Reportagem

Mandela, o desafio de mudar o mundo

A vida do ícone sul-africano foi condimentada com ingredientes que prometiam mudar o curso da história: nascido de raízes humildes, conseguiu formar-se em Direito (e exercer a profissão), no seio de um regime político que não permitia à maioria negra a veleidade de sonhar com o futuro.

A vida do ícone sul-africano foi condimentada com ingredientes que prometiam mudar o curso da história: nascido de raízes humildes, conseguiu formar-se em Direito (e exercer a profissão), no seio de um regime político que não permitia à maioria negra a veleidade de sonhar com o futuro. Mas nem sempre a boa-fé é suficiente para remover as montanhas que impedem o sucesso colectivo.
Depois de se ter afirmado também como líder político do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) e comandante-em-chefe da luta armada sul-africana, Nelson Mandela ficou preso durante 27 anos (1963-1990).

O advogado, político e guerrilheiro sul-africano não foi apenas o rosto da reconciliação nacional da África do Sul. Nelson Mandela tornou-se uma referência mundial sobre perdão e defesa da democracia, ainda que nos últimos anos a sua imagem, mas sobretudo o legado, comece a ser analisado pelas novas gerações - que não viveram o Apartheid, nem a longa resistência de Madiba - do seu próprio país.
Já passaram mais de 25 anos desde que a África do Sul incinerou uma boa parte de um regime político intragável. Mas uma certa estruturação da vida política, social e económica parece não ter dobrado completamente a esquina, sobretudo quando analisamos os rostos da pobreza e da desigualdade: continuam a ser negros.

Em 2015, o Banco Mundial considerou mesmo a África do Sul a sociedade mais desigual do mundo, estimando que os 10 por cento mais ricos possuíam 70 por cento dos activos da Nação. 60 por cento da população mais pobre, composta por negros, mestiços e descendentes de asiáticos, controlavam apenas 7 por cento da riqueza líquida. Metade da população sul-africana (cerca de 58 milhões) continua a viver com menos de 5 dólares por dia.

A sociedade questiona agora o direito ao perdão, as questões económicas por resolver, a racialização da sociedade herdada do Apartheid e como resolver este problema, a apropriação da democracia e do país por parte dos antigos excluídos e o papel dos diferentes grupos étnicos no seio daquele país.
Em paralelo, e por incrível que pareça, Nelson Mandela foi se tornando mais num ícone global e menos num ícone africano, sobretudo para as novas gerações, que questionam a idolatria com os olhos postos na janela - que herói foi este que não resolveu a pobreza extrema, por exemplo, e que nos embalou numa quimera sem solução à vista?

A análise destas questões profundas é complexa. “Hoje, os desafios são outros. Nelson Mandela representa um tempo, um espaço, um discurso que fazia sentido naquela época. Foi assim que ele foi capaz de construir a nação. Era, acima de tudo, um homem bom. Mas o futuro da África do Sul está dependente das actuais e futuras lideranças políticas do país. O próprio ANC enfrenta uma série de dissidências internas e é preciso ter outra sensibilidade para os problemas”, frisava Manuel Augusto, então Secretário de Estado das Relações Exteriores (chegou mesmo a ministro na gestão de João Lourenço), em 2014, ao jornal online Rede Angola (que já não está em funcionamento apesar de manter o arquivo disponível).

Angola e Mandela

Também em Angola a memória de Nelson Mandela tornou-se difusa. De referência para os angolanos mais velhos, as novas gerações conhecem a figura, mas talvez não encontrem grandes pontos de contacto com os desafios actuais, internos e regionais. No entanto, a relação entre Angola e Madiba é próxima ou deveria ser.

Para além do país ter acolhido e financiado a guerrilha do ANC e da SWAPO (Namíbia), há quem defenda que Angola perdeu 10 a 15 anos de vida útil com a intervenção directa no conflito sul-africano. O regime do Apartheid nunca perdoou esta atitude e, entre outros motivos, será uma das causas para os conflitos militares entre os dois países no pós-11 de Novembro de 1975.
Há mais argumentos. Cerca de três meses após a libertação do cativeiro, Mandela decidiu fazer a sua primeira viagem ao estrangeiro: escolheu Luanda, Angola.
Assim, no dia 10 de Maio de 1990, em pleno Largo 1.º de Maio, junto à estátua de Agostinho Neto, Nelson Mandela dirigiu-se aos angolanos. Começou assim.

