Reportagem

Excursionistas desfrutam da beleza e recantos de Cassengo

Passos cadenciados, suor nos rostos e sucessivas paragens para ganhar fôlego são rotinas  obrigatórias  dos excursionistas que visitam com frequência a localidade.

A busca de novos recantos naturais que a paisagem oferece obriga os visitantes a enfrentar a árdua tarefa de transpor a pé um longo e sinuoso percurso no matagal. Jaime Funete, soba de Satxula e profundo conhecedor do rio Luachimo, é o cicerone da empreitada.
De passos firmes e simpático na interacção com os visitantes, o líder tradicional denota excelente forma física, temperada por anos de treino, com idas regulares à lavra. O ritmo do seu andamento contrasta com o arrastar penoso dos pés dos visitantes. 
A viagem decorre sem pressa. Adiante, o líder tradicional, de porte frágil,  caminha seguro, buscando uma rota com menos obstáculos para poupar esforço à comitiva. Fala sobre o quotidiano da população que sobrevive do cultivo. Explica aos visitantes que estratégias adopta para manter a harmonia entre os membros.
Em alguns pontos do percurso, o soba pára pacientemente, sempre que necessário, para aguardar a aproximação da caravana, confrontada por dificuldades em quase todo o  troço. Ainda assim, a rota foi cuidadosamente escolhida para que o grupo possa caminhar nas melhores condições de segurança.

Satxula
Pelo caminho, o soba conta que, em tempos idos, a abundância de caça na região, permitia atender toda a  demanda de consumo de carne, na província. A cabra do mato era o principal alvo dos caçadores. Depois do abate dos animais, era constantemente usada a casca de uma árvore para facilitar o transporte de carne bem como a sua conservação. Daí resultou o nome Satxula, atribuído ao bairro que actualmente conta com representações nos município de Cacolo, sede de Saurimo, e Dundo, sede da província da Lunda-Norte.
O ruído crescente das águas eleva a ânsia e o medo, entre os excursionistas, que seguem em fila indiana, atentos a tudo ao redor.
A visão das bacias, semelhantes a piscinas naturais, e as cachoeiras no curso do rio,  impulsiona o ritmo dos visitantes que testemunham o desafio da força das águas à floresta, arrastando folhas e ramos de árvores caídas. Luachimo esconde recantos para banhistas.
Os detalhes nos adornos, a força mágica e secular da água, reconfirmam o engenho da mãe natureza.

Entusiasmo e visão
Rendidos a tamanha beleza, os visitantes expressam um uau, de admiração, ao vislumbrarem “um banheiro amplo e natural”, acenando para um banho refrescante, que ficou pelo desejo. Contentaram-se com o registo, via fotografias e vídeos, enquanto o soba se mostra reconfortado com a satisfação nos rostos dos “filhos alheios, que vieram de longe para apreciar as maravilhas feitas por Deus.”
Para a senhora Maria Rangel, promotora do passeio turístico, a constatação feita destapou o véu sobre o potencial da terra natal. Sem hesitar, incentiva os presentes a prosseguirem com pesquisas, para descobrirem outros espaços para recreação.
Rangel ressalta a “sensação de insignificância” perante o encanto oferecido pelas quedas de Cassengo que,  segundo explicações do soba, “foram descobertas por um caçador  com o mesmo nome, atraído pelo rumorejar da água”, enquanto procurava descobrir o caminho de regresso ao bairro, numa noite de chuva que o forçou a dormir numa caverna à beira do rio.
A promotora da excursão considera que “a dimensão da descoberta deve conduzir a investimentos para tornar o espaço público”, evitando assim que sirva, no futuro, interesses particulares, como terá ocorrido na “febre de privatizações” que assolou algumas praias, no litoral do país.
 
Humildade e experiência
O convívio dos visitantes é apreciado à distância pelo secretário do soba.  França Nonô toma notas num caderno, passa despercebido, mas cumpre orientações precisas. Indica uma árvore, cuja casca é utilizada como corda para fabrico de cestos tradicionais, nos quais acondicionam o bombó, carne, ou peixe fumado, normalmente vendido nos mercados da sede da província.
França garante à reportagem do Jornal de Angola que “não acredito no feitiço apesar de participar em sessões para banir desavenças entre famílias, por acusações de posse e uso de feitiço”.

   As curiosidades da Capopa

O trabalho de campo ocupa bastante tempo ao secretário do soba. Tem um rádio receptor sempre próximo de si, para acompanhar as notícias. A fé em Deus adquirida através da Igreja Adventista “sustenta a vida e afasta a tendência de fraquejar, para obedecer ao diabo”, explicou.
Os excursionistas satisfizeram a curiosidade, provando a uva e o pêssego silvestres, conhecidos respectivamente por cazália e thongo. O interesse dos homens foi ainda aguçado por uma planta conhecida por Capopa (na língua Tchokwe), face às  supostas propriedades estimulantes. O poder  dos tubérculos da planta na cura de dores no ventre e impacto na excitação masculina, segundo o soba, aumentou nos últimos tempos a procura por parte de automobilistas. Com alguma timidez no início, vários jovens escavaram o solo, para colherem os tubérculos e viverem a experiência ou até plantar em quintais.