Reportagem

Quando o sonho se transforma em pesadelo

O casamento constitui um dos momentos mais altos da vida de duas pessoas que decidem viver juntas. Infelizmente, ciúmes, desconfiança e infidelidade acabam por colocar em risco uma relação que parecia promissora. Assim, surgem as agressões físicas entre casais e, em muitos casos, a ocorrência de assassinatos. O sonho transforma-se num verdadeiro pesadelo

Ciúmes e desconfiança levaram Abraão José, 28 anos, a matar a esposa, Tânia Teresa, 25, na manhã do dia 24 de Abril do ano passado. Testemunhas contam que as discussões entre o casal eram uma constante. 

Naquele fatídico dia, a vítima, que se dedicava ao comércio de bens diversos num dos mercados do Zango, recebeu um telefonema de um suposto cliente. Desconfiado, José exigiu que a esposa voltasse a ligar para o mesmo número, mas esta recusou.
Tomado pelo ciúme, Abraão José decidiu acabar tudo naquele momento. Pegou numa arma de fogo, disparou mortalmente contra a mulher e depois suicidou-se com um tiro na cabeça. O casal, que vivia no município de Icolo e Bengo, deixou quatro filhos menores. Os familiares, surpresos, garantem que nada fazia prever um fim tão trágico.
Outro caso de homicídio acompanhado de suicídio envolveu a funcionária bancária Neusa Andrade, 42 anos, e o marido, António Castro. No dia 16 de Maio, Castro atingiu mortalmente a esposa com um tiro na cabeça e depois notou-se com um disparo no pescoço.
O porta-voz do Serviço de Investigaçao Criminal (SIC), superintendente Fernando de Carvalho, disse que, antes de morrer, Neusa Andrade, de nacionalidade cabo-verdiana, foi agredida fisicamente pelo companheiro.
Outro crime que assombrou Luanda foi a morte bárbara da jovem advogada Carolina da Silva, 26 anos, asssassinada pelo marido, Olívio da Silva. O crime ocorreu no dia 21 de Novembro de 2018, após uma acesa discussão. Sem remorsos, o criminoso, depois de consumar o acto, colocou o corpo da esposa numa fossa e foi à televisão simular o seu desaparecimento. Depois de apurada investigação, confessou o crime foi condenado pelo Tribunal Provincial de Luanda a 24 anos de prisão.
Os familiares da vítima descrevem Olívio da Silva como uma pessoa “excessivamente ciumenta, que chegou ao ponto de desviar as chamadas do telefone da mulher” para o dele.

Aguardam julgamento

Carla Domingos, 40 anos, aguarda julgamento por ter assassinado o marido, Ricardo Alfredo, em Viana. Motivada por ciúmes, esmagou os órgãos genitais do cônjuge até à morte, por ter supostamente engravidado uma amiga.
Carla Domingos, que teve em comum seis filhos com o malogrado, arrisca-se a uma pena de 24 anos de prisão maior.
Também por ciúmes, Paulo Benedito queimou a esposa, Juliana Rita, no bairro Catintom, em Luanda. O desentendimento entre o casal começou, quando a vítima recebeu uma chamada telefónica. Desconfinado, Benedito queimou a companheira com água quente. Está detido numa das esquadras de Luanda.
Os casos de assassinatos entre casais não ocorrem só em Luanda. Na província do Bié, Avelino Boano, 37 anos, matou, à machadada, a namorada Domingas Nawimbo,32, por a ter encontrado a conversar com um amigo. Tomado pela fúria, pegou numa catana e desferiu vários golpes na cabeça dela.

Agressões físicas

No primeiro trimestre do ano passado, a Polícia Nacional registou 160 crimes de violência doméstica. Deste número, 148 foram casos de agressões físicas cometidas por homens e 12 por mulheres. Em relação ao grau de parentesco, 41 casos foram cometidos por maridos, igual número por ex-maridos, 36 por ex-namorados, 20 por vizinhos e 17 por conhecidos das vítimas.
No II trimestre, foram registados 153 casos, todos cometidos por homens: 40 por maridos, 32 por ex-maridos, 14 por irmãos, 29 por ex-namorados, 23 por pais e 15 por vizinhos.

Controlo de armas

O psicólogo Ricardo Capachi defende “controlo mais rígido” sobre o uso de armas de fogo nas Forças Armadas Angolanas, autorizados a tê-los.
“Muitas armas de fogo estão em mãos erradas. Temos de ter uma base de dados das armas que entram no país”, disse.
O psicólogo defende, também, fiscalização mais rígida sobre a venda e consumo de álcool e a redução das assimetrias sociais.
“As assimetrias trazem consigo muitos problemas sociais”, referiu.

Penas de prisão

O jurista Domingos Betico lembra que os crimes de agressões físicas são punidos com penas que vão de dois a oito anos de prisão. “A pena a aplicar ao infractor depende da gravidade da lesão provocada à vítima”, disse.
O crime de homicídio voluntário, lembrou, pode ocorrer de forma voluntária ou negligente. Os artigos 349 e 351 do Código Penal de 1886, acrescenta, estabelecem que o voluntário pode ser simples ou qualificado.
“Para o crime de homicídio simples, o Código Penal estabelece uma pena que vai de 16 a 20 anos. Já para o qualificado, a moldura penal vai de 20 a 24 anos de prisão”, esclareceu.
Para o jurista, o índice de criminalidade não diminui radicalmente com o aumento das penas de prisão. A redução dos índices de criminalidade, disse, é uma tarefa de todos, principalmente da família, onde tudo começa.

