Sociedade

Recusada assistência à mulher grávida e com hemorragia

Envolto num pano pintalgado dos pés ao tórax, Joana António recebeu a reportagem do Jornal de Angola à porta de casa dos pais, no Cazenga. É lá onde está a gozar do repouso absoluto, dado pelo médico, e agora sob os cuidados pela mãe. Sentamo-nos na sala, não muito distante de três mulheres atarefadas em trabalhos domésticos, numa varanda minúscula, logo à entrada principal.


O rosto de Joana ainda transparece algum trauma psicológico depois de passar 18 horas com hemorragia sem atendimento hospitalar. “Tudo podia acontecer”, diz o esposo Milton Caxinde, que acrescenta ter acompanhado um inferno nas duas maternidades, se não tivesse contado com o apoio de um jornalista do Jornal de Angola.
Madrugada de sábado, 02. Joana António, 27 anos, viu pequenas gotículas de sangue a escorrer pernas abaixo. Despertou apreensiva. A situação repetia-se pela segunda vez depois de no dia anterior ter observado a mesma situação. Por volta das seis horas, Joana dirigiu-se ao Hospital Materno Infantil do Kilamba Kiaxi, na companhia do esposo e da tia. “Só fui atendida duas horas depois”.
Era o início de um calvário. Joana conta que às 9 horas deste dia foi atendida por uma parteira, que pediu para aguardar pelo médico. Uma hora depois, o médico observou-a e pediu uma ecografia. Em menos de uma hora a ecografia, tirada num posto de saúde fora da unidade, confirmava a perda do feto de três meses.
Só às 12 horas foi possível dar o envelope ao médico que confirmou um aborto em vista. “Ele disse que não podia fazer curetagem porque o colo estava fechado e precisava-se do material que estava fechado numa sala. Ele informou-nos que a colega não apareceu para abrir a porta”, explica em surdina. Daí o médico passou uma receita para regressar à casa. “Ele disse que podia suportar 72 horas, até segunda-feira, para fazer a curetagem”, diz num tom carregado de angústia.
A resposta do médico causou murmúrio entre o casal e a tia. Nada a fazer. “Voltar a casa era um suicídio”, conta Milton Caxinde, que no momento concertaram ir à Maternidade Lucrécia Paim, por voltas das 15 horas. Joana conta que as dores eram insuportáveis, mas a enfermeira apareceu às 20 horas, avisando que a curetagem dependia de uma doação de sangue, por parte de um familiar. Num estalar do dedo, já lá estava o irmão de Joana para doar sangue.
“Preenchemos uma ficha e uma enfermeira retirou o sangue para análise. Uma hora depois deu-se o sangue”, aclara Milton, que pessoalmente entregou um justificativo do sangue doa­do à enfermeira do banco de urgência a fim de ver a mu­lher atendida.
Nem mesmo com o justificativo Joana mereceu atenção dos enfermeiros que, como conta, andavam de lado para outro a falar de novelas e agarrados ao facebook. “Vi coisas impressionantes, vi mulheres a darem à luz no corredor aos gritos das enfermeiras, vi muitas mulheres com hemorragia deitadas num mesmo espaço com todos os riscos de contaminação”, explica Joana, abanando a cabeça em sinal de repúdio.
Quase 21 horas, Milton estava apavorado com o sofrimento da esposa que a todo instante dizia não mais suportar as dores. Foi naquele momento que pensou em ligar para um jornalista do Jornal de Angola. “O jornalista deu-me um contacto da médica Felismina Neto, da Direcçao Provincial de Saúde, que pediu para passar o telefone a uma enfermeira que se recusou, dizendo em viva voz que não quer estragar o pão”.Foi um catalogador que acedeu falar ao telefone e daí abriu o processo, mas avisou que daí em diante já não era da sua responsabilidade. Até a meia noite, Joana António conta que não tinha sido atendida e enfermeiras gracejavam, informando que o atendimento só retomaria de manhã.
No segundo contacto, por telefone, com o jornalista, Milton explica que voltou a pedir mais ajuda, uma vez que a mulher estava em exaustão, em razão das 18 horas de sangramento.
“Neste contacto, o jornalista pediu um pouco de calma porque já tinha falado com a directora da Maternidade Lucrécia Paim, Adelaide de Carvalho”, explica com um sorriso aberto.
Em menos de meia hora, Joana foi chamada por uma enfermeira para a sala. “Fui aten­di­da e só não sei o que aconte­ceu com as mais de 20 mulheres que deixei a gemer e a jorrar sangue.

 

                                      Pacientes devem denunciar maus tratos no acto das consultas

Na presença da reportagem do Jornal de Angola, a directora clínica do Hospital Materno-Infantil do Kilamba Kiaxi, Rosa Camilo, contactou o médico em serviço no sábado, 02, prometendo tomar medidas, uma vez que o hospital tinha material para atender Joana António.
Ao lamentar o sucedido, a gineco-obstetra fez um apelo aos pacientes para denunciarem o mau atendimento sem quaisquer receios, visto que o objectivo é melhorar os serviços prestados.
“Temos um contacto telefónico no Banco de Urgência para os nossos pacientes denunciarem quando registarem mau atendimento. Sempre pedimos aos colegas para, durante as consultas, atenderem e explicarem melhor os doentes”, disse.
O jurista Adriano Correia corrobora com a opinião da médica e realça que se o paciente verificar um mau atendimento deve-se dirigir ao Gabinete do Utente das unidades hospitalares, constituída por uma equipa multidisciplinar.
Caso não haja um resultado desejado, o paciente deve recorrer aos gabinetes jurídicos das direcções municipais e provinciais de Saúde para exigir a responsabilização dos funcionários.
De acordo com o jurista, o utente deve encaminhar as suas reclamações à Procuradoria Geral da República que, através dos mecanismos próprios, avalia e encaminha o processo aos tribunais. “Os serviços de saúde são gratuitos e todo o cidadão deve ser atendido de forma igual”, defende.