Reportagem

Cuanza-Norte possui um acervo histórico e turístico rico e vasto

Nos dez municípios da província do Cuanza-Norte, estão identificados vários sítios históricos e turísticos que, bem aproveitados, podem ser uma importante fonte de receitas para os cofres do Estado. O Gabinete Provincial da Cultura elaborou um programa para a reabilitação, promoção e divulgação desses locais, no sentido de torná-los mais conhecidos não só pelos turistas, mas também pela população da província.

Cazengo
No município do Cazengo, existe o Palácio Dom Teles Carreira e a casa de passagem do Presidente Agostinho Neto, localizados no Kilombo, a cerca de sete quilómetros de Ndalatando, as ruínas do Tribunal do Zavula, na região de Caculo Camuiza (Canhoca), Colónia de São João, tida no passado como Casa Penal dos Negros de Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Ainda no Cazengo, se encontram as furnas do Zanga, casa que, em 1942, serviu de primeira escola primária para brancos e negros, além das grandes quantidades de mármore ali existentes.

Cambambe
A vila do Dondo, sede do município de Cambambe, tem sido a mais visitada, pelos turistas nacionais e estrangeiros, devido aos vários locais históricos que possui, aliados à presença do rio Kwanza e a praça da alimentação, onde os turistas têm a oportunidade de degustar do cacusso, mussolo e taínha. Outros atractivos do município são a barragem de Cambambe e a vila de Massangano, que já recebeu uma equipa de pesquisadores da National Geographic.

Golungo Alto
Na comuna da Cerca, município do Golungo Alto, existe o fortim do Mussungo, um antigo quartel que serviu para defender as fazendas agrícolas que, apôs a proclamação da Independência Nacional, em 1975, foi transfomado num centro de instrução revolucionária das antigas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA). Já na comuna de Cambondo, se encontra as casas duplas onde António Jacinto viveu durante muitos anos, além de outras construídas de pedra na localidade de Kipemba, a três quilómetros da sede comunal.

Ngonguembo
No Kilombo dos Dembos, município do Ngonguembo, encontra-se a Granja Portuguesa, o Centro do Tumba, as quedas dos rios Lumbiji e Zenza, além da fazenda do Dala Kimbo, entre a região de Cafuta, comuna de Camame, e o município de Bula Tumba (Bengo), com grandes edifícios históricos que datam dos séculos XVII e XVIII.

Lucala
Na região de Pamba, município do Lucala, na margem direita do rio com o mesmo nome, existe também o fortim onde se instalou a Administração de Ambaca, quando este município era ainda um distrito de Lucala, assim como as furnas de Cacolombolo, local muito visitado por turistas de vários pontos do país.


Ambaca
No município de Ambaca, há uma árvore considerada histórica que, em meados do século XVIII, era local para trocas comerciais entre pessoas vindas do norte e leste do país. Foi igualmente em Ambaca onde Paulo Dias de Novais foi feito prisioneiro, quando se preparava para a batalha contra as forças de Ngola Kiluanji, vindo a perder a vida em Massangano, onde foi sepultado.

Samba Caju
Em Samba Caju, destaca-se o histórico cemitério de Cahenda, que data desde os séculos XVII e XVIII, e a antiga capitania, local onde trabalhavam as forças da administração colonial, que controlavam e reprimiam todo o negro que tentasse discutir os seus direitos e terras. Na região de Dala Capanga, comuna de Samba Lucala, há um local de onde, em 1959, a população negra escreveu uma carta anónima para as autoridades coloniais em Portugal, a reivindicar a usurpação das suas terras. Como resposta, as autoridades portuguesas autorizaram o Tribunal de Ndalatando, antiga Salazar, a enviar uma equipa para Samba Lucala, no sentido de julgar os cidadãos brancos e negros em pé de igualdade. Um total de 30 cidadãos brancos foi considerado culpado e obrigado a devolver as terras aos seus legítimos donos.

Banga
Já em Caculo Cabaça, município da Banga, há três pedras “gémeas” com uma marca de Ngola Kiluanji e a primeira capela construída pela Igreja Católica. Em 1959, na região da Kivota, mais tarde Kicanga e actualmente Aldeia-Nova, foi construída uma casa de adobe, que existe até hoje, onde funcionou o primeiro conselho administrativo. Na mesma aldeia, há uma vala comum com mais de 300 pessoas enterradas.