Cursos de noivos

Tontom da Rocha Joaquim, 29 anos, e Delfina dos Santos Malembe, 25, faziam parte de um grupo de 88 casais que frequentaram o curso de noivos, na Paróquia da Igreja Católica de São Paulo. O casal, que contraiu matrimónio em Setembro, ia todos os domingos em busca de conhecimentos sobre temas que lhes podiam ser úteis na nova fase das vidas. “Aprendemos muito sobre o diálogo no lar, economia, como educar os filhos, entre outros temas”, reconhecem.

O advogado e palestrante João Castro, 58 anos, refere que aqueles cursos preparam os noivos a para encararem a nova fase da vida com maior responsabilidade. Afirma que transmitem conhecimentos sobre como se comportarem no lar, educar os filhos com base no amor, o respeito pelos valores culturais e a imoralidade sexual, entre outros.

A pastora da Igreja Metodista Unida de Bethel Analdina Nouemou revelou que centenas de jovens participam em cursos de noivos durante três meses. “A igreja deve ensinar a conviverem como casal e quais as responsabilidades matrimoniais de cada um”, disse, acrescentando que, na Igreja Metodista Unida os noivos aprendem noções básicas sobre saúde, nutrição, decoração do lar, economia, etiqueta e relação familiar.

O bispo supervisor da Igreja Josafat do Golf, Francisco da Silva, disse que o curso de noivos pode ser feito por membros da igreja e pessoas interessadas. Aquela denominação religiosa realiza seis casamentos por semana. Durante o mês de Dezembro são celebrados cerca de 50 e num ano mais de 200.

Transformações conjugais

O sociólogo Marcelino Pintinho considera que a sociedade angolana vive uma transformação profunda nas relações conjugais, marcadas por ciúmes, desconfianças e infidelidade. “Hoje, as pessoas mesmo sendo casadas ou comprometidas mantém relaçoes extra-conjugais e isso é perigoso.”
Esse cenário, disse, resulta em conflitos conjugais que acabam em mortes ou deixam sequelas profundas na vida da pessoa. Marcelino Pintinho aconselha as pessoas a ponderarem melhor as escolhas antes de contraírem matrimónio.
“Durante o namoro, deve-se conhecer bem o indivíduo e quando se perceber alguma tendência para comportamentos violentos, o melhor é terminar a relaçao antes que seja tarde demais”, disse, alertando que, expressões como “um dia vou matar-te” são um sinal de que tarde ou cedo, irá concretizar-se.
Marcelino Pintinho sublinha que “o homem, pelas características sociais, não está preparado para aceitar uma traição”. Já a mulher, pela natureza aliada à educação recebida dos pais, tem maior probabilidade de perdoar, porém perde a confiança no parceiro.
Numa relação, referiu, um deve ser o complemento do outro em todos os domínios. “Hoje, a expressão ‘atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher’ caiu em disuso. Ela foi substituída por uma outra, cientificamente comprovada, que é ‘ao lado de um grande homem, há sempre uma grande mulher’. Muitas vezes, ao lado de uma grande mulher, nem sempre há um grande homem”, disse.
O sociólogo apontas as diferenças académicas, económicas e profissionais como factores que também têm estado na base dos conflitos entre casais. Marcelino Pintinho defende que os cônjuges devem primar pelo diálogo, fidelidade, respeito, comprometimento e harmonia familiar.
“Quando notar que esses valores deixaram de existir, a solução é abrir mão dessa relação”, aconselha.

Ajuda de pessoas certas

O psicólogo Ricardo Capachi aconselha os casais a ultrapassarem, primeiro, as diferenças por via do diálogo e, caso não consigam, a procurarem ajuda de familiares ou de um especialista.
Para o psicólogo, a separação é sempre o caminho mais viável quando esgotam todas as tentativas de reconciliação. “Se houver diferenças irreconciliáveis, o melhor é acabar com a relação, que provavelmente já tem um histórico de violência física e psicológica, motivada ou não por ciúmes”, disse.
Ricardo Capachi mostra-se preocupado com as pessoas que se apegam excessivamente aos parceiros e têm dificuldades em aceitar o fim das relações conjugais. Esta situação, segundo ele, tem estado na origem de muitas mortes.

Tipos de ciúmes

Normal, neurótico ou obsessivo e delirante ou paranóico são os tipos conhecidos de ciúmes. De acordo com o psicólogo Ricardo Capachi, “o ciúme é normal porque faz parte da natureza humana”, justifica.
O ciúme neurótico ou obsessivo, explica, é caracterizado por um sentimento permanente de angústia e insegurança. “Este tipo de pessoa está constantemente em estado de tensão, teme ser traído ou abondonado pelo parceiro”, disse.
Os ciumentos neuróticos ou obsessivos têm tendência de fazer do parceiro um objecto de posse, não permitindo que tenha contacto frequente com familiares e amigos.
“Liga 10 a 20 vezes para o parceiro e não consegue ficar muito tempo sem ele. Invade a privacidade do outro, lê as mensagens, desvia as chamadas, cheira a roupa, revista a pasta, a carteira, em busca de alguma pista de traição”, detalha.
O psicólogo alerta que o ciúme delirante ou paranóico é o mais perigoso, na medida em que é baseado em crenças infundadas de traição e abandono, mesmo que, na realidade, não estejam a acontecer.
“O ciumento delirante ou paranóico suspeita sempre da mulher. Se ela vai à padaria, acha que vai trair com o padeiro. Se volta com olheiras, é suficiente para concluir que foi traído. Vive sob a fantasia de uma possível traição e pode ser extremamente agressivo e violento”, explicou.