Reportagem

Luanda mostrou poderio agropecuário e industrial

Os nove municípios que compõe a província de Luanda demonstraram capacidade e potencial nos vários domínios da actividade económica, com destaque para o agronegócio durante a 1ª Edição da Feira de Negócios dos Municípios de Luanda (FMUL-2019), que decorreu de 23 a 27 do corrente mês, nas instalações do Mercado Abastecedor do Benfica, sob lema: “O desafio da Agrologística no Escoamento da Produção Nacional”.

Num espaço de 20 mil metros quadrados, os 150 expositores apresentaram uma vasta gama de produtos produzidos em Luanda, com destaque para os produtos do campo, artesanato, vestuário, cosméticos, móveis e decoração e serviços bancários.
À reportagem do Jornal de Angola, os expositores apontaram como principais constrangimentos os altos custos de produção e o escoamento para os principais mercados de Luanda.

Agricultura em Cacuaco

O director municipal da Agricultura, Pecuária e Pescas de Cacuaco, José de Castro, disse que mais de 40 mil cidadãos da comuna da Funda, município de Cacuaco, vivem da agricultura familiar. A Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA), acrescentou, controla oito mil famílias camponesas, sendo que cada família camponesa é constituída por cinco ou mais elementos.
O município de Cacuaco possui 17 cooperativas, duas associações de camponeses, dois núcleos individuais e vários camponeses independentes. A agricultura, como uma das principais actividades económicas de Cacuaco, tem permitido a criação de vários postos de trabalho indirectos.
“Figuram nesta cadeia os mototaxistas, roboteiros, zungueiras, quitandeiras, vendedores de saco de plástico, que exercem a sua actividade nos mercados do `Sabadão´ e do 30, conside-rados os maiores abastecedores de produtos agrícolas na província de Luanda”, esclareceu.
Na comuna da Funda, mais de 2.400 hectares estão a ser usados para a produção de batata, jimboa, tomate, cebola, mandioca, milho, beringela, cenoura, couve, cana-de-açucar, entre ou-tros. “O sector agrícola é responsável pela estabilidade das famílias na comuna”, sublinhou.
José de Castro defende que o Governo deve continuar a apoiar o sector agrícola, por ser uma das formas de se combater a fome e a pobreza, criando mais postos de trabalho e melhorando a renda familiar.
O Governo, referiu, disponibilizou 900 tractores aos camponeses, que vão ajudar na preparação dos solos.

Dificuldades no escoamento
O estado avançado de degradação da estrada entre Kifangondo e a comuna da Funda constitui um dos constrangimentos para o escoamento da produção agrícola. Por isso, os camponeses do município de Cacuaco pedem a sua reabilitação urgente e a recuperação de algumas vias secundárias e terciárias que dão acesso às fazendas, quintas e pequenas lavras.
A reportagem do Jornal de Angola constatou que o troço Funda/Kifangondo, além de muito estreito, possui lombas e buracos enormes que atrasam a chegada dos produtos aos mercados.
O director municipal da Agricultura, Pecuária e Pescas de Cacuaco aponta também como constrangimento as inundações, o desassoreamento de algumas valas de irrigação e de drenagem.
Apesar disso, José de Castro assegurou que os camponeses de Cacuaco vão continuar a fornecer produtos do campo em quantidade e qualidade à província de Luanda. O excedente da produção de tomate e cebola, referiu, será escoado para as províncias do Uíge, Lunda-Norte e Lunda-Sul.

Pecuária
Há 20 anos, o grupo empresarial ASAAPA investe na criação de gado e aves no município de Cacuaco. Na feira dos municípios, apresentou uma vasta gama de produtos, com destaque para ovos e aves.
O grupo, segundo o seu director-geral, Nito da Silva, possui cerca de 40 mil galinhas poedeiras e 30 mil para o consumo doméstico. Com essa capacidade, assegurou, comercializa cerca de 30 mil ovos por dia e cerca de 15 mil galinhas por mês, dos quais sete mil frangos e o restante galinha rija. O preço de uma ave varia entre os 900 e 1000 kwanzas. Já a caixa de ovos custa 15 mil Kwanzas.
“Temos capacidade para produzir mais, mas, devido a escassez de divisas para a aquisição da matéria-prima, não tem sido possível elevar os níveis de produção”, disse.
Os seus principais clientes são as redes de supermercados de Luanda, mercados informais, hotéis e quitandeiras. O grupo também dedica-se a importação de incubadoras avícolas, enxadas, motobombas e ração animal.