“É uma honra e um prazer para mim e para a minha delegação colocarmos os pés no solo de Angola. Eu não tive a honra de conhecer o camarada Presidente Agostinho Neto. A primeira vez que tomei conhecimento da sua existência foi em 1959. Nós conhecemo-lo como um combatente da liberdade, corajoso e dedicado chefe do MPLA. Quando recebi o convite para visitar Angola, solicitei logo ao camarada Presidente dos Santos que me proporcionasse a oportunidade de prestar homenagem ao túmulo do camarada Presidente Agostinho Neto”. E depois: “Esta manhã eu coloquei uma coroa de flores na sua sepultura. Poucas vezes na minha vida me emocionei tanto, como quando vi o seu túmulo”, disse Mandela.
Manuel Augusto contextualiza aquela visita altamente simbólica, que aconteceu ainda antes da viagem oficial realizada em 1998, quando o sul-africano já era Presidente da República.

“É preciso, de facto, entender o que estava em causa naquela altura. Ao longo do tempo que passei na África do Sul, tive o prazer de conviver por diversas vezes com Nelson Mandela. E posso dizer que, na sua primeira visita a Luanda, tinha inúmeros convites - como todos podem imaginar - para visitar uma série de países. Todos, mesmo aqueles que contribuíram para o seu encarceramento, queriam aparecer ao lado de Mandela. Mas ele fez questão de assinalar o papel determinante de Angola na luta contra o Apartheid. Fez questão de vir a Luanda. Foi um gesto que calou muito bem em Angola; foi um reconhecimento público vindo de uma grande referência, numa altura complicada do país”, recordou Manuel Augusto ao Rede Angola.

O legado que se transformou em quimera é sobretudo um caminho de pacifismo sem renegar o vigor das convicções, dos direitos universais e da liberdade colectiva e individual. O resto dos problemas - complexos, injustos e intrincados - terão de ser resolvidos pelas gerações que sucederam Nelson Mandela. A via está traçada.

O que é o Dia

O Dia Internacional Nelson Mandela (ou "Mandela Day", em inglês) é uma data de homenagem ao político sul-africano, comemorada todos os anos em 18 de Julho, dia do seu aniversário. Foi oficialmente declarado pelas Nações Unidas em Novembro de 2009.
A data celebra a ideia de que cada indivíduo tem o poder de transformar o mundo e a capacidade de causar impacto positivo.
Em 2020, a comemoração pretende motivar as pessoas a reunir-se para fomentar iniciativas em torno do fornecimento de pacotes de alimentos, fabricação de máscaras e equipamentos de protecção ou ensino online devido à pandemia de Covid-19.

Influente entre a juventude africana

A luta do ex-Presidente sul-africano Nelson Mandela pela liberdade e pelos direitos humanos faz dele a pessoa mais influente entre a juventude africana, de acordo com um inquérito realizado no continente.
O legado de Mandela está vivo, sete anos após a sua morte, de acordo com uma sondagem realizada aos jovens em 14 países africanos, na qual 86% dos inquiridos afirmaram que os seus valores ainda hoje são relevantes.
Estes resultados do inquérito foram divulgados ontem, na véspera do aniversário de Mandela, pela Fundação da Família Ichikowitz.

A posição de Mandela contra a desigualdade é pertinente para ajudar os africanos a combater a Covid-19, que está a crescer em toda a África do Sul e no continente, disse a Fundação Nelson Mandela, que se congratulou com as conclusões do levantamento.
“A pandemia expôs as grandes desigualdades em todo o mundo, as lacunas gritantes entre os que têm e os que não têm, e muitos em África confrontam-se com a sobrevivência ameaçada devido à falta de acesso aos cuidados de saúde”, disse Luzuko Koti, porta-voz da fundação.

De acordo com os resultados, 55% dos inquiridos afirmaram que Mandela, mais do que qualquer outro, teve o maior impacto em África. A sondagem questionou 4.200 jovens, homens e mulheres de 18 aos 24 anos, na República do Congo, Etiópia, Gabão, Ghana, Quénia, Nigéria, Mali, Malawi, Rwanda, Senegal, África do Sul, Togo, Zâmbia e Zimbabwe.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) fará a palestra anual dedicada a Mandela, hoje, dia do seu aniversário.