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Reportagem

Fraco movimento de viaturas na estrada Luanda/Cuanza-Sul

Estrada livre à saída de Luanda. Para quem vai ao Cuanza-Sul, não se vê nenhuma viatura carregada de mercadorias. No Cabo Ledo, a 120 quilómetros a sul da capital do país, onde a grandeza das praias de águas límpidas, e a beleza da costa alta no entorno de uma extensa faixa de areia branca, deixa-nos maravilhados.

O local oferece condições favoráveis à prática da pesca e do surf. Localizado no município da Quissama, Cabo Ledo possui, também, um incalculável valor histórico. Foi aqui que, em 1648, desembarcou uma frota proveniente do Brasil, que recuperou Angola para o domínio português, após sete anos sob a dominação holandesa.

Pouquíssimas viaturas circulam na via Luanda/Sumbe. É sábado, 16 de Maio. Da comuna de Cabo Ledo até à portagem da Barra do Kwanza, no controlo limítrofe do Longa, município do Porto Amboim, no Cuanza-Sul, a viatura que transporta a equipa de reportagem do JA ultrapassa apenas dois camiões de mercadorias, um contentorizado e outro abarrotado com caixas para o transporte de hortícolas. Seguem em direcção ao Sumbe.

No sentido inverso, à entrada do Porto Amboim, apenas uma carrinha frigorífica carregada de peixe e mariscos, e dois camiões com trailer, sem mercadorias, regressam à capital do país. Desde finais de Março que se verifica este cenário. Antes de vigorar o Decreto Presidencial sobre o Estado de Emergência, eram incontáveis os camiões e carrinhas, que subiam em direcção ao Sumbe ou desciam para Luanda, lotados com produtos e materiais diversos. Nos dias que correm, a circulação de mercadorias na estrada Luanda/Sumbe é quase nula.

O Governo angolano mantém a cerca sanitária à província de Luanda, não podendo haver entradas e saídas de cidadãos na vigência da terceira prorrogação do Estado de Emergência, que vigora desde o dia 11 até 25 de Maio. A circulação de pessoas e bens é permitida nas demais 17 províncias do país, para efeitos de actividade comercial. As viagens de lazer, entre os cidadãos aí residentes, estão proibidas.

Nos postos de controlo da Polícia Nacional, localizados na Barra do Kwanza, Cabo-Ledo e no Longa, os efectivos não dão tréguas aos incumpridores das medidas impostas pelo Decreto Presidencial. As viaturas, que circulam nos dois sentidos, são obrigadas a parar para a devida inspecção. O processo é rápido. Quem está devidamente documentado, autorizado a viajar, tem a vida facilitada e não enfrenta quaisquer tipos de impedimentos. Circula à vontade naquela via.

Além das provas documentais, motoristas e demais ocupantes das viaturas que chegam à barreira policial do Longa fazem, obrigatoriamente, exames de rastreio à Covid-19. E quem apresenta resultados duvidosos é impedido de prosseguir viagem e, de seguida, encaminhado para o hospital da Barra do Kwanza, onde realizam exames complementares.

É aqui onde, de forma rigorosa, quer na ida ao Cuanza-Sul, quer no regresso à capital do país, a nossa equipa de reportagem (redactor, fotógrafo e o motorista) foi submetida a exame de despiste à pandemia. Efectivos de vários órgãos de defesa e segurança, além de técnicos de saúde, estão concentrados no local, para fazer cumprir a lei.

Venda de peixe e produtos agrícolas

Nem os rapazes que vendem camarão, ao longo do percurso Porto Amboim/Sumbe, são capazes de superar as meninas, que comercializam produtos agrícolas na pracinha do Puto, a poucos quilómetros da ci-dade. Elas vendem com ânimo e arte à mistura. São meigas. “Namoram” os clientes com alguma classe.

Quando chega uma viatura ao local, correm ao encontro dos potenciais clientes. Cada uma delas leva um ou mais sacos de cenoura, beringela, peixe bagre (seco e fumado) e outros produtos. “Tio, olha o feijão verde, o tomate e o quiabo? Venha então comprar, meu titio. Aqui, tudo é barato. Vem comprar comida para a tua família. Os teus filhos gostam disso, compra só já, titio”, cativam.

Duas adultas. As manas Ma-nucha e Teresa António são benévolas. Um cliente, depois de comprar algumas melancias, acidentalmente deixou-as cair ao chão. Com muita pena, as vendedoras decidiram substituir as frutas, que ficaram destruídas, por outras em melhor estado. No posto de contenção do rio Keve, muito próximo da estação de captação, no bairro Pinda, comuna do Capolo, Porto Amboim, encontrámos algumas barracas de comes e bebes, e bancadas de peixe seco e fumado.

Servina Serviço e Isabel Fernando disseram à reportagem do Jornal de Angola, que vendem o pescado há mais de 20 anos. Compram o negócio das mãos dos pescadores, que fazem a captura dos vertebrados aquáticos nas águas do rio Keve.

Porto Amboim

Uma vista espectacular. Que paisagem magnífica. Chegámos ao Porto Amboim. Luanda já ficou para trás, a cerca de 261 quilómetros. Faltam mais 65 para atingirmos a sede capital do Cuanza-Sul. No local onde está a cidade existia uma ombala, “Quissonde” que, à época da chegada dos portugueses, Angola Mussungo era o rei.