Kiculungo
Na sede municipal de Kiculungo, há um cemitério, construído em 1958, onde não eram permitidos funerais de pessoas de raça negra, mas apenas brancos mortos em batalhas nas fazendas.

Bolongongo
Em Kiquiemba, município de Bolongongo, há grandes pedras que serviram de refúgio para os angolanos que lutavam contra os colonos, na sua maioria da FNLA. No local, existe uma vala comum com mais de 500 pessoas mortas nas diferentes batalhas.

A beleza do Kilombo

O Centro Botânico do Kilombo, considerado, entre os anos 70 e 80, um dos melhores do país pela diversidade de plantas e animais, continua a realizar trabalhos de investigação, ensaios, cruzamento e adaptação de variedades de sementes e plantas.

A adaptação das variedades de plantas assenta essencialmente na emblemática rosa de porcelana, no gengibre e em hortícolas diversas, enquanto as sementes são as mais usadas na agricultura da região, como o milho, feijão, amendoim, mandioca, batata-doce e rena, dentre outras.
O Centro Botânico do Kilombo conta igualmente com estufas para a produção das mudas, parque de máquinas e um reservatório de água para o abastecimento dos campos de investigação. É uma das poucas áreas no país que até hoje tem servido para a reprodução de plantas ornamentais em vias de extinção, como é o caso da palmeira real, da costela de Adão e do pinheiro natalício. No Kilombo, encontramos, igualmente, variadíssimas plantas trepadeiras de todas as espécies e tamanhos.
A rosa de porcelana, produzida numa área com um hectare, é o maior emblema do centro que tem merecido uma especial atenção dos trabalhadores que cuidam do local. No centro, existem também frutos diversos, como o caso da carambola, cereja, manga, morango, sape-sape, goiaba, amora, gajajas, jaca e tantas outras.
As famosas mulembeiras são outros atractivos para os visitantes. O caudal do rio Muembeje permitiu a construção da famosa Ponte Chinesa, que é uma das mais velhas relíquias da província, onde, mais a baixo do córrego do rio, se encontra as quedas rápidas do Muembeje, rio que banha o epicentro do local.

Monumentos reconhecidos

A província do Cuanza-Norte possui actualmente 11 monumentos reconhecidos pelo Instituto Nacional do Património Cultural, localizados na sua maioria no município de Cambambe, com excepção da Igreja Santo António de Cahenda (Samba Caju).
Em Massangano, destaca-se a Fortaleza e a área residencial da Barragem de Cambambe, as igrejas da nossa senhora do Rosário e da Vitória, construídas no século XVI, as ruínas do Tribunal de Massangano, a Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras, do século XVIII, a Torre da Fundação Real, onde foram fabricados os primeiros canhões para a tropa portuguesa, assim como o Cruzeiro e a moradia “Casa dos Bentes”.
Todos estes locais estão em estado avançado de degradação.
O Instituto Nacional do Património Cultural descerrou, em Maio de 2009, a placa que identifica a Igreja da Nossa Senhora da Vitória como um monumento histórico, no âmbito do projecto do Ministério da Cultura de reconhecimento de todos os locais históricos do país. Localizada a cerca de 40 quilómetros a noroeste da velha cidade do Dondo, essa igreja está a ser reabilitada pela Missão Católica.
O reconhecimento desses locais resulta de um levantamento realizado em 2008, pelo que a maioria dos monumentos da comuna de Massangano já tem placas de identificação, faltando apenas os existentes nos municípios a norte da província.


Números de quartos

Paulo Tonet revelou que a província do Cuanza-Norte conta actualmente com cerca de 270 quartos, dos quais 167 na cidade de Ndalatando. “Ndalatando tem disponíveis apenas os 60 quartos do IU Hotel, 37 do Miradouro, 50 do Términus e 20 do Camuaxi, perfazendo um total de 167 quartos”, explicou.
O director do Gabinete Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Desportos reconhece que os quartos são insuficientes, devido ao número de turistas que visitam a cidade de Ndalatando. “Se todos os hotéis estivessem em funcionamento, poderíamos ter cerca de 520 quartos, mas, infelizmente, não é o caso”, lamentou, acrescentando que a província regista grande movimento de turistas em datas comemorativas, durante as férias e aos finais de semana.
A província do Cuanza-Norte não dispõe de nenhuma agência de turismo e viagens. Paulo Tonet revelou ter apresentado no Conselho Consultivo do Ministério da Hotelaria e Turismo, realizado recentemente em Luanda, uma proposta no sentido de incentivar as agências de turismo a instalarem-se no Cuanza-Norte.
Sem agências de turismo na província, não foi possível à nossa reportagem informar-se sobre os pacotes turísticos oferecidos pelas mesmas, o preço dos pacotes turísticos, nem mesmo as suas inquietações em relação à actividade, assim como a questão ligada ao financiamento dos bancos.
A implementação do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), disse, vai privilegiar a reabilitação de estradas secundárias e terciárias no municípios, no sentido de criar condições para o fomento do turismo em todas as localidades.

