Reportagem

Lavras isoladas atraem elefantes

Após o fim da guerra em Angola, em 2002, várias comunidades ocuparam, para diversos fins (lavras e habitações), extensas áreas, o que propiciou a fuga de vários animais da nossa fauna para outras paragens, estando agora muitas espécies a efectuarem o regresso ao seu habitat, o que tem gerado, nos últimos tempos, grandes conflitos entre o homem e estes.

Nos últimos dias, várias notícias dão conta do regresso, sobretudo, de elefantes e hipopótamos, que têm dizimado enormes campos cultivados das populações locais, bem como as respectivas habitações, resultando em vários casos no abate destes, por parte das po-pulações, a julgar pela ameaça que os mesmos representam para as comunidades. 

O uso de técnicas tradicionais (espantalhos) para afugentar os animais, junto dos campos cultivados e das habitações, nas zonas rurais, como queimada, o uso de vários artefactos, entre outros, não tem estado a resultar, como no passado, segundo vozes entendidas, tendo como recurso o abate com armas de fogo.
Em entrevista ao Jornal de Angola, o director nacional da Biodiversidade do Ministério do Ambiente explicou que é considerado conflito quando o homem se sente perdido. Tal acto, disse, acontece quando os animais como macacos, porcos, javalis, hipopótamos e elegantes invadem áreas de cultivo das comunidades.
Nascimento António fez saber que esse conflito é considerado conveniência no meio natural, pois os animais também precisam de espaço e de alimentos para sobreviver e durante o regresso ao seu habitat encontram as áreas ocupadas com construções e plantações.
“Quando os interesses de um e de outro (homem e ani-
mal) chocam, considera-se conflito. Nesta “guerra”, os elefantes “são os mais citados em termos de conflito homem/animal”, embora haja também episódios protagonizados por hipopótamos, jacarés e outros.
Nascimento António disse que são conhecidas, a nível nacional, as áreas de maior conflito entre o homem e os animais, nomeadamente na região da Maria Teresa, Triângulo dos Dembos (Bengo), Pango-Aluquém e Kibaxi (Cuanza-Norte), que estão catalogadas como as áreas com maior incidência de casos de invasão de elefantes dispersos.
Além destas zonas, há também registos de um núcleo de elefantes nas províncias de Cabinda, Uíge, arredores de Kitexi e na Huíla, que têm estado a causar muitos estragos no meio local.

Elefantes de floresta

De acordo com o responsável, estes elefantes são na sua maioria os chamados "elefantes de floresta" e que vivem fora das áreas de conservação, sendo essa espécie a mais ameaçada em Angola.
Nascimento António explicou que se o seu habitat, que se circunscreve a florestas húmidas e densas, sofre desmatamento para a realização de cultivos ou outra activida-de, "evidentemente que o elefante vai precisar se cuidar, fugir do homem e muitas vezes na sua rota encontra lavras e isso gera o conflito".
O responsável disse estar a ser feito um levantamento para se aferir o número da população de elefantes existentes fora das áreas de conservação, enquanto que nos parques nacionais o número ronda entre 800 a 1000 elefantes.
"Nos parques nacionais da Quiçama, Bicuari, Luengue-Luiana e nas nossas fronteiras com o Botswana e Namíbia tem havido algum movimento desses animais, daí os números acima referidos conhecerem uma variação, o que nos leva a mobilizar fundos para se conhecer a população existente em todo o país e tomarmos medidas".
O Ministério do Ambiente tem deixado patente nas comunidades que o elefante é uma espécie protegida a nível mundial, pois, "temos a obrigação de proteger e partindo desse pressuposto é proibido abater", tendo sublinhado que toda a acção tem-se cingido na mobilização e criação de mecanismos para afugentar o animal para longe das comunidades.
O director nacional da Biodiversidade disse que, neste quesito, Angola não está no nível de outros países, como o Botswana, que têm uma super população de elefantes e usam o mecanismo de abate, como uma prática contrária às Convenções Internacionais.
O responsável defende o respeito para a existência dessa espécie. Recordou que, desde o tempo colonial, os elefantes viviam próximo das comunidades e não havia grandes estragos, como está a acontecer nos dias de hoje.
Explicou que, muitas vezes, o que origina a invasão de elefantes às áreas de cultivo é o facto destes encontrarem alimentos, que fazem parte da sua dieta, o que os leva a fixarem-se nestes sítios para procurar comida para a sua sobrevivência, aliada ao facto de em muitas comunidades efectuarem desmatamento de florestas, o que resulta em conflitos.