Após séculos de estagnação, os portugueses voltaram ao local original e reergueram a povoação no ano de 1771, ainda com o nome de Benguela Velha, para em 1870 surgir a primeira freguesia civil. Foi em 1917, que a localidade municipal passou a Distrito de Cuanza-Sul, para servir de apoio à colonização do Planalto do Amboim.

O Porto Amboim está directamente ligado ao advento da cultura do café no país, desenvolvendo-se desde os anos de 1920 graças a produção do bago vermelho. A importância do seu cultivo foi tão grande no Planalto do Amboim, que a cidade se tornou num grande centro exportador do produto, depois de ter sido ligada à Gabela através do actualmente inactivo Caminho-de-Ferro do Amboim, construído entre os anos de 1922 e 1925.

Com cerca de 137 mil habitantes e 3.646 quilómetros quadrados, o município possui, além da comuna-sede, que também conserva o nome de Porto Amboim, tem a comuna de Capolo. A sua principal via de ligação ao resto do território nacional é a EN-100. Dispõe, também, de uma facilidade logística vital, o Porto do Cuanza-Sul (antigo Porto de Benguela Velha ou porto de Porto Amboim), localizado na baía do Quissonde. Aqui também há um aeródromo, onde operam somente voos domésticos.

A ponte cais do Porto Amboim, que servia de apoio à pesca industrial e semi-industrial, está inoperante desde o primeiro semestre de 2019, por degradação total das suas infra-estruturas, situação que impede a atracagem de barcos para a descarga do pescado. Por esta razão, algumas embarcações operam nas províncias de Luanda e de Benguela.

Sumbe, a “cidade da poeira”

De Luanda à Sumbe, a distância é de 326 quilómetros. A cidade capital do Cuanza- -Sul enfrenta sérias carências ao nível da mobilidade, acesso à água potável e sa-neamento básico. Em tempo da Covid – 19, a população leva a sua vida normal. São poucos os que utilizam máscaras. O distanciamento social entre as pessoas é, nalguns casos, ignorado. Nas ruas da cidade observam-se poucos efectivos policiais e barreiras de contenção.

Restaurantes e bares fechados.Desde 2018 que se fala muito da reestruturação da cidade do Sumbe. Mas os resultados alcançados até agora, ainda não são animadores. No âmbito do Projecto de Desenvolvimento das Infra-estruturas Integradas da Cidade do Sumbe, até Novembro de 2019, foram executados 31,75 por cento das obras de reabilitação das redes técnicas (água, energia, estação de tratamento de resíduos, passeios), num investimento público de 186 milhões de dólares.

As obras do Lote 1, que arrancaram no dia 26 de De-zembro de 2018, para serem concluídas em Junho deste ano, paralisaram devido à Covid-19. O Jornal de Angola sabe que, o Lote 2 do projecto de reabilitação da cidade estava focado nos trabalhos de drenagem, reconstrução de 13 quilómetros de ruas e melhorias da iluminação pública e das redes de telecomunicações. Orçadas em 125 milhões de dólares, as obras da segunda fase começaram a ser implementadas no dia 20 de Fevereiro de 2019.

O objectivo principal da terceira fase é construir uma nova estrada que limite a entrada de veículos pesados no centro do Sumbe. No final do dia, no regresso da equipa de reportagem à capital do país, o trânsito rodoviário aumentou significativamente. Mas, nada a ver com o movimento de viaturas verificado antes de começar a vigorar as medidas sobre o Estado de Emergência, no dia 27 de Março.

Cussumba, Negunza Cabolo e Novo Redondo

O nome “Sumbe” deriva da palavra em língua quimbundo “cussumba”, que em português significa “comprar”. O ponto onde se encontra situada a cidade constituiu sempre um local de trocas comerciais, entre os povos do interior e do litoral. O sal e o peixe, bem como os tecidos que chegavam da Europa, alimentaram durante muito tempo o referido circuito comercial, que também envolvia a venda de escravos.

A antiga cidade de Novo Redondo também já se chamou Negunza Cabolo, em homenagem ao líder da resistência à ocupação colonial, também conhecido como “Príncipe do Sertão”. A existência de uma espécie de localidade-feira, onde exactamente hoje se assenta o Sumbe, em que se realizavam trocas comerciais entre os povos do interior e do litoral, levou as autoridades coloniais portuguesas a pensarem na fundação de uma cidade, motivada não só pela necessidade de defesa contra as incursões dos piratas ingleses e franceses, mas também da ligação entre os reinos de Luanda e Benguela, bem como das minas de cobre.

A fundação da cidade iniciou-se em 7 de Janeiro de 1768, quando o governador Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho ordenou a uma brigada de engenheiros para fazer a escolha do local onde se instalaria um presídio com o nome de Novo Redondo. Em 1785 ergue-se a primeira fortaleza de pedra, com a primeira igreja edificada somente em 1811. Porém, os primeiros serviços de saúde surgiriam em 1872, com a vinda do médico Francisco Joaquim Vieira.

No século XX, foi a primeira localidade angolana a ter iluminação domiciliária, fornecida a partir da barragem hidroeléctrica do Cambongo que, depois, foi ampliada e melhorada com a actual estação de captação e tratamento. Já com as características de vila, em 1954 recebeu a primeira visita de um Presidente português, o general Francisco Higino Craveiro Lopes. Em 1955, pelo decreto 40225 de 20 de Julho, foi elevada a capital de distrito e, em 28 de Maio do ano seguinte (1956), pelo diploma legislativo número 2757, ascendeu à categoria de cidade.