Reportagem

Realojamento para Luanda Limpa está repleto de histórias de alegria e lágrimas

Tem o sorriso tímido, mas dá para contemplar a ex-pressão de alegria no rosto, já meio enrugado. É o que se pode notar, no instante, no semblante de dona Adelina Feliciana Pedro, que se encontra apoia-da à porta de casa, aliás, da nova habitação, que recebeu, há poucas semanas, no âmbito do processo de realojamento dos antigos moradores da zona do Benfica, à Ilha do Cabo.

Com o corpo franzino jo-gado para o canto esquerdo da porta de entrada princi-pal da casa número três, do quarteirão F1, no bairro Lu-anda Limpa, no Zango 4, onde agora vive, a idosa aprecia a rua, ainda com um frenesim miúdo, próprio de uma zona habitacional nova.
De 65 anos, Mamã Adelina, como, às vezes, é tratada pelos seus vizinhos, com os quais compartilha todas as vicissitudes de mais de uma dé-cada expostos a todos os riscos de viver em casotas de cha-pas e em tendas, diz ser agora uma pessoa mais alegre.
Semanas antes de receber a casa, no bairro Luanda Limpa, a anciã conta que teve um sonho. Na imaginação, um camião chega ao bairro de chapas, no Zango 1, juntamente com homens estranhos e transporta os moradores dos casebres para uma zona mais segura. Ali, relata, os antigos habitantes da zona do Benfica beneficiam de casas.
Quando o dia nasce, o sonho de Adelina Feliciana Pedro é interrompido pelo cantar dos pássaros. E a vida nas casotas de chapas continua, mas por pouco tempo. Os dias correm rápido e com esses a transformação de uma imaginação em realidade. Na verdade, o sonho de uma nova casa própria concretiza-se a 3 de Outubro.
Localizada no fim da rua, a casa da anciã é semelhante a muitas outras do projecto “Luanda Limpa”. Com as paredes pintadas a vermelho terra, a famosa cor de tijolo, e em branco, nalgumas partes do exterior, é aqui onde ela, juntamente com alguns netos, vai passar os próximos dias da sua vida.
Dentro da casa, quase nada ainda existe. Na sala, de cinco metros de comprimento e dois metros e meio de largura e pintada em tom branco, há duas cadeiras brancas e um pequeno banco de madeira, enquanto no primeiro dos dois quartos há três banheiras com roupa diversa.
“Ainda não trouxemos aqui nada. Na verdade, estamos ainda a nos instalar melhor, para, depois, pegar as pe-quenas coisas que deixamos em casas de pessoas próximas”, explica a velha, que, apesar de recordar situações bastante tristes vividas nas tendas do Zango 1, manifesta, sempre que pôde, com um sorriso, a alegria de vencer mais uma batalha da vida.
Mãe de sete filhos, já todos adultos, com os quais vivia na Ilha do Cabo, depois de ter chegado àquela parcela de Luanda, em 1979, Adelina Pedro recorda com lágrimas a neta, de nove anos, na altura, que viu “partir para o além”, pouco tempo depois de ter sido instalada, numa mesma tenda, com um grupo de pessoas de outras 12 famílias.
“A miúda, infelizmente, não aguentou o sofrimento”, desabafa. Esse infortúnio abala dona Adelina, seus filhos e netos, como acontece, igualmente, com centenas de outras famílias do pequeno bairro de tendas e chapas, surgido no Zango 1, para um período previsto de três meses, mas que levou mais de uma década, para começar a ser desmembrado!
“Foram mais de dez anos de muito sofrimento. Eram os mosquitos, ratos, frio, chuva, enfim. Tínhamos ali todas as coisas feias e desumanas que nenhuma família deveria viver na pele”, conta dona Adriana Handa, 42 anos, outra beneficiária de uma casa, no bairro Lu-anda Limpa.
Diferente de velha Adelina, que é uma exímia contadora de histórias, Adriana, mãe de duas filhas jovens e solteiras, é de poucas palavras. Ela tem quase sempre os olhos desviados do interlocutor e a voz sai fraca, como quem não quer falar. A senhora, que viveu na Ilha do Cabo, durante cerca de três anos, até ser desalojada, também partilhou uma tenda com mais outras 12 famílias.
Mesmo naquelas condições, conta, houve casais que conseguiram os primeiros filhos, não naturais da Ilha, mas do Zango. “Às vezes, os miúdos, alguns já adolescentes, estavam ao lado e os pais tomavam banho e satisfaziam algumas necessidades fisiológicas, praticamente, em frente dos filhos”, lamenta.
Histórias sobre as famílias nas casotas de chapas e em tendas são várias. Infelizmente, poucas são agradáveis, como insinua dona Adelina, que se encontra vestida de saia preta, com flores verdes e uma blusa de lã. Nos pés, tem chinelas pretas, enquanto o envelhecer dos cabelos está coberto por um lenço branco.
Para Adriana Handa, o mais importante é agradecer a Deus, pela casa que tem agora, e esperar que a vida lhe seja menos ingrata. “Na Ilha, eu tinha quase tudo. No Zango 1, perdi tudo, porque as tendas não resistiram à força das águas das chuvas...Tudo se perdeu”, lamenta.
E a vida não pára. Recomeçar é a palavra de ordem para as duas mulheres que professam a fé católica. “Temos certeza de que Deus proverá todas as condições para que possamos viver melhor, diferente do período que passámos nas tendas e nas casas de chapa naquele bairro infernal”, acreditam.
Devido às dificuldades que viveram, nos últimos dez anos, as duas mulheres apelam ao Governo para continuar a envidar esforços no sentido de retirar todas as pessoas que vivem em zonas de risco e criar condições para o seu realojamento. “Estamos a orar para que os nossos irmãos que ficaram também saiam de lá.”

