Reportagem

Elefantes “reclamam” terras

Afastados para regiões distantes durante a guerra, em tempo de paz os elefantes regressam em força e “reclamam” pelo seu habitat, invadindo lavras e desalojando, para longe, famílias inteiras. Nas regiões da Beira-Alta e Caboco, no Cuanza-Norte, 11 pessoas foram mortas, cinco mil hectares de terras cultivadas destruídos e 600 famílias abandonaram as lavras, desde 2002, devido à invasão de paquidermes.

Onze cidadãos nacionais morreram, cinco mil hectares de terras cultivadas foram destruídas e 600 famílias abandonaram as suas lavras, desde 2002, devido a invasão de manadas de elefantes nas regiões da Beira-Alta e Caboco, no Cuanza-Norte. 

Os municípios da Banga, do Ngonguembo e do Golungo Alto são os mais visados pelas manadas de elefantes. No município do Golungo Alto, oito pessoas morreram quando tentavam reagir às investidas dos elefantes. Quatro das vítimas mortais eram efectivos das Forças Armadas Angolanas destacados no quartel do Nzenza do Itombe.
A reportagem do Jornal de Angola percorreu 430 quilómetros, durante quatro dias, para constatar no terreno o drama vivido pelas comunidades camponesas da Banga, Ngonguembo e Golungo Alto, onde os elefantes estão a deixar as matas para recuperar o seu antigo habitat, transformado actualmente em campos agrícolas e zonas habitacionais.
As culturas mais devastadas são as de banana, café, manga, batata, amendoim, dendê e mandioca. Em declarações ao Jornal de Angola, a esposa do soba da região da Beira Alta, município do Golungo Alto, afirma que a situação tornou-se “insustentável”, devido a morte de pessoas e a destruição de campos agrícolas.
Zita Agostinho diz haver um sentimento de medo entre os caçadores, que deixaram de ir às matas à caça de animais para o próprio sustento. Para sobreviver, acrescentou, a população, que antes produzia com fartura, dedica-se à venda de múcua (fruto do embondeiro), para obter dinheiro para comprar mandioca, fuba de bombó e outros produtos no Mercado do 30, em Luanda.
Nos últimos 10 anos, os elefantes destruíram centenas de lavras e deixaram 350 famílias sem alimento na comuna de Cavunga, que dista a 18 quilómetros de Quilombo dos Dembos, sede municipal de Ngonguembo.
O regedor da comuna de Cavunga, António Nzagi, referiu que a população da região de Gombe-Anambua teve de abandonar as suas casas e lavras, com medo do gigante mamífero. Outra região afectada é a localidade de Songuelo, a três quilómetros da comuna de Cavunga, onde as palmeiras e um tubérculo conhecido por “cocoa”, fizeram com que os elefantes transformassem do local o seu “santuário” predilecto.
Segundo o regedor de Cavunga, no passado era difícil ouvir relatos de invasão de lavras por elefantes, que embora fossem avistados na floresta, não provocavam qualquer prejuízo. “Actualmente, a situação é preocupante pelo facto de o animal, algumas vezes, desfilar pela sede comunal, em plena luz do dia, sob o olhar de crianças e idosos”, alertou, acrescentando que na região ainda não houve registo de mortes, mas teme que tarde ou cedo o infortúnio venha a ocorrer.

Criação de uma reserva

António Nzagi exortou o Governo a criar uma reserva para o controlo, preservação e conservação dos elefantes. Em julho deste ano, contou, uma cria de elefante, que aparentava ter dois meses de idade, morreu numa armadilha instalada por um caçador da região, que pretendiam apanhar um javali. A carne do elefante foi consumida pela população.
O regedor de Cavunga assegura não haver na região o registo de abate de elefante, pelo facto da população estar informada sobre a extinção da espécie animal. “A caça do elefante está proibida, por ser um animal com um grande valor e que se reproduz pouco. Qualquer acção contra, vamos denunciar às autoridades do município”, disse o regedor.
O soba de Gombe-Anambua, Francisco Morais, revela tristeza por ter sido obrigado a abandonar um local onde viu nascer e crescer os seus filhos. Aquela autoridade tradicional mostra-se decepcionado por nada estar a ser feito para salvaguardar as lavras e a integridade da população.
A situação ganha outros contornos, numa altura em que os campos agrícolas criados nos arredores da sede comunal estão também a ser devastados pelos elefantes, pondo em causa a sua sobrevivência. “O ano passado, tive de receber doações de familiares para sustentar as pessoas do meu agregado”, revela Francisco Morais.
O administrador municipal da Banga, José Teixeira, lamenta a situação da população de Caboco e Besenguele, onde esteve uma comissão multissectorial que transmitiu alguns métodos de afugentar os animais e fez um levantamento sobre a situação real do local.
A população da aldeia de Besenguele, a 50 quilómetros da sede municipal da Banga, conta que o animal destrói tudo que encontra pelo caminho, por isso usam sinos e queimadas para tentar afugentá-lo.
O professor Silva Adão disse que, desde 1992, oito elefantes foram mortos na região. Ele acredita que os conflitos entre os elefantes e o homem podem piorar caso não se tomem medidas de salvaguarda dos interesses de ambas as partes.

