Reportagem

Vegetarianismo e veganismo: Em busca de melhor qualidade de vida

Nos últimos tempos algumas pessoas têm vindo a adoptar uma alimentação apenas à base de verduras, legumes e frutas. Principalmente pessoas que desejam perder peso e melhorar a saúde. Embora para os que adoptam o novo hábito trata-se da melhor opção para a vida, a verdade é que o novo regime alimentar não deixa de causar constrangimentos no seio familiar e entre amigos

António Armindo, 46 anos, da comunidade rastafari, decidiu excluir as carnes e o peixe da sua dieta alimentar. No início a família pensou que algo de anormal estava a acontecer com ele, “pensaram que estava numa igreja ou andava metido em feitiçaria”.
A alimentação vegetariana é uma recomendação seguida pela comunidade rastafari, de que faz parte há 30 anos. Depois de pesquisas e estudos sobre a alimentação, António Armindo tomou consciência que o vegetarianismo é a melhor forma de alimentação. Mas os familiares e os amigos levaram tempo a perceber a sua decisão.
“No mundo actual, os alimentos são feitos sem o máximo cuidado e qualidade pelas indústrias, então, temos de ter a preocupação de escolher a alimentação. Os produtos transgénicos, geneticamente modificados, são um perigo para a alimentação por serem a causa de doenças como o cancro”, garante António Armindo.

A dieta rastafari

A maioria dos rastafari são vegetarianos. Segundo os princípios da sua doutrina, são recomendados a rejeitar qualquer tipo de alimento que não seja natural (enlatados, industrializados, conservados artificialmente) e a restringir o consumo de proteína animal. As bebidas são, preferencialmente, à base de ervas, como os chás. As bebidas alcoólicas, o leite e o café são vistas como pouco saudáveis.
Segundo a doutrina rastafari “melhor é a comida de ervas, onde há amor, do que o boi cevado, e com ele o ódio.” Por isso, apenas se deve comer algo puro, natural ou “limpo”.
Depois de ter sido convidado para um jantar por uma família vegetariana e gostar da refeição, Francisco Pedro, jornalista, decidiu adoptar a alimentação à base de vegetais e teve de estudar nutrição para entender melhor o fenómeno.
Vegetariano há 11 anos, disse que “ao contrário do que muitas pessoas erradamente pensam, os vegetarianos não se alimentam apenas de saladas ou ervas”.
A alimentação regular de Francisco Pedro é composta por tubérculos, vegetais, cereias e frutas. Por conta de uma desnutriçãoque sofreu, teve de incluir o leite na sua alimentação, que passou a ser lacto-vegetariana.
Confessou que, por causa das várias actividades que desenvolve, “não comia ou comia mal e fora de horas, o que me causou a perda da imunidade e adoenci”. Por isso, além do leite, há mais de um ano introduziu o catato, e, posteriormente os ovos e produtos lácteos como o iogurte. E sempre consumiu o mel.
Para o jornalista a adaptação não foi fácil, em relação às pessoas com quem convivia, tendo de manter uma consciência disciplinada. “Sair com os amigos e vê-los a tarde toda a comerem pincho, uns, e joaquinzinhos, outros, e por vezes a insistirem para eu comer, é preciso ter cabeça fria e consciência de que esta é a melhor forma de alimentação, por mais que surjam as tentações”.
Para ele, a alimentação “é um fenómeno divino, pois a pessoa cuida da vida, não só do corpo, mas também da alma”. Segundo o jornalista, o acto de alimentar-se requer cuidados e deve obedecer a um ritual, horário, silêncio e lugares adequados.
“Se o corpo não é bem alimentado, a alma não cumpre com as suas funções. Se as pessoas se preocupassem com isso seriam mais saudáveis”.
Francisco Pedro refere ainda que quem tem uma alimentação à base de vegetais “até os seus fluídos são diferentes”.