Talatona aposta na hidroponia
A hidroponia é uma técnica de produção de vegetais sem a presença de solo, sendo que uma das formas de implementação é manter as plantas com suas raízes suspensas em meio líquido, de onde se retiram nutrientes essenciais.
É esse sistema que a empresa Hidroponia Angola, localizada no município de Talatona, em Luanda, decidiu apostar há cinco anos.
A técnica é também denominada por agricultura sem solo e desenvolvida à base de água em períodos curtos e resultou de um investimento acima de 200 milhões de kwanzas.
O responsável da empresa, Rui Vasconcelos, sublinha que a hidroponia é um sistema de produção agrícola e ajuda a controlar o estado de saúde das populações, sobretudo, no controlo das hormonas e progesteronas.
O projecto produz hortícolas, ração animal, brotos de milho, plantas, ração seca hidropónica, folha de abóbora. As sementes germinam com luminosidade, temperatura e rega sem agrotóxicos. “Temos uma capacidade diária de produção de uma tonelada de produtos e 30 mil toneladas por mês, num espaço de 150 metros quadrados”, afirmou.
Rui Vasconcelos explicou que os produtos são apropriados para detox e específicos para desportistas, sendo três vezes mais produtivo que a agricultura convencional.
Os produtos são comercializados em restaurantes e em alguns supermercados. Numa primeira fase, a Hidroponia Angola criou 30 postos de trabalho e prevê empregar na segunda fase mais de 100 trabalhadores.

Quiçama é referência
O município da Quiçama, situado na região centro sul de Luanda é conhecido pelo seu potencial turístico, agrícola e pesca artesanal, actividades económicas de grande importância para a diversificação da economia e geração de receitas para os cofres do Estado.
A Administração Municipal da Quiçama apresentou as potencialidades nos domínios dos recursos minerais, com foco no sal-gema, proveniente da água doce e consumido sem qualquer processo de transformação, ferro, manganês, granito, gesso e calcário.
Uma fonte ligada à Administração Municipal disse ao Jornal de Angola que, a par da melhoria das vias de acesso, existem programas para a indústria hoteleira no Pólo Turístico de Cabo Ledo, bem como de fomento da agricultura na margem do Rio Kwanza.
O município tem como referências o Parque Nacional da Quiçama, que ocupa uma área de 9.600 quilómetros quadrados e uma fauna e flora diversificada. Um dos principais pontos de atracção turística é o Santuário da Nossa Senhora da Conceição, também conhecida como Nossa Senhora da Muxima, que todos os anos recebe milhares de peregrinos.

Fábrica de chouriço

Um dos produtos que chamou atenção dos feirantes e foi muito comercializado durante a primeira edição da Feira de Negócios dos Municípios de Luanda foi o chouriço caseiro produzido a partir de uma fábrica instalada na capital,cuja iniciativa empreendedora é da empresa Benjamin Afonso e Filhos que apostou no produto. Ao que apurou o Jornal de Angola, a carne para produção dessa iguaria é proveniente de uma fazenda de suínos na província do Moxico. Além disso, a fábrica produz também torresmo, carne fuma-da, carnes frescas, água mineral e mel. Embora tenha uma loja fixa algures em Luanda, a empresa aproveitou a feira dos municípios para expor a vasta gama de produtos que comercializa e captar novos clientes.
O representante do projecto, Paulo Paciente, disse que a fábrica produz por dia um milhão de chouriços caseiro. “Um quilo de chouriço caseiro custa 4.000 kwanzas e a unidade 1.000 kwanzas, ao passo que dois quilos de carne fresca de vaca custa 2.500 kwanzas. Já o quilo de carne de porco fumada está no valor de 1.500 kwanzas e o quilo de carne de porco fresca custa 1.000 kwanzas”, disse.
Paulo Paciente conta que o mel é também um dos produtos mais procurados, sendo que uma garrafa de um litro e meio deste produto custa 3.000 Kwanzas, e a de 600 mililitros está no valor de 1.000 Kwanzas. “Os restaurantes da centralidade do Kilamba são os es-tabelecimentos que mais solicitam os nossos produtos”, referiu, tendo revelado que, a partir do mês de No-vembro, a fábrica dará inicio à produção de chouriço de vaca.
O objectivo na feira, disse, foi apresentar os produtos, captar clientes e possíveis parceiros de negócios. Sublinhou que o escoamento tem sido um dos entraves na cadeia de produção, o que fez com que implantassem a unidade fabril em Luanda.

Pontos negativos
A 1ª edição da Feira de Negócios dos Municípios Luanda teve como meta fomentar o agronegócio, assim como mostrar ao produtor rural a importância de se capacitar através das novas tecnologias da indústria de maquinarias e equipamentos. O evento ficou marcado pela negativa devido a fraca adesão de expositores, visitantes, falhas no sistema eléctrico, desordem no protocolo, atrasos, assim como preços altos na feira da alimentação, segundo apurou a reportagem do Jornal de Angola.
Na praça da alimentação, alguns visitantes reclamaram dos altos preços praticados, como é o caso de Paulo Jorge. Segundo disse, não se justificava numa feira, onde se queria promover os produtos nacionais,os preços serem tão exorbitantes.
“Uma garrafa de água peque-na a ser comercializada a 300 kwanzas é especulativo”, desabafou.
A garrafa de água mineral de um litro e meio custava 500 kwanzas, ao passo que uma gasosa era vendida a 300 kwanzas. “Se a ideia é promover o nacional e fazer com que as pessoas consumam cada vez mais o `made in Angola´, é preciso que a organização reveja os critérios de selecção dos feirantes e deve haver maior controlo e fiscalização nos preços fixados”, apelou.
Os preços das refeições variam entre 2.500 kwanzas a 3.000 mil, dependendo do gosto e preferência do cliente. “Temos de começar a avaliar bem o que queremos quando pensamos em realizar eventos do género, sobretudo, quando se trata de divulgar os produtos locais”, disse Adriano Manuel.
O Jornal de Angola contactou a MD-Eventos, empresa responsável pela organização da feira a fim de apurar o balanço do avento, mas não teve sucesso.