Evitar lavras isoladas

Para acautelar a invasão de elefantes às zonas de cultivo, o director nacional da Biodiversidade alerta as comunidades para evitar a proliferação de lavras isoladas, proceder a uma maior vigilância, sair um pouco mais tarde das plantações, deixar sempre uma fogueira ou fumaça para afugentar os animais.
"O animal em situação normal não entra em confronto com o homem, pelo contrário, alguns fogem às pessoas, mas se estiver com as suas crias ou ferido, ele torna-se perigoso, pois sente-se ameaçado", disse o especialista.
"Oficialmente não temos relatos de vítimas mortais, causadas pela invasão de elefantes", disse Nascimento António, que não considera preocupante a situação de conflito homem/animal, embora a população humana esteja a aumentar e cada vez mais vai ocupando maior espaço, o que pode perturbar a circulação e o espaço desses animais, pelo facto de o seu habitat estar cercado de casas ou lavras.
"Alertamos aos proprietários de lavras, para assinalarem as rotas onde habitualmente são registados com maior incidência casos de conflitos, para que desta forma se alguém tencionar desenvolver ali alguma actividade terá uma certa precaução".
O Ministério do Ambiente está a trabalhar na identificação de regiões para a criação de novas áreas de conservação, principalmente nas zonas onde há o maior fluxo de animais. "O elefante é importante para o crescimento das florestas em ter-mos de extensão, quando ele se alimenta de sementes e por onde passar, vai deixan-
do estas a partir do seu excremento, e aí vão germinar e crescer árvores".
Para Nascimento António, é preciso que se criem, cada vez mais, outros mecanismos para afastar os animais. Os grandes agricultores podem optar pelo seguro de risco de âmbito natural. Do mesmo jeito que asseguram as suas zonas contra as calamidades naturais, também podem assegurar contra os danos às suas culturas".
O Ministério de tutela está também a estudar a hipótese de submeter à aprovação das autoridades do país uma proposta com vista a considerar o conflito homem/animal como calamidade natural, "porque se o Governo protege o animal, também não podemos deixar que a comunidade sofra com isso".
De acordo com Nascimento António, noutros países, quando há registos de danos de maiores amplitudes, o Governo cobre as comunidades afectadas, ressarcindo os bens perdidos. "Não seria de todo mau termos também isso em prática, aqui em Angola".

Tráfico de animais

O director nacional da Biodiversidade admitiu que a maioria do marfim apreendido no nosso país, seja de trânsito, não tem origem em território angolano, tendo realçado que a amplitude de apreensões desses artefactos tem reduzido, estando agora as atenções viradas para o tráfico de escamas, unhas de leopardos e de gato selvagem.
No que diz respeito à entrada e saída de animais em território angolano, Nascimento António disse que existe um regulamento em prática, cuja acção está cada vez mais controlada.
"Em todas as nossas fronteiras, quando há registos de qualquer situação relacionada com a entrada e saída de animais, o Ministério do Ambiente é chamado para intervir e dar a sua opinião em relação ao tratamento que deve se dar ao produto apreendido".
Em termos de controlo, o país está num bom caminho, tendo afirmado que as pessoas já estão sensibilizadas sobre os critérios a terem em conta quanto à entrada e saída de animais. "Se algum indivíduo pretender trazer para Angola ou levar um animal para criação deve tratar de toda a documentação, junto das instituições autorizadas no país de partida e de destino".
Existe uma lista de animais para entrada e saída do país. O papagaio cinzento é uma espécie de ave legal para a exportação e a mais requerida, enquanto que artefactos, como peles de elefantes e crocodilos, só saem com a devida documentação.
Nascimento António fez saber que o Ministério da Agricultura está a trabalhar na elaboração de um Regulamento de Caça que vai aferir quais os animais que devem ser abatidos e os que devem ser protegidos.

Angola discorda da transferência do elefante

A República de Angola é contra a posição de alguns países da região da SADC, que propõem a transferência do elefante africano do Anexo I para o II da Convenção sobre o Comércio Ilegal de Fauna e da Flora Selvagem (CITES), por desconhecer o número da sua população.
As propostas das Repúblicas da Zâmbia, Botswana e Namíbia serão apresentadas, em sessão plenária, durante a 18ª Conferência das Partes sobre o Comércio Ilegal das Espécies da Fauna e Flora Selvagem (COP 18), em que Angola é representada por uma delegação multisectorial, entre os quais técnicos do Ministério do Ambiente, da Embaixada do país na Suíça e consultores.
Angola fundamenta que, se apoiar a proposta dos outros países da SADC, colocará em causa as espécies no país, visto que o Anexo II das CITES, que inclui as espécies que não estão necessariamente em ameaças de extinção, mas que podem ser comercializadas, não são rigorosamente controladas.
Segundo a consultora para Conservação da Biodiversidade em Angola, Tamara Ron, a redução do estatuto do elefante africano pelos países referidos poderá aumentar a caça furtiva e o comércio ilegal, com sérios problemas para Angola. "Angola não pode aceitar uma resolução que não vai beneficiar em nada, mas sim sofrer. Temos de entender que os elefantes são a mes-ma população e todos os países devem trabalhar em conjunto, para criar as condições, para que esta população animal seja protegida a nível regional e não nacional”, defendeu, sublinhando que o elefante é um animal migratório e passa os limites de países transfronteiriços. “Pesquisas feitas, com base em GPS, revelam o movimento de elefantes que saíram de Angola para países vizinhos, por isso, quando esse animal pisa em Angola é de Angola e o mesmo acontece quando pisa a Namíbia ou Zâmbia pertence a estes países “, observou a especialista.
Desta feita, defende que os países considerem ser “uma população“ todos os elefantes que passam na área do Kaza-Okavango, que cobre os cinco países.
Angola, acrescentou, ainda tem recebido muitos dos elefantes que saíram do país por várias razões, removendo as barreiras entre a região do Cuando Cubango e a faixa de Caprivi e entre Caprivi e Botswana, onde existe uma vedação que deve ser desfeita. Tão logo forem removidas as barreiras, a especialista defende a estabilização da fiscalização, para evitar a caça furtiva.
A pressão exercida pelos elefantes (conflito homem-elefante) nos países propõe-se à transferência do Anexo I para Il, o que constitui um dos motivos apresentados.
Neste dia de trabalho, os delegados a COP 18 estão a discutir vários documentos, entre os quais o comércio de carne de caça, a adopção de novos idiomas nos grupos de trabalho e os fundos da CITES.
A COP18 decorre no Centro de conferências de Palexpo, em Genebra, de 16 a 28 do mês em curso.