O lado espiritual

Barros Miete, sexólogo, vegetariano há 24 anos, acostumou os seus quatro filhos com esta dieta desde a nascença. “Os meus filhos sempre tiveram uma alimentação com produtos naturais e são saudáveis. Eles nasceram num ambiente de alimentos puros e ambientaram-se”, salientou. “O meu primogênito tem 15 anos e nunca provou comida impura e sabe que nós somos aquilo que comemos”, acrescentou.
Barros Miete apela aos pais a darem comidas saudáveis aos filhos e a evitarem alimentos processados como o fiambre, salsichas, chouriços e hambúrgueres, que, segundo ele, “são a causa de 60 por cento dos casos de leucemia”.
Miete vê o vegetarianismo como um modo de vida. Para ele ser vegetariano consiste em poder contribuir para a preservação da vida animal e, mesmo assim, contar com uma variedade muito ampla de alimentos saborosos e saudáveis.
Por outro lado, este modo de vida leva-o também a ter consciência de que a saúde do planeta está ligada à sua própria saúde. “O corpo humano é o templo do Espírito, então, temos o dever de cuidar desse templo”, defende.
Barros Miete socorre-se da Bíblia para explicar que esta proíbe o consumo da carne nos livros Génese 1:29, Daniel 1:11-16 e Romanos 14:21.
Citando Mahatma Ghandi, Barros Miete refere que “Há muito de verdade no dito de que o homem se torna aquilo que come. Quanto mais grosseiro o alimento mais grosseiro o corpo”.
Praticante dos desportos aikido, yoga e natação, Miete acredita que uma dieta subtil é fundamental para a prática da meditação e para uma vida sadia.
Para manter uma alimentação equilibrada inclui na sua dieta cereais, grãos, castanhas e frutas, temperos suaves, salsichas vegetarianas, sal, açúcar, mel, chás de ervas, verduras, legumes e leguminosas, leite e produtos lácteos.
“Somente com o leite e a soja podemos obter todas as proteínas necessárias. Com relação a vitaminas e minerais, todos sabemos que não há melhor fonte que as verduras e as frutas de todo tipo”, defende.
Barros Miete, que também é filantropo, sabe cozinhar vários pratos vegetarianos e não tem dificuldades em alimentar-se fora de casa, mesmo quando viaja, pois em vários países existem hotéis e restaurantes que servem pratos vegetarianos.
“Existem restaurantes com bons chefes cozinheiros. Em províncias como Cabinda temos um bom tsaka madeso, no Huambo frutas exóticas. Dada a minha experiência, encontro sempre uma opção fácil”.
Em 24 anos Barros Miete alega que nunca teve a tentação ou necessidade de voltar a consumir carne ou peixes nem problemas ou risco de saúde. “Aliás”, sustenta, “é cientificamente comprovado que os vegetarianos têm longevidade e são mais saudáveis em relação às pessoas que consomem carnes”.

Custo de ser vegetariano

Os nossos entrevistados alegam que alimentar-se à base de vegetais chega a ser menos oneroso e mais prático que a alimentação tradicional.
Francisco Pedro considera ser um mito pensar que é mais caro e difícil ser vegetariano. “O custo com esta alimentação, de uma maneira geral, é mais barato, até porque estamos em África, que possui uma grande diversidade alimentar”.
Para ele, é tudo uma questão de conhecimento e hábito. “As pessoas não sabem e não estão acostumadas”.
O jornalista considera que a cultura alimentar, o hábito de se alimentar, é difícil de modificar. Daí, segundo ele, a existência de mercados africanos na Europa, e não só. “Nós levamos as comidas de África quando vamos aos outros países”.
Compor pratos à base de vegetais requer uma boa dose de criatividade. Os livros de receitas são uma grande ajuda.

Comer em restaurantes

Ter o que comer fora de casa é das principais dificuldades para quem é vegetariano. Mas já vão surgindo em Luanda alguns restaurantes que oferecem pratos à base de vegetais ou sandes.
Uma alternativa são os restaurantes que servem buffet e onde o cliente pode seleccionar os alimentos que quiser. “Assim, por exemplo, posso comer um arroz com feijão e legumes, saladas e banana pão”, diz Mariana, que não é vegetariana como tal, mas de vez em quando evita carnes e peixes.
O restaurante Tambarino, de grande referência em Luanda, situado na Maianga, tem servido comida vegetariana desde 1992, devido à clientela eclética. Segundo Fernando Pacavira, chefe de sala, o restaurante prepara qualquer refeição ao gosto do cliente, mas as propostas vegetarianas da casa são à base de massas acompanhadas com molhos de tomate, abóbora, queijo ou camarão. Existem ainda opções como o funge de milho ou de bombó, a muteta (semente de abóbora moída), a quizaca, a fúmbua, a rama de batata, espinafres, a gimboa e os cogumelos.

Parecer de uma médica nutricionista

Segundo a médica nutricionista Nelma Manuel, o vegetarianismo é definido como um regime alimentar extremamente rico em frutas, vegetais e legumes, com exclusão dos alimentos de origem animal.
Existe uma diferença entre o vegetarianismo e o veganismo. Os vegetarianos comem alguns alimentos de origem animal como leite e ovos e os vegans excluem os ovos e o leite. No entanto, há vários tipos de vegetarianos. Os lacto-vegetarianos são os que consomem leite e os ovo-lacto-vegetarianos são os que consomem ovos e leite.
Os vegans estão sujeitos a apresentar deficiência de ferro, vitamina B12, ácido fólico e cálcio.
“Hoje na nossa sociedade existe a tendência de mais pessoas optarem pelo vegetarianismo com o fim de prevenirem algumas doenças, para cuidarem-se mais do ponto de vista estético e para sentirem-se mais fortalecidas, com mais saúde, vitalidade e disposição”, enfatizou Nelma Manuel.
A nutricionista acrescenta que este tipo de alimentação adequa-se bem ao nosso contexto alimentar. “A base alimentar inclui frutas como a melancia, mamão, melão, abacate, legumes como o pepino e a abóbora, os cereais como o arroz, o milho, o sorgo e o centeio, tubérculos como a batata-doce ou rena, o inhame e a mandioca e as leguminosas do grupo do feijão, grão de bico e tremosso. É na combinação destes alimentos que os vegans ou os vegetarianos vão buscar as proteínas”.