Viana quer ser líder na produção de enchidos

O município de Viana é considerado o principal parque industrial da província de Luanda. Este ano foi instalada uma fábrica especializada na produção de enchidos, como chouriços extra, corrente, picante, paio, bacon, farinheira e morcela, produtos que estiveram em exposição na 1ª edição da Feira de negócios dos Municípios de Luanda.
Denominada “Mestre Akino”, o empreendimento está inserido na Zona Económica Especial (ZEE) e criou 20 postos de trabalho directos e 25 indirectos.
O director de produção, Joaquim Pinto, disse que a fábrica tem capacidade de produzir 35 toneladas por mês.
Joaquim Pinto referiu que a produção interna de suínos não satisfaz a procura industrial, por isso, o recurso tem sido o mercado externo por via de importações em países como Portugal, África do Sul e Brasil. “Não tem sido uma tarefa fácil, em função da actual situação cambial que o país atravessa”, lamentou o empresário, sem avançar os custos da importação.
Por outro lado, Viana apresentou também o projecto de Desenvolvimento Económico Integrado do Distrito do Zango, com a apresentação da maquete de um hotel que se pretende edificar no Zango 4, caso algum investidor queira comprar o projecto e implementar naquela parcela do município.

Belas aposta no sabão

A feira foi também marcada pela presença da Associação de Mulheres Ambientalistas Angolanas (AMA), que representou o município de Belas. A associação produz manualmente sabão, produto feito à base de óleo de cozinha utilizado em muitos hotéis e restaurantes, conforme contou à reportagem do Jornal de Angola, Isabel Clementina que lidera o grupo.
A ambientalista precisou que a produção do sabão “Eco Belas” depende também da quantidade de soda cáustica, outro elemento além do óleo e da água para produzir o produto, tendo referido que num quilo de soda gasta-se 10 litros de óleo, resultando em mais de 49 quadras de sabão.
“São produtos nacionais com qualidade e baratos, mas a principal dificuldade reside na falta de transporte para expandir o negócio e fazer a recolha da matéria-prima nos vários estabelecimentos existentes em Luanda, com destaque para as unidades hoteleiras”, apontou a empreendedora.
Esclareceu que os produtos são comercializados por várias mulheres nas zonas em que vivem como forma de dar a conhecer a existência do negócio, assim como nas cantinas e mercados. “Por dia podemos produzir mais de 600 quadras de sabão e o retorno tem sido positivo, apesar da desconfiança de alguns consumidores”, disse.
Isabel Clementina assegurou que as mulheres filiadas na AMA beneficiaram de uma acção de formação que as permite manejar a matéria-prima e produzir sabão. Na feira, o sabão estava a ser comercializado ao preço de 100 kwanzas as quadras de 14 a 15 centíme-tros de cumprimento.

Frutos secos

Neste particular, o município de Belas também demonstrou potencial para a produção de chás naturais de folhas secas de hortelã, hibisco, moringa, caxinde e limão, todos de produção nacional representadas pela empresa ESSE, que de forma tímida já circulam no mercado, conforme ficou patente na feira. O representante de vendas da empresa, Dilson Pedro, realçou que os chás podem ser encontrados em alguns supermercados de Luanda, como Kibabo e AngoMart. Outra aposta da ESSE é a transformação de produtos secos, como a banana, cascas de laranja, limão, gengibre, cereais à base de ginguba, leite, gindungo e tomate em rodelas, que podem servir como aperitivos. Os cereais secos podem ser introduzidos na dieta alimentar das crianças e até mesmo substituir as batatas fritas que contêm um alto nível de colesterol.
“São produtos naturais e 100% angolano. O chá de hibisco avermelhado sem gosto nem aroma ajuda a emagrecer e é muito relaxante, sendo que só não se recomenda para as pessoas hipertensas”, explicou.
Dilson Pedro disse que todos os produtos são testados laboratorialmente, mesmo depois do processo de secagem por uma máqui-na apropriada para o efeito, o que permite manter as suas propriedades. Localizada na Zona Verde, no bairro Santa Marta, os responsáveis têm como meta divulgar os produtos e expandí-los em outros mercados, além de Luanda.