Situação em Angola e na Região Austral de África

Uma investigação realizada por ecologistas da “Elephants Without Borders” (EWB), organização de conservação da vida selvagem e dos recursos naturais com sede no Botswana, e pela Universidade de Massachusetts, conclui que o fim da guerra não é necessariamente suficiente para a recuperação, a longo prazo, das populações da vida selvagem.
A pesquisa aponta a necessidade da “protecção activa”, com medidas de combate à caça furtiva e de limitação da invasão humana das áreas protegidas. De acordo com a EWB, em Angola ainda é possível reverter o declínio em curso dos elefantes, se o Governo se comprometer com uma “protecção activa”, diz Scott Schlossberg, o primeiro autor do estudo, publicado na revista científica “PLOS ONE”.
Até final de 2015, Angola tinha mais de 3.000 elefantes. Antes da década de 1970, o país contava com cerca de 70.000 elefantes, uma das maiores po-
pulações da África subsaariana naquela altura.
A guerra, entre 1975 e 2002, não só provocou grande perda de vidas humanas, mas também levou ao abate de elefantes em larga escala.
Em 2004-2005 a EWB fez uma pesquisa em Angola e encontrou uma “pequena mas aparentemente saudável e crescente população, estimada em 1.800 elefantes”, segundo Curtice Griffin, professor de conservação do ambiente em Amherst.
Uma nova pesquisa feita em 2015, através de levantamentos aéreos e monitorizações por satélite, permitiu a identificação de 3.395 elefantes na província de Cuando Cubango. Os números foram destacados em 2016, pelo Governo angolano, que nesse ano dedicou o dia do Ambiente à protecção do elefante e ao combate ao tráfico de marfim.
Comparando os dados de uma região específica que já tinha sido estudada em 2005 registou-se um decréscimo de 21 por cento do número de elefantes. Recentemente em Luanda foi lançado um projecto de investigação, que visa salvar os elefantes em Angola, dirigido pela ONG britânica contra tráfico ilegal de marfim "Stop Ivory".
O projecto, avaliado em mais de 300 mil libras, vai ser implementado em quatro anos, de acordo com o presidente da ONG britânica "Stop Ivoiry", Alexander Rhodes.
O responsável disse que a referida soma serve para financiar actividades de investigação, melhorar a capacidade de pesquisa das espécies a nível do país, bem como as ligações existentes em termos de comércio ilegal entre Angola e os países vizinhos.
O Botswana, com 130 mil espécies, tem a maior população de elefantes do continente africano, reunindo cerca de 37 por cento da população ameaçada de elefantes de África.
Em resumo, os elefantes em África estão a diminuir, principalmente devido à caça ilegal motivada pelo mercado internacional e doméstico de marfim.

Prudência e vigilância

O director provincial do Ambiente em exercício no Cuanza-Norte, João dos Santos Agostinho, pediu aos camponeses prudência e vigilância, aconselhando a realização de queimadas, toque de sinos e outros ruídos para afugentar os mamíferos.
Avançou que o Instituto Nacional de Biodiversidade criou um projecto de inclusão de colmeias com o propósito de afugentar o animal. Esse método, acrescentou, já foi usado em regime experimental na comuna de Cambondo há três meses e tem estado a dar resultados satisfatórios. “O projecto vai ter uma segunda fase para à expansão das colmeias em outras zonas afectadas”, garantiu.
Os conflitos entre elefantes e população são frequentes nos municípios da Banga, Cazengo, Cambambe, Ngonguembo e Golungo Alto. O elefante, explicou, habita essencialmente em florestas, onde as comunidades fazem lavras. Esta atitude, disse, é um factor que contraria as regras ambientais, porque nas florestas existem animais selvagens que comem a maior parte dos alimentos cultivados.
“O elefante tem um poder instintivo forte que o leva a recordar caminhos ou trajectórias do passado, mesmo depois de muitos anos. Por isso, não se deve estranhar o retorno dos animais à estas zonas”, disse João dos Santos Agostinho, acrescentando que é a população que tem estado a ocupar o habitat do animal.

Características e “modus vivendi” dos elefantes

João dos Santos Agostinho afirma que o elefante é o termo genérico e popular pelo qual são denominados os membros da família Elephantidae, um grupo de mamíferos de grande porte, onde se destacam três espécies, duas africanas (Lexodonta) e uma asiática (Elephas).
Os elefantes são os maiores animais terrestres da actualidade, com uma massa corporal de quatro a seis toneladas e medem em média quatro metros de altura. Podem levantar até 10.000 quilos. Uma das suas características mais distintivas são as presas de marfim.
São essencialmente herbívoros, alimentando-se de ervas, gramíneas, frutas e folhas de árvores.
Dado o seu tamanho, um elefante adulto pode ingerir entre 70 a 150 quilos de alimentos por dia. As fêmeas vivem em manadas de 10 a 15 animais, lideradas por uma matriarca.
O período de gestação das fêmeas é longo (20 a 22 meses), assim como o desenvolvimento do animal que leva anos a atingir a idade adulta. Os filhotes podem nascer com 90 quilos. Os machos adolescentes tendem a viver em pequenos bandos e os adultos isolados, encontrando-se com as fêmeas apenas no período reprodutivo.
Devido ao seu porte, os elefantes têm poucos predadores. Exercem uma forte influência sobre as savanas, pois mantêm árvores e arbustos sob controlo, permitindo que pastagens dominem o ambiente. Eles vivem cerca de 60 anos e morrem quando seus molares caem, impedindo que se alimentem de plantas.
Os elefantes africanos são maiores que as variedades da Ásia e têm orelhas mais desenvolvidas, uma adaptação que permite libertar calor em condições de altas temperaturas. Outra diferença importante é a ausência de presas de marfim nas fêmeas dos elefantes asiáticos.
Durante a época de acasalamento, o aumento da produção de testosteronas deixa os elefantes extremamente agressivos, levando-os a atacar até humanos. Acidentes com elefantes utilizados em rituais geralmente são causados por esse mo-tivo. Cerca de 400 humanos são mortos por elefantes a cada ano.