Reportagem

Viagem entre Malanje e Saurimo consome mais de 12 horas

O Jornal de Angola completou, quinta-feira, por via terrestre (Estrada Nacional 230), a ligação entre a cidade de Malanje, capital da província homónima, e Saurimo, capital da Lunda-Sul. O percurso, que totaliza 630 quilómetros, consumiu cerca de 12 horas.

Mais ou menos 90 por cento das viaturas na estrada eram camiões pesados que transportavam combustível. Os restantes 10 por cento dividiam-se entre o transporte de mercadorias contentorizadas e alguns (poucos) jipes de tracção total. As viaturas ligeiras quase não têm como avançar nos troços mais difíceis, sobretudo durante a época chuvosa.

As limitações para sair e entrar da província de Luanda, devido à Covid-19, diminuem certamente o tráfego automóvel em todo o país. Mesmo assim, as 12 horas de viagem para 630 quilómetros de distância, entre as 5 e as 17 horas, representam uma (baixíssima) média de 52,5 quilómetros por hora. É a velocidade de uma motorizada de baixa potência.

A EN 230 passa pela cidade de Malanje, atravessa parte da província da Lunda Norte para depois entrar na Lunda- Sul.

Se entre a cidade de Malanje e a ponte do Rio Lui (pouco mais de 120 quilómetros) é possível andar razoavelmente, apesar dos percalços, os mais de 60 quilómetros - percorridos em três horas - até à sede do município de Xá-Muteba, província da Lunda-Norte, são um autêntico martírio de lama, buracos e desvios bruscos.

Quem sofre de problemas de coluna deve evitar as viagens de carro naquele trajecto. A determinada altura, vários camiões bastante pesados encalharam numa zona de lama escorregadia e pegajosa, resultado da falta de condições de trânsito e das chuvas constantes que ali vão caindo.

Foram mais de 30 minutos de espera até haver condições para seguir viagem. Só mesmo a necessidade de um salário leva os heróicos camionistas àquela região.

À saída de Xá-Muteba já são visíveis os trabalhos de recuperação da estrada. Mas, é uma alegria efémera, por enquanto.

Muxinda, terra sem lei

Entre a sede do município de Xá-Muteba e a localidade de Muxinda, município de Capenda-Camulemba, província da Lunda-Norte, a viagem faz-se com algumas dificuldades.

Mas à entrada de Muxinda está um controlo policial que não deixa adivinhar o que se segue. É praticamente impossível atravessar a pequena vila numa velocidade superior a 20 quilómetros por hora.

Nem é isso que mais impressiona quem ali passa pela primeira vez. Qualquer olhar atento percebe logo que é uma zona de actividade mineira onde parece não existir autoridade. As montanhas de lixo da altura de uma pessoa normal acumulam-se ao lado da picada. E das muitas pessoas que ali vivem e trabalham cara-a-cara com a sujeira.

As lojas comerciais precárias (cantinas, barbearias, restaurantes de mau aspecto, entre outras) são às dezenas e basta olhar para a esquerda e para a direita para apreciar os montes de cascalho, resultado da actividade diamantífera manual, que se acumulam a pouco mais de 100 metros das viaturas que vão passando aos saltos.

Ultrapassado o desgosto, continuamos na mesma senda: 20 quilómetros por hora de velocidade para um sem-número de solavancos e barrancos até à sede do município de Capenda-Camulemba. Muxinda está a 350 quilómetros de Saurimo.

Até à comuna de Xinge, ainda no mesmo município, somos brindados com uma chuva intransitável, de tão forte, e por buracos de todo o tipo e cara-feia, mais o asfalto cortado aos pedaços. Nestas condições não é possível contemplar as bonitas planícies e montanhas e pessoas que vivem ao longo do trajecto.
De Xinge até ao destino final são mais três horas de percurso, agora em melhores condições.

Nos últimos dias de Agosto, o ministro das Obras Públicas e Ordenamento do Território, Manuel Tavares de Almeida, consignou cinco lotes (6,7,8,9 e 10) de 328,7 quilómetros do projecto de reabilitação e ampliação da EN 230.

Com a assinatura dos contratos, ficam cobertos os 10 lotes da ligação entre Malanje e Saurimo. As obras enquadram-se no Programa Estratégico para a melhoria do sistema de transportes no país. Ainda faltam 18 meses – duração prevista das obras – para o fim do martírio.