Combinar os cereais
A nutricionista aconselha aos vegetarianos o consumo de muitos brócolos e cogumelos, que são ricos em proteínas. E para manter alto o teor de proteína é importante combinar os cereais com leguminosas.
“Por exemplo, arroz com grão-de-bico e depois um brócolo estufado ou ao alho e, posteriormente, o consumo de uma fruta cítrica, sumo de limão, laranja ou maracujá, para aumentar a produção de vitamina C”.
Para quem tem quintal, a nutricionista sugere que comece a cultivar os próprios alimentos, ganhando assim em termos de maior garantia de higienização. E mais.
“A partir do momento em que se começa este tipo de alimentação, principalmente a vegan, é necessário fazer uma consulta de nutrição ou de medicina geral, fazer exames médicos periódicos, bem como exames bioquímicos, para ver como estão os minerais e as vitaminas, para ter um controlo maior da saúde”, defende a médica.
Caso a alimentação seja insuficiente para suprir o défice nutricional, pode-se tomar suplementos com base em alimentos de origem vegetal, refere Nelma Manuel, “uma vez que muitos rejeitam os suplementos de origem animal, como o óleo de peixe que é o Ómega, ou a carnitina que é à base de carne”.
A nutricionista aponta as vantagens da dieta vegetariana: previne doenças como o cancro e prisão de ventre, dado o alto consumo de fibras, evita a obesidade, mantém o índice de massa corporal controlado, dentro da normalidade e diminui as patologias do sistema cardiovascular, como a pressão alta e as diabetes.
A também professora de nutrição salienta que a maioria dos vegetarianos em Angola o são de forma intermitente, geralmente associada à estética. “Pessoas que querem perder peso durante um período, então, durante 15 dias são vegetarianas”.
Nela Manuel diz que normalmente não aconselha os seus pacientes a fazerem uma alimentação apenas de vegetais, a não ser a pedido expresso dos mesmos.
“Como profissional de saúde recomendo o consumo de todos os alimentos, desde que seja de forma equilibrada”.
A médica orienta o consumo de carne, peixe, ovos, leite e uma quantidade considerável de verduras, legumes e frutas, tudo de forma equilibrada, dependendo do objectivo de cada um.
“Se for para perder, manter ou diminuir peso fazemos um ajuste tendo em conta a individualidade fisiológica do paciente e a sua vontade. O paciente tem o livre arbítrio de escolher o que quer para si. E nós, profissionais, estamos aqui para orientá-los”.
A profissional de saúde também considera que o vegetarianismo e o veganismo chegam a ser mais acessíveis do ponto de vista económico. “Se formos ao mercado com 2 mil kwanzas, teremos a batata doce, quiabo, rama de batata, feijão, gimboa, fuba, e conseguimos fazer um maior número de refeições variadas”.
Ressalta que “os alimentos de origem animal são mais perecíveis, estragam facilmente, precisam de conservação imediata e por isso têm um custo elevado.”

Muito mais do que uma dieta

Dieta e forma de viver, o vegetarianismo surgiu na antiguidade, quando então foi adoptado pelos gregos e chineses. As razões que fazem as pessoas optar pelo vegetarianismo podem ser éticas, mas esse tipo de dieta também pode ser adoptado por questões de saúde, ambientalismo e religião. Apesar de excluir as carnes e os peixes, a dieta vegetariana tem uma grande variedade de alimentos saudáveis e saborosos, sendo que muitos pratos étnicos, principalmente da cozinha indiana, são vegetarianos. Os vegetarianos comem ovos, lacticínios e outros produtos de origem animal, como o mel.

Veganismo

Mais do que uma opção alimentar, o veganismo é um modo de vida, uma vez que os vegans recusam não apenas a ingestão de alimentos derivados de animais, mas também a utilização de produtos que contenham alguma coisa animal, como roupas ou objectos em pele ou, muitas vezes, até lã. Os vegans não consomem ovos, lacticínios, mel, gelatina de origem animal e qualquer outro alimento que contenha ingredientes derivados de animais.