Sono bem dormido

Hoje, as coisas estão melhores para as duas mulheres e as suas pequenas famílias. Aliás, dona Adelina recorda que, antes, a vida era tão complicada que nem sono tinha. “Estamos, nesses poucos dias, a dormir de verdade, graças a Deus”, realça.
Nas casas de chapa, nes-ta altura do ano, os morado-res suportam o calor, que con-
sideram infernal, e, quando chove, passam às noites a retirar a água que invade as casotas.
“Quase ninguém dorme quando chega o tempo da chuva. Se não surgirem problemas com as águas que destroem o pouco que se tem, surgem outros relacionados com o calor, quer de dia quer à noite”, realçam.
Neste momento, dona Adelina, a vizinha Adriana e outros 229 ex-moradores das tendas do Zango 1 habitam em me-lhores condições. Cada família tem uma casa habitável, embora ainda com piso à base de cimento, vulgo chão bruto, com luz eléctrica e mais segurança. Enquanto isso, no bairro em que saíram, perto de três mil famílias ainda continuam a viver o drama das casas de chapas.
Inicialmente, chegaram às tendas, em Abril de 2009, transferidas da Ilha do Cabo, área do Benfica, para uma zona baldia do Zango 1, 2.400 famílias, às quais se juntaram, anos depois, mais 1.380 famílias, consideradas pelas primeiras pessoas infiltradas.
Três anos após terem chegado ao bairro de chapas do Distrito Urbano do Zango, a esperança por dias melhores tinha dado o “ar da sua gra-ça”, quando um grupo de 440 famílias teve a sorte de beneficiar de habitações no Zango 3A, nas conhecidas casas “Tchuna Baby”, designação atribuída porque, embora cada casa tenha dois quartos, sala e casa de banho, os compartimentos são pequenos.

