temporária. Os onze quartos estão ocupados. Os demais estabelecimentos do género também não têm espaço.
Conseguir alojamento é o grande desafio do dia. Dizem, embora ninguém saiba precisar quem, que se vai montar “acampamento” numa escola, após o período de aulas, com vista a albergar jornalistas e demais visitantes. Poucos de nós imaginavam quão úteis seriam os colchões trazidos pelos colegas da TPA. Volvidas horas de espera no acolhedor Zambeze, o diligente José Rufino regressa com a boa nova: conseguiu dois quartos numa pensão. Os táxis estavam lá fora. Mas não há um carro parqueado. Os três kupapas aproximam-se. Antes de "esfranzir" a testa, as malas estavam acondicionadas. Agarro-me ao condutor. Um camião, em sentido contrário, deixa densa nuvem de poeira. Esta, ao contrário de tudo o resto, cresceu desmesuradamente.
Entramos na residencial Alegria a sacudir-nos. As condições possíveis não permitem falar em alegria. Pelo menos, há uma cama e casa de banho no quarto desprovido de respiradores. Faltam janelas no quarto. A esta altura do ano aquece. Não precisamos de procurar pelo interruptor. As lâmpadas conectam-se por um fio directamente encaixado no gerador. A água turva provém das cacimbas. Não serve para cuidar da higiene pessoal. O Alto Zambeze passa a ser cogitação de peso para tomar banho. São altamente providenciais a pequena ba-cia e a lanterna compradas no Luena, bem como as toalhas e artigos de higiene trazidos de casa. Da próxima vez, a bagagem deve incluir lençóis e, se possível, um recomendável colchão-ca-ma. Desdramatizo a possibilidade de dormir ao relento ou de não tomar banho. Não seria a primeira vez. De resto, jornalista que se preze tem que estar preparado para trabalhar em condições adversas.

Uma ínfima parte das dificuldades

A gritante falta de bens materiais contrasta com a abundância em termos de valores humanos. Sem mais nem porquê, um amigo do colega Rufino seguiu a “comitiva” de moto-táxis. Resgatou-me do lugar. O carro tem ar-condicionado. A casa também. À noite, há diferentes opções para o jantar. Mais tarde, chegam quatro hóspedes provenientes do município do Luau. O anfitrião arranja espaço para acomodar todos. Sintomaticamente, encontramos solidariedade em doses maiores em locais de gritantes carências. É esse o espírito de Ubuntu, o intraduzível valor africano que mistura calor humano com outras boas práticas, personificadas em Cazombo por seres humanos do tipo do bancário Paulo Brás. À noite, mulheres e homens trabalham na administração de Cazombo. Pintam, ajeitam, retocam aqui e acolá. Apetrecham algumas escolas desprovidas de carteiras há três meses.
Miúdos e adultos exultam com a iluminação pública. Por qualquer razão, desperto em plena madrugada. A partir do confortável quarto, oiço o barulho de máquinas de pequeno porte. Volto a adormecer. A jornada seguinte vai ser longa. No Leste de Angola, amanhece cedo. Às 5 da manhã há gente nas ruas. O pão, inexistente na maioria dos lares, é substituído por iguarias da terra. Ao caminhar pela vila, as saudações efusivas fazem esquecer o sofrimento dilacerante. No cenário condicionado pela falta de bens de primeira necessidade, recorrer aos serviços básicos de saúde e até de educação nas vizinhas RDC e Zâmbia são alternativas para quem pode. Finalmente, acontece a almejada visita presidencial. Os governantes locais apresentam a realidade sob o manto de dificuldades inimagináveis. Enquanto a população aguarda pela concretização das promessas a vida volta rapidamente ao normal.
De regresso ao Luena, a bordo do Beetscraft de 16 lugares, cada passageiro refugia-se nos próprios pensamentos. Ao sobrevoar o majestoso Zambeze, recuo 30 anos. A então jovem repórter tinha sido escalada para cobrir reportagens em Cazombo. Ainda não tinha vinte anos. Teria sido o meu baptismo de fogo, típico dos duros anos de guerra. O Tico Costa, de feliz memória, ofereceu-se para me substituir. “A Luísa é muito miúda para ir ao Cazombo”, disse. O Policarpo e o Ezequiel, colegas da TPA, morreram num acidente de helicóptero. O Tico Costa adormeceu, perdeu a viagem e sobreviveu à tragédia. Pensava neles quando estive pela primeira vez no Alto Zambeze. Viajei num helicóptero Mi-8, da Força Aérea Nacional, carregado de militares e combustível. Hoje, também penso neles. Recordo pilotos e demais pessoal navegante que não sobreviveu ao conflito armado.
Pressiono os Kits de sobrevivência contra o peito. Agora são dois. À inseparável bolsa com artigos de higiene adicionei outro, contendo medicamentos para todo o tipo de alergias, injecções de adrenalina e comprimidos para as dores do corpo e da alma. O levíssimo abanar da pequena aeronave prenuncia a chegada ao Luena. As desterradas populações de Cazombo ficaram lá no Alto Zambeze. O dia e meio de permanência mostrou uma parte ínfima do universo de dificuldades. Inevitável a assumpção de um novo compromisso de trabalho. É imperioso apurar factos centrados na forma como o cidadão comum sobrevive e se movimenta de Cazombo para outros destinos. Há “espécies de vida” indecifráveis à primeira abordagem.