Unidades hoteleiras

A cidade de Ndalatando conta com cinco unidades hoteleiras em funcionamento, nomeadamente Términus, Miradouro, Rosa de Porcelana, Camuaxi e IU Hotel. Está em construção uma nova unidade hoteleira na zona do Tenga.
O primeiro bloco do IU Hotel dispõe de 60 quartos disponíveis. O segundo, também com 60 quartos, aguarda apenas pelo seu apetrechamento, por isso, os 60 quartos estão indisponíveis.
Nelson Bartolomeu, director daquela unidade hoteleira, explicou que os preços da diária variam entre 14.400 kwanzas, para o quarto individual, e 22.500 kwanzas, para o quarto de casal. Uma refeição pode custar até 3.750 kwanzas o prato.
Nelson Bartolomeu revelou que mais de 250 pessoas se hospedam mensalmente naquela unidade hoteleira, sendo que 75 por cento destes são turistas estrangeiros.
Os hotéis Miradouro, Términus e Camuaxi possuem 37, 50 e cerca de 20 quartos, respectivamente. O hotel Rosa de Porcelana, com 16 quartos, foi arrendado a uma empresa, por este motivo não está aberto ao público.
No Dondo, sede do município de Cambambe, existe o hotel Zéus, enquanto no município do Golungo Alto está disponível o hotel Cambondo. Já em Camabatela, sede do município de Ambaca, os turistas têm disponíveis o hotel Piff-Paff. Nesta mesma localidade, existem dezenas de pensões e pequenos restaurantes.
Já no município de Quiculungo, a cerca de 140 quilómetros de Ndalatando, está em fase de conclusão uma unidade hoteleira com 27 quartos.
O director do Gabinete Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Desportos, Paulo Tonet, considera que, devido ao reduzido número de unidades hoteleiras, pensões e hospedarias, em condições para acomodar os hóspedes, Cuanza-Norte recebeu, até Julho último, cerca de 350 turistas em Ndalatando e aproximadamente 500 na velha cidade do Dondo.

Maior valorização e divulgação

A população do Cuanza-Norte defende maior valorização e divulgação dos locais turísticos, monumentos e sítios históricos que, embora pouco conhecidos, estão identificados pelo governo da província e pelo Ministério da Cultura.
Para os estudantes da Escola Superior Pedagógica do Cuanza-Norte, apesar de a província ter muitos monumentos e sítios de interesse turístico, falta políticas para a sua promoção e divulgação.
Josué Francisco das Neves, estudante do curso de História, exorta os jovens a pesquisarem mais sobre o nosso passado histórico e não apenas as matérias ligadas à sua formação académica. O estudante universitário defende que o Governo deve conceber um programa que permita conhecer a verdadeira história dos monumentos e sítios existentes na província.
Sampaio Martins, estudante e funcionário público, disse que locais como o Centro Botânico do Kilombo e a pequena praia do rio Lússue, arredores de Ndalatando, são tidos como as únicas opções de lazer e deviam ser melhor aproveitados.
O estudante Miguel do Nascimento disse que deve haver políticas concretas de protecção e conservação dos monumentos e sítios da província. Por seu lado, Angelina Tande disse que é tarefa de todos os angolanos, em particular dos cuanza-nortenhos, preservar, valorizar e divulgar o património histórico-cultural e turístico, colaborando com o Governo na manutenção da memória colectiva do país.
Os estudantes reconhecem que os monumentos e sítios ajudam a compreender a história dos nossos antepassados, em diferentes regiões e tribos. Apontam como principais obstáculos para a promoção e divulgação desses locais o estado avançado de degradação das vias de acesso e o fraco poder financeiro dos investidores privados.
O professor de História Manuel José Tomé realçou que o turismo cria postos de trabalho, aumenta as receitas fiscais, melhora o nível de vida das populações e promove a inclusão social. “Os homens de negócios devem investir no turismo, no sentido de diversificar a economia”, disse.