Água é o maior problema

Voltando às casas do bairro Luanda Limpa, apesar da satisfação dos moradores, um problema ainda faz recordar as “makas” do bairro de chapas: a falta de água potável.
Para conseguirem água, os novos e antigos inquilinos da-quela parcela do Distrito Urbano do Zango são obrigados a recorrer aos serviços de camiões-cisternas, que vendem aos moradores o produto em pequenos recipientes. Por exemplo, 20 litros são adquiridos a 50 kwanzas.
“São muitos gastos para quem já não trabalha e de-pende de terceiros para comer, beber e vestir”, desabafa dona Adelina. A idosa padece, há 42 anos, de bócio, doença que lhe causa muita coceira na garganta, tosse e, às vezes, não dorme de tanta dor.
Antiga revendedora de roupa, adquirida em Ponta Negra, na República do Congo, e de pães, produzidos em casa, dona Adelina diz ter a vida transformada num mar de dificuldades, até para tomar o pequeno-almoço. São quase 15h00, quando mantém um diálogo com os repórteres, mas só tinha tomado chá com um pouco de pão.
“Sinto muito pelos meus netos e por outras crianças do bairro que passam fome, porque a maioria de nós é desempregada. E os filhos sofrem com isso”, desabafa a velha, que tem seis dos sete filhos a viverem ainda no “Condomínio de Prata”, como é, também, conhecida a área de onde saiu, no Zango 1.

Ensino e saúde ainda em falta

Além da questão da falta de água potável, o ensino e a assistência médica são outros serviços que os moradores querem ver instalados, nos próximos dias, no Luanda Limpa, um bairro habitado há alguns anos.
As crianças, por falta de escola, ou têm de continuar a viver em casas de vizinhos, no Zango 1, ou fazerem um longo percurso entre o Luanda Limpa e o bairro antigo, para não perderem o ano lectivo, prestes a terminar.
No campo da saúde, a assistência é igualmente um bico d’obra para os novos inquilinos do Luanda Limpa. Sem uma unidade de saúde na zona, os moradores são obrigados a recorrer a serviços privados ou a deslocarem-se ao Hospital Municipal do Zan-go, distante da área em que vivem, actualmente.
Em resposta, o governador provincial de Luanda, Sérgio Luther Rescova, em entrevista, há dias, ao principal serviço informativo da Televisão Pública de Angola (TPA), assegurou que esforços estão a ser envidados para que esses problemas sejam resolvidos o mais rápido possível.
O governador pediu paciência e maior colaboração dos próprios realojados, para que os processos de transferência dos sinistrados e de instalação de todos os serviços em falta no bairro Luanda Limpa possam ser mais céleres.
“Neste momento, para nós, o mais importante era tirar a população daquela situação desumana em que viviam. Por isso, vamos continuar a buscar mecanismos para retirar dali os que ainda ficaram em casas de chapas”, disse Luther Rescova.
O governador anunciou uma série de projectos a nível de certas zonas de Luanda, para acabar com as construções em zonas de risco. A ideia, salientou o governador, é evitar que a província continue a registar sinistros por situações que podem ser prevenidas.

Acusações à mistura
Enquanto se espera pela materialização desses processos do Governo Provincial de Luanda, as casotas de chapas, no Zango 1, continuam a acolher milhares de cidadãos.
Alguns moradores acusam os membros da coordenação do processo de estarem a cometer falcatruas na transferência e entrega de casas e dizem não ser verdadeiro o número de realojados apresentado à imprensa.
Para os denunciantes, não foram realojadas 231 famílias, como foi divulgado à imprensa pela coordenação do processo, porque o número real de transferidos não ultrapassa os 180. Daí, terem sugerido ao governador da província de Luanda para mandar instaurar um inquérito com vista à clarificação do problema.
É o que pensa o morador Luís, que se recusou a mencionar o apelido. Luís diz haver negócios obscuros, com o argumento de que “muitos moradores que viviam na zona do Benfica, à Ilha do Cabo, não constam das listas de beneficiários”, como é o seu caso e de Justino Sandemba.
“A nossa ideia é irmos ao Governo Provincial de Luanda manifestar o nosso descontentamento. Aqui, está a acontecer máfia”, acentou o morador Luís.
Por sua vez, o coordenador adjunto do bairro de chapas, Américo Jorge, anunciou que vai decorrer, em breve, a realização de uma campanha de cadastramento dos moradores e de contagem de casas, para confirmar a veracidade das acusações de vizinhos, feitas contra membros da equipa do Governo Provincial de Luanda que trabalha no processo de realojamento.
O coordenador adjunto pede às autoridades para recorrerem às listas feitas, inicialmente, pelo antigo Ministério da Assistência e Reinserção Social (Minars) e pelo Programa Provincial de Habitação Social (PPHS), no sentido de conferirem os verdadeiros moradores do Benfica e candidatos às casas.
“Se forem ver essas listas, vamos fazer com que nenhum morador, vindo do Benfica, fique de fora ou prejudicado”, diz, para avançar que desta parcela da Ilha do Cabo saíram 1.975 famílias, sem contar com outras que vieram posteriormente, o que veio dar em cerca de três mil famílias.
“Temos infiltrados”, sentencia Justino Sandemba, outro morador das casotas de chapas, para quem os que estiveram à frente deste processo é que arrumaram esses problemas de infiltração de pessoas estranhas. “Há pessoas que nunca as vimos na Ilha e receberam, em 2013, casas.”

Cemitério de pessoas vivas

Os moradores, desde a sua instalação em tendas, na zona do Zango 1, enfrentam vários problemas. Os mais preocupantes têm a ver com a saúde, educação, prostituição, alcoolismo, desemprego, delinquência juvenil e violência doméstica. A lista de dificuldades é enorme, como alguns fazem questão de referir.
Para minimizar um dos principais problemas, os moradores er-guem casotas de chapas, uma vez que as tendas já não resistem ao tem-
po. Cada família, na sua maioria, com mais de cinco elementos, constrói a sua cubata, constituída por um compartimento apenas; um quarto, que serve igualmente de sala e cozinha!
Mesmo assim, certas obrigações fisiológicas dos casais são comprometidas. “Quando queremos ter intimidades com os nossos parceiros, ficamos a pensar em nós e nos filhos ao mesmo tempo”, diz, em uníssono, um grupo de mulheres, que pedem maior celeridade na resolução do seu problema de falta de casa.
É neste sentido que o senhor Luís considera difícil aguentar a vida que se tem nas casinhas de chapas, no “Condomínio de Prata”. “Aqui, morremos muito. Nunca passamos seis meses sem mortes. Isso é mesmo um cemitério dos vivos, porque todos pregam os olhos sem saber se voltam a acordar. Estamos mortos ainda em vida!”, remata.

Casais jovens ficam sem tecto

Chegou ao “Condomínio de Prata” aos 14 anos. Hoje, Emílio Fernando “Weza”, mais de dez anos depois, é um homem e tem a sua própria família formada. Como ele, muitos outros jovens, que chegaram crianças ou adolescentes ao Zango 1, cresceram, arranjaram mulheres ou maridos, têm filhos e ergueram casotas, ali mesmo no bairro de chapas.
Weza, que é técnico de frio e montador de antenas parabólicas, encontra-se numa situação marital com uma moça do bairro antigo, com quem tem dois filhos, e vive, actualmente, em casa dos pais, que já beneficiaram de uma moradia na zona do Luanda Limpa.
“Eu entro nas estatísticas como agregado dos meus pais. Hoje, tenho a minha própria família e não sei como fica a minha situação, porque, de certeza, não me vão atribuir uma casa”, desabafa o jovem.
A situação de Weza, um jovem praticante de judo e que sonha ser bombeiro, não é um caso isolado. São dezenas de jovens, que, com famílias formadas, não sabem como resolver a questão da casa própria a nível dos projectos habitacionais, para os quais foram transferidos os seus pais, quando, no bairro de chapas, já têm casotas erguidas.
Pedro Sacamala, 27 anos, é outro jovem que entra na lista das centenas de jovens casais que vivem com as suas próprias famílias em casotas de chapas no Zango 1. Casado oficialmente, há um ano, ainda continua na cubata que ergueu, no bairro onde chegou quando tinha apenas 17 anos.
“O futuro, em relação à casa própria, ainda é incerto, mas temos fé que Deus vai abençoar”, refere o jovem, que, quando abordado, estava de visita a amigos feitos na Ilha e que, agora, vivem no Luanda Limpa. “Vou aproveitar fazer uns trabalhos aqui”, conta o também técnico de frio e montador de antenas